Ágil e atual
Na sociedade pós-moderna na qual vivemos, com uma grande dose de aventura e emoção, experimentar equivale a aprovar. Daí a deixar-se servir e atender a bel-prazer é um caminho muito curto. Isso compromete em grande escala os valores, ameaça a dignidade humana, desfaz-se a necessidade de assumir compromissos, inicia-se uma generalização que, não raro, culmina em julgamentos, conflitos e divisões.
Lamentavelmente, isso tem ocorrido na história da Igreja de Jesus Cristo fundada em Jerusalém por ação do Espírito Santo. Por conseguinte, constitui-se em uma ameaça à fidelidade ao Evangelho. Sobretudo, porque ‘a justificação não é experimentada e, sim, crida’ (Paul Althaus). O apóstolo Paulo lembra a comunidade cristã em Roma E como poderão crer, se não ouvirem a mensagem (Rom 10.14) e exorta os tessalonicenses Examinem tudo, fiquem com o que é bom (I Tess5.21). Ele não disse ‘experimentem tudo’. Nem tudo é bom! Em tempos de Pós-Modernidade, é bom lembrar: Deus não se torna conhecido através da razão, com a qual procuramos compreendê-lo, mas pela revelação, na qual ele se nos dá livremente a conhecer, por isso a Teologia luterana ensina Creio no Espírito Santo… e a Igreja clama: Vem, Espírito da vida (HPD79)!
Será que Paulo já tinha como pano de fundo na sua afirmação aquele ‘algo mais’, isto é, que a inteligência deveria dominar o instinto que nos diferencia dos primatas? Como constata Hans Blumenberg (Die Legitimität der Neuzeit), quando Deus assume um corpo (Isaías 43.1) como o nosso, nós nos afastamos da brutalidade dos bichos para nos aproximar da grandeza divina.
Também face ao aumento da violência registrada em nossos tempos, em parte graças à conquista da liberdade humana, violência que, às vezes, beira a bestialização, precisamos perguntar pelo pêndulo que norteia a pregação e a ação de uma Igreja. Daí a importância para a IECLB, membros e lideranças, conhecer e cuidar – e bem! – da nossa confessionalidade. Ela tem início no ‘artigo da justificação, mestre e soberano sobre todas as doutrinas e sobre toda a Igreja’: O justo viverá por fé (Rom 1.17), ou seja, vive da nova justiça manifesta em Cristo Jesus.
Quem compreende a doutrina de Cristo tem o mesmo sentimento como de um pássaro que até aquele momento não sabia que tinha asas e, agora, de repente, percebe que pode voar, ser livre e nada mais precisa temer (Leon Tolstoi). Isso não deveria levar à compreensão que, justificados em Cristo, podemos tudo. Somos livres na fé, mas servos no amor, como ensinou Lutero em seu livro Da Liberdade Cristã.
Nossa liberdade como membro, ou como Comunidade, sempre obedecerá ao mandamento maior do Corpo de Cristo expresso na Primeira Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios Pois o corpo não é feito de uma só parte, mas de muitas (12.14).
Tanto no seu corpo eclesial, formado pelas suas Comunidades e seus Sínodos, como na comunhão ecumênica com as Igrejas no mundo que confessam Jesus Cristo como único Senhor e Salvador, cabe respeitar e acolher cada membro e cada Comunidade/Igreja como é e não impor aquilo que ela própria não consegue harmonizar com a sua identidade confessional.
A IECLB está também inserida, como ‘Igreja de Jesus Cristo no País’ (Constituição da IECLB), no Estado brasileiro, atualmente caracterizado por um marco legal que gera implicações, obrigações e que, desde a Constituição da República de 1891, instituiu a separação entre Igreja e Estado e eliminou muitos privilégios da Igreja.
Repudiando toda e qualquer influência no Governo e no Congresso gerada por interesses mundanos, a IECLB precisa cuidar do vínculo confessional com suas instituições tanto em respeito à história das mesmas quanto em fidelidade à mensagem pública da Igreja cristã no que se refere aos problemas do mundo e do seu povo. Uma fé cidadã não pode se divorciar do seu testemunho interno já que este implica naquela (O Manifesto de Curitiba, 1.3). O melhor exemplo para tanto é a urgente necessidade de investir em educação: cristã, cívica e ambiental. Ainda temos no Brasil 64 milhões de analfabetos ou com primeiro grau incompleto (Erich Hobsbawn, Historiador britânico, definiu certa vez o nosso país como ‘um monumento à irresponsabilidade social’). Quantos na IECLB?
Ao lado da educação formal, a IECLB está respondendo ao desafio de ampliar e qualificar a formação teológica dos membros, com o Plano de Educação Cristã Contínua (PECC) fundamentado na Bíblia, no Batismo e na Confessionalidade. Aqui vale a lição do Educador Paulo Freire: ensinar-aprender são verbos conjugados simultaneamente. Isto é, a compreensão pedagógica do PECC se baseia na liberdade, na igualdade, na participação e na valorização da pessoa no processo educativo e na transformação que esse processo gera.
A confessionalidade traz consigo o ato de prestar confissão, isto é, declarar, ‘afirmar publicamente…’ (Mateus 10.32), tomar partido, ser a favor ou contra, dizer sim ou não para Jesus Cristo. Confissão de fé não é uma oração. É testemunho público (O imperador em Augsburgo queria apenas receber o texto da CA. Os membros evangélicos da dieta, porém, queriam confessar a sua fé publicamente, no que tiveram êxito com a leitura dos 28 Artigos, em 25 de junho de 1530, às 3 horas da tarde, demorando cerca de duas horas).
