Cruz sobre o altar
Pa. Paula Cristina Lüdtke, formada em Teologia pela Faculdades EST. Atua na Paróquia Bom Pastor, em Bom Retiro do Sul/ RS
Uma das lembranças mais marcantes que tenho da minha infância é das vezes que entrava na Igreja. Havia certo ritual que cercava aquele momento. Era como se fosse um pedacinho do céu. Havia recomendações: fazer silêncio e ter respeito pelo altar, pois ele era sagrado e remetia a algo muito sério, que eu não entendia bem o que era. Hoje, anos depois, aquele sentimento de estar em um pedacinho do céu permanece e o que antes era apenas uma sensação sobre algo importante tornou-se mais compreensível.
O altar é o coração da Igreja. Neste coração, somos unidos por um ato de profunda paixão. Jesus, o Messias, o Filho de Deus, morreu pregado em uma cruz de horror, de braços abertos, para nos salvar e fez isso por amor. Dessa forma, a cruz passou a ser um dos símbolos mais conhecidos da cristandade e não para ser venerado e adorado, mas para nos lembrar da misericórdia e do amor de Deus para conosco e que deu o seu filho para nos salvar.
No altar e em nosso dia a dia, a cruz quer ser lei e Evangelho, ou seja, ao mesmo tempo em que aponta para os nossos pecados e nos questiona a respeito das vezes em que nós continuamos crucificando Jesus e julgando de acordo com os nossos critérios humanos, também pode e quer nos consolar, afinal tudo já está consumado e Jesus venceu o poder da morte pela vida verdadeira e em seus braços está o abraço da salvação. Ele se doou para nos unir ao Pai.
| Para refletir, leia Gálatas 2.19-21 |
Nossa ‘cruz’ de cada dia
P. Henrique Guilherme Scherer, Bacharel em Teologia pela EST, 1º suplente do Conselho da Igreja pelo Sínodo Centro- Campanha Sul e Titular da Comissão de Exame Oral de Admissão ao PPHM e Pró-Ministério. Atua na Comunidade em Agudo/RS
Diz um ditado popular Cada pessoa carrega uma cruz em sua vida. Jesus afirmou aos seus seguidores que neste mundo eles passariam por muitos sofrimentos. Afinal, quais são as nossas cruzes hoje?
Cruz pode ser compreendida como um fardo que uma pessoa carrega sobre os seus ombros. Neste sentido, a cruz surge a partir do compromisso que uma pessoa assume para cuidar de alguém idoso, doente ou portador de deficiência. Por causa disso, ela abre mão de muitas oportunidades.
Por outro lado, existem aquelas pessoas que carregam o peso da cruz por causa da pobreza, da falta de estudos, da fome, do preconceito racial, social e econômico, da exclusão, da incompreensão e, em função disso, se sentem humilhadas e sem ação.
Por último, cruz também pode ser entendida como perseguição que uma pessoa sofre por causa da sua profissão de fé e da prática da justiça e do amor. Isto acontece quando uma pessoa se engaja em movimentos sociais que lutam pelo direito à vida, cuidado da natureza e superação de toda a forma de violência. Por causa dessa sua atuação, há pessoas que até são mortas.
Como Jesus vê a vida dos seus discípulos? Ele afirma que quem quiser ser seu discípulo deve carregar a sua cruz e seguir os seus passos (Lucas 9.23). No contexto dessa recomendação, afirma que ninguém deve se envergonhar de viver e testemunhar o amor de Deus pela humanidade. Faça isto em palavras e atitudes em sua vida.
| Para refletir, leia Mateus 11.28-30 |
Cruz vazia: Páscoa
Pa. Adriane Beatriz Dalferth Sossmeier, formada em Teologia pela EST, especializada em Bibliodrama, é Coordenadora da Equipe de Diaconia do Sínodo Paranapanema. Atua na Paróquia Cristo Salvador, em Curitiba/PR
Na manhã da Páscoa, a cruz resplandece vazia no alto do monte! Surge um novo horizonte, surge uma nova esperança: a vitória da vida! Ao mesmo tempo em que a cruz é símbolo de sacrifício e morte, ela é sinal e lembrança da vitória de Cristo sobre a morte, com a sua ressurreição. Assim, a cruz vazia aponta para uma nova possibilidade: vencer o sofrimento!
Deus se aproxima de tal forma que assume sobre si próprio o peso do sofrimento, do ódio e da morte para nos libertar. Ele abre os seus braços para que sintamos o seu amor. É a Sua missão: Ele cumpre a Sua promessa e paga o preço para nos ensinar o caminho da Libertação e da Esperança, em que a tortura da cruz e morte não tem mais a última palavra.
Celebrar este acontecimento e colocar a confiança em Cristo, morto e ressuscitado, abre os nossos corações para enfrentarmos as situações difíceis com calma, sem desespero e ódio. Cristo quer carregar o peso da cruz com os que sofrem na alma, no corpo, com as vítimas de todo o gênero de injustiça.
Ele toma sobre si próprio aquilo que é pesado demais para nós e nos impulsiona para a vida em amor e libertação de tudo que oprime. Ele diz no Evangelho Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos que eu vos alivirei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve (Mateus 11.28-30). A cruz vazia toma uma dimensão existencial à qual todos nós somos confrontados: só sofremos sem limites por causa daqueles que amamos!
| Para refletir, leia Mateus 11.25-30 |
Deus que sofre
P. Nilo Orlando Christmann, Pós-graduado em Aconselhamento e Psicologia Pastoral pela EST. Atua como Pastor Sinodal do Sínodo Rio Paraná
A Bíblia descreve a eternidade assim: comunhão plena com Deus, ausência de lágrimas, dor, tristeza, choro e morte (Ap 21.4), mas, daquilo que esperamos, temos, por enquanto, apenas a ‘amostra grátis’, um aperitivo da grande festa. Afinal, a dor, a lágrima… e a morte ainda fazem parte do cotidiano. Deus nos concede, no presente, alegria, prazer, paz e comunhão. Ainda assim, as dificuldades estão aí.
Quem já não experimentou momentos de profunda angústia? Situações em que tocamos o fundo do poço? Nestas horas, precisamos de pessoas que nos compreendam. Normalmente, aquelas que já sofreram mais conseguem fazer isso melhor. Como diz E. Drewermann, Somente conseguimos ir com os outros até onde nós mesmos já fomos.
Há gestos de solidariedade que são humanamente possíveis. Há pessoas que são instrumentos de consolo nas mãos de Deus. Contudo, ninguém sabe tanto sobre sofrimento como o próprio Deus. Em Jesus Cristo, na cruz e no caminho que conduziu a ela, a dor e a angústia chegam ao limite. A oração de Jesus no Getsêmani, pedindo para que o Pai o livrasse da cruz (Mt 26.36-46), fala por si só.
Mesmo quando os pés tocam o fundo do poço, uma convicção continua inabalável Deus nos compreende! A mão dele está estendida para nos tirar de lá, mesmo quando o caminho passar pela morte, porque também desta Deus entende. Não só entende, como também a vence. No horizonte, está um tempo em que as coisas velhas terão passado (Ap. 21.4). Eis a razão da nossa esperança!
| Para refletir, leia Mateus 26.36-46 |