P. Carlos Eduardo Müller Bock, formado em Teologia pela Faculdades EST, com Especialização em Pastorado Escolar pela Rede Sinodal, ambos em São Leopoldo/RS, e cursando MBA em Administração na Fundação Getúlio Vargas, no Polo Novo Hamburgo/RS. Pastor Vice-Pastor Sinodal do Sínodo Rio dos Sinos, é Diretor Geral da Associação Benefi cente Evangélica Floresta Imperial (ABEFI), em Novo Hamburgo
O filho do homem veio para servir (Mc 10.45)
As temperaturas estão próximas de zero no sul do Brasil. Em uma cidade da Grande Porto Alegre, um morador de rua reclamou ao agente público da Prefeitura que as pessoas não o deixavam dormir à noite: ‘De meia em meia hora, chega alguém de Igreja me oferecendo cobertor, sopinha, chocolate quente e pão. Não consigo mais dormir’.
Mas como agir certo? Como devemos servir a quem tem necessidade? É preciso aprender com Jesus.
Jesus tinha um programa de ação bem estabelecido. O Senhor me deu o seu Espírito. Ele me escolheu para levar a boa notícia aos pobres e me enviou para anunciar a liberdade aos presos, dar vista aos cegos, libertar os oprimidos e anunciar o tempo em que o Senhor salvará o seu povo (Lc 4.16-19).
Que metodologia ele usou para desenvolver o seu programa? Começou pregando. Pôs-se em movimento pelos caminhos, de casa em casa, nas sinagogas, em cima de barcos e burricos emprestados – e até no templo. Nestes espa- ços, encontrou os doentes, os cegos, os oprimidos, os cativos, os doentes e os ouvintes para a pregação a respeito do Reino de Deus. Fez isso sozinho? Não! Agregou homens e mulheres à sua causa. Criou uma comunidade de seguidores.
Agia com amor, sem preconceito étnico, de gênero e social. Agia com extrema sensibilidade e empatia. Curava, perdoava pecados, libertava de preconceitos e dogmas religiosos que impediam a visão clara do Pai amoroso, em quem ele cria profundamente. Nunca se serviu do seu poder, mas usou o poder para servir. A sua ação em favor de alguém resultava em gratidão, alegria, cura, perdão, autonomia, integra- ção social e vários outros benefícios. Jesus Cristo nos legou, como ensino, o mesmo modo de agir.
Jesus vivia em um mundo extremamente simples. Tudo acontecia sem pressa, sem muitas alternativas. A nossa questão fundamental é agir como ele em um mundo extremamente complexo, interligado, com relações humanas individualizadas.
A queixa do morador de rua a respeito do excesso de apoio é sinal de misericórdia de cristãos sensibilizados. Querem agir como Jesus, mas não conseguem. Agem por impulso e o seu esforço se perde. Faltou clareza no programa, coordenação na metodologia e o resultado não foi o esperado.
Agir como Jesus Cristo no serviço ao próximo tem que ser pensado, combinado, potencializado com a união de forças de pessoas e Comunidades. Tem que ir além de uma ação individual, sentimental, desorganizada e sem resultado.
Precisamos, de fato, aprender com Jesus a cuidar da forma como praticamos a diaconia. Ela precisa alcançar a quem tem necessidade dela com os mesmos resultados que Jesus tinha: gratidão, alegria, cura, perdão, autonomia e integra- ção social.
Para refletir, leia 1João 3.16-18

P. Afonso Adolfo Weimer, formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Pastor Vice-Sinodal do Sínodo Rio Paraná, atua na Comunidade em Corbélia/PR
Livres para cuidar
Gostamos de ouvir a palavra liberdade. Ser livre é um desejo bem humano. Por que não dizer um desejo de todo ser vivo? Também animais e plantas não gostam e não suportam o confinamento. Quando ouvimos estas palavras: ‘você é livre’, o nosso imaginário vai longe! Boa parte das pessoas pensa logo em fazer o que bem entende: não tem mais horário a cumprir, não há mais responsabilidade por algo, estou livre!
Como compreendemos o ser livre? Conta-se que o Psicoterapeuta Viktor Frankl, conhecido como o criador da Logoterapia, com importantes livros sobre o ser humano, sobrevivente de Campo de Concentração, fez uma proposta inusitada ao Governo dos Estados Unidos. Tratava-se de construir uma estátua do mesmo tamanho e perfil daquela que estava na costa leste, mas, agora, na costa oeste. No leste, temos a famosa Estátua da Liberdade. Na costa oeste, a estátua idêntica seria chamada de Estátua da Responsabilidade.
Não tenho conhecimento se esta proposta foi real, verídica ou apenas uma lenda. O que importa é a lição que nos traz. Qual era a intenção do Psicoterapeuta? Mostrar que não há liberdade sem responsabilidade! Responsabilidade é uma palavra que tem como raiz latina a palavra respondeo, responsum e, como primeiro significado, ‘comprometer-se’ e ‘corresponder a um compromisso anteriormente tomado’. É daí que vem a palavra ‘resposta’. Responsabilidade é a resposta que nós damos.
Somos seres livres que respondemos pelas nossas atitudes. A nossa liberdade não é para nós mesmos, mas para o outro. Ser livre não significa ser egoísta. Significa, antes, poder escolher cuidar da quele que necessita de mim.
Pela graça de Deus, [somos] livres para cuidar. A graça de Deus é o seu amor incondicional por nós, isto é, não coloca condições. Não precisamos, primeiro, fazer algo para que Deus nos ame. Graça é entregar-se por quem não merece. Foi isto o que Deus fez por nós: amou-nos sem merecermos. Quando aceitamos este amor imerecido pela fé em Cristo, nos tornamos pessoas livres. Não precisamos conquistar o céu, a salvação, pois ela já nos foi dada. Nós respondemos ao amor dirigido a nós com amor. Pela fé em Cristo, somos pessoas livres e, pelo amor, somos pessoas chamadas a responder.
Somos livres pela graça, somos livres chamados à responsabilidade de cuidar. Como eu cuido da minha casa? Como eu cuido da minha lavoura? Como eu cuido da minha rua, do meu bairro, do meu município? Quais as respostas que eu estou dando? Muitas pessoas respondem: ‘se o meu está garantido, se eu estou feliz, é o que importa!’. São pessoas ‘ensimesmadas’, isto é, pensam em si, querem para si. Esta postura é extremamente egoísta e não é de uma pessoa livre. Ela está presa em si mesma. Quem cuida do outro (do seu pró- ximo ou da nossa casa comum), está livre de si mesmo. Por amor, sai de si mesmo.
Para refletir, leia Lucas 10.25-37