Curiosamente, encontra-se em um dos dicionários para a palavra ‘confessionista’ a explicação diz-se da doutrina luterana estabelecida pela Confissão de Augsburgo (1530), referindo-se à confissão redigida por Felipe Melanchton e apresentada na cidade com o mesmo nome, na Alemanha.
A Confissão de Augsburgo (CA) é um documento histórico das Igrejas luteranas, redigida em um momento crítico da história do cristianismo. O Professor Felipe Melanchton preparou um documento onde expunha em 28 artigos a doutrina dos luteranos. Ele levou em conta documentos anteriores, como, por exemplo, A Confissão de Lutero, de 1528, e os Artigos de Schwabach, de 1529. O propósito era um só ‘viver em uma só igreja cristã, em unidade e concórdia’. Se esse propósito não teve êxito, a CA tornou-se um princípio hermenêutico da Reforma e, consequentemente, da nossa Igreja. É nessa Confissão de Augsburgo, ao lado das demais confissões luteranas reunidas no Livro de Concórdia, de 1580, e dos escritos de Martim Lutero, que encontramos as mais significativas informações sobre a nossa confessionalidade. Esta expressa a nossa identidade, resumida nos quatro ‘sola’: somente Escritura, Cristo, Graça e Fé. Esses ‘sola’ têm sido a carteira de identidade dos luteranos.
Bíblia – a mais alta instância normativa em assuntos de fé e conduta: é a fonte exclusiva da fé. É a resposta de Deus às minhas perguntas. Através da leitura da Palavra de Deus, experimento Quem é Deus. O Antigo e o Novo Testamento apontam a pessoa e a obra de Jesus Cristo, Senhor e Salvador, como o centro da Bíblia. Isso é tão importante que Lutero, na firme convicção que a Bíblia interpreta a si mesma, chega a afirmar ‘sempre deve-se distinguir se Cristo fala ou não. Se ele falou, então, isso é para ser aceito; se não, deve ser rejeitado’. É o que também ocorreu na Reforma do século XVI: o estudo da Bíblia desencadeou um processo de mudanças praticamente em todas as áreas e extrapolou em muito o local no qual os seus estudos foram feitos e os seus resultados começaram a ser colhidos. Com razão, há quem defenda que ‘a confissão luterana, na verdade, nada mais pretende ser do que ‘confissão bíblica’ (G.Brakemeier, Identidade Luterana, Comunhão Martim Lutero, pág. 13). A Bíblia, assim, quer ser diariamente estudada e traduzida para a nossa realidade, com fidelidade, isto é, com lealdade, honestidade, respeito, piedade (Umberto Eco, Quase a Mesma Coisa, Record, pág. 426).
Igreja: Encontramos no artigo VII da Confissão de Augsburgo acerca do surgimento, poderíamos também afirmar, criação ou existência da Igreja: é a congregação dos santos, na qual o Evangelho é pregado de maneira pura e os sacramentos são administrados corretamente. Palavra e Sacramento, portanto, identificam a una, santa Igreja cristã e convocam os seus membros para um consenso doutrinal. Não há freguês nem cliente, tampouco essa congregação é uma empresa. Logo, ouvido o Evangelho do Deus gracioso que em sua misericórdia criou pela ação do Espírito Santo essa Igreja, os membros que a integram podem se alimentar dos sacramentos divinos para que possam servir no mundo em que vivem. Um aspecto fundamental da nossa confessionalidade é o seu Modelo Eclesiológico, no qual há uma grande valorização do povo de Deus, ‘dos crentes em Cristo’, do membro, da Comunidade, da sua liderança. Nele a estrutura da Igreja luterana não é rígida ou hierárquica, tampouco anárquica e arbitrária, ela é eclesial – sinodal e atua, por meio de uma estrutura consensuada, para um propósito comum, à base de uma identidade confessional. Nesse vínculo, as nossas Comunidades se apoiam (e também se limitam) mutuamente (W.Altmann, reunião do Conselho da Igreja, novembro de 2006) para o cumprimento da nossa tarefa no mundo.
Sacerdócio geral de todos os crentes – chamados e incumbidos: a confessionalidade luterana enfatiza a participação dos leigos, todos os batizados, na vida comunitária e na missão da Igreja. Vocês foram escolhidos para anunciar os atos poderosos de Deus (1 Pedro 2.9). Onde o Espírito Santo age, surge e acontece a comunhão dos santos. O Espírito Santo atua na Igreja de forma dinâmica e transformadora através do anúncio da Palavra de Deus e dos Sacramentos do Batismo e da Santa Ceia. O papel dos crentes é, em primeiro lugar, estudar e comunicar a Palavra de Deus – somente então poderão distinguir em uma pregação se ela proclama Cristo como Senhor.
Ministério Eclesiástico – (CA 5): único e indivisível, funcional, isto é, para que se alcance a fé, necessária à justificação que deve ser crida. Foi o próprio Deus quem instituiu o Ministério e são os propósitos de Deus que são executados dentro do Ministério da Igreja.
Cabe à Comunidade – ‘boca de Deus’ – garantir a sua continuidade bem como assegurar a sua funcionalidade.
A nossa confessionalidade é, portanto, uma valiosa herança: um bem e uma contribuição fundamental para o ‘ser Igreja em nossos dias’. Também nós, como IECLB a exemplo da síntese da fé da Reforma apresentada em Augsburgo, precisamos diariamente prestar contas da esperança que há em nós na vivência desta fé e na missão que Deus nos incumbiu!
P. Carlos Augusto Möller, Pastor Sinodal do Sínodo Brasil Central e Pastor 1º Vice-Presidente da IECLB |