Os povos indígenas do Brasil, ao longo de milênios, têm construído conhecimentos e relações com a natureza constituindo-se em importantes contribuições para a humanidade. As formas sustentáveis de vida, suas relações e interações com o meio ambiente são baseadas na reciprocidade, na complementaridade, na solidariedade e nos cuidados.
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Esta ligação zelosa com a natureza anuncia que a nossa forma predatória de nos relacionarmos com o meio ambiente não é a única opção possível. Há culturas que ensinam maneiras mais gentis de interação. Os próprios organismos da Organização das Nações Unidas (ONU) têm reconhecido que os povos indígenas, quando respeitados em suas tradições, têm sido guardiões da integridade da terra, da água e de toda a criação, podendo inspirar concepções para uma nova forma de convivência.
Para os povos indígenas, a natureza é concebida como criação de Deus e como tal é espaço sagrado onde Deus gravou a sua Palavra e nela refletiu a vontade do seu coração. O criador também zela e se detém em cuidados com a sua criação. Este caráter sagrado suscita relações de respeito, reconhecimento e reverência.
Assim, estes povos concebem a natureza como um organismo vivo e lhe conferem um caráter social e sagrado, mantendo uma estreita e afetiva ligação com ela e, por meio dela, com todos os seres que nela coabitam. O meio ambiente é visto como espaço de vida, cheio de vidas gerando vida. Comparam a relação com a terra como uma ligação umbilical e, por isso, a terra é referida como mãe. Ela cuida das pessoas e de todos os seres, alimenta-os dando-lhes vida. Por esta razão, de forma recíproca, as pessoas também zelam e cuidam da terra, pois sabem que em tudo o que é feito a terra também atinge os filhos da terra.
Uma referência desta forma de se relacionar com a natureza são as palavras proferidas em uma carta em 1854, pelo Cacique Seattle, líder do povo indígena Suquamish, quando o Governo dos Estados Unidos tentava convencê-lo a vender as suas terras para dar prosseguimento à ocupação do território norte-americano com populações estrangeiras que chegavam ao país. No seu discurso, o cacique aponta a estranheza da ideia de considerar a terra como mercadoria O grande chefe de Washington diz que quer comprar a nossa terra. Essa ideia é estranha para nós. Como é possível comprar ou vender o céu e o calor da terra? Se o ar fresco e o brilho das águas não nos pertencem, como podemos vendê-los?
No mesmo discurso, o Cacique Seattle aponta para o caráter sagrado do ambiente Cada parte desta terra é sagrada para o meu povo. O ramo do pinheiro, os grãos de areia à beira-mar, a névoa na floresta escura, o vagalume e o beija-flor, todos pertencem à história e às tradições do meu povo.
Na continuidade, o Cacique se refere às interações que existem entre todos os seres que
habitam o planeta e o compromisso de cuidados e zelos mútuos. Ele considera este ambiente como uma grande família. Assim ele expressa esta relação Somos parte da terra e ela é parte de nós… A terra é nossa mãe… As flores perfumadas são nosssas irmãs. Os cervos, os cavalos, as grandes águias são nossos irmãos. Os cumes rochosos, os sulcos úmidos das campinas, o coração que pulsa nos potros e o homem – todos pertencem à mesma família.
O Sacerdote Guarani Felix Karaí expressa que a convivência com esta grande família é o que torna a existência plena e feliz O criador da terra zela por quem anda no interior das matas, por quem ouve o murmúrio das suas criaturas. Então, nos sentimos felizes quando vemos o porco do mato sagrado, o quati, o tatu, a cutia, a paca, o veado, a anta, a capivara, o peixe, os pássaros… Isto é o que torna a nossa existência plena, alegre… Isto é o que traz alegria para as nossas crianças e faz com que elas se sintam bem.
Segundo estes relatos, o saber indígena está fundamentado em uma teoria em que todos os componentes do cosmos têm voz ativa, são sujeitos e agentes. Neste sentido, a espécie humana não é um caso à parte dentro da criação, pois todas as espécies de seres são dotadas e constituídas com uma consciência e sabedoria. No pensamento das sociedades indígenas, existe intercomunicação entre os humanos e os demais seres vivos. São relações sociais instituídas entre sujeitos que propiciam intercâmbios, comunicação, compromissos e cuidados mútuos, solidariedade e cooperação. Devido a esta profunda ligação, a integração e o amparo são normas que regem todos os relacionamentos e atividades.
Um exemplo concreto desta intercomunicação com base na reciprocidade é relatado pelo Povo Xokleng, que vive no Alto Vale do Itajaí/SC. Este povo concebe sabedoria em todos os habitantes do universo. Os Xokleng contam que aprenderam alguns elementos curativos da sua Medicina tradicional com os animais. O poder curador de uma planta foi adquirido quando ancestrais observavam os macacos. Quando se machucavam, a mãe macaca ia buscar a folha de determinada árvore e a colocava na ferida. Ao mesmo tempo, abraçava o filhote, fazendo-lhe carinho. Assim, ainda hoje, quando uma criança Xokleng se machuca, eles seguem a prática das mães macacas: aplicam a folha daquela árvore no machucado e fazem carinho na criança, favorecendo-lhe a cura. Este povo testemunha que também aprende na comunicação e no intercâmbio com outros seres da criação.
Os povos indígenas, ao cultivarem relações de reciprocidade com a natureza, têm a consciência de que a forma predatória de conceber, interpretar e agir no mundo e no cosmos têm trazido injustiças, provocado sofrimentos e ameaçado a existência da vida. Os alertas e as denúncias aparecem nas palavras de indígenas como a do Sacerdote Guarani Felix Karaí Entretanto, quase ninguém se apercebe de que é necessário render respeito também às matas, às árvores… As árvores, que são seres dotados de alma, estão nos alertando, com os seus murmúrios de tristeza, que não devem continuar sendo cortadas. Consequentemente, já não produzem mais frutos perfeitos, já não mais florescem formosamente.
Igualmente, o Cacique Seatlle denuncia O homem branco não comprende o nosso modo de viver. Uma porção de terra, para ele, é como outra qualquer. A terra não é sua irmã, nem sua amiga. Depois de exauri-la, abandona-a, deixando para trás o túmulo dos seus antepassados e os sonhos dos seus filhos.
As denúncias destes indígenas também nos lembram as palavras de Paulo aos Romanos 8.18ss, quando denuncia que as dores e angústias deste planeta são por causa de submissões e corrupções: toda a criação, a um só tempo, geme e sofre dores e angústias até o momento, esperando a revelação dos filhos dos homens.
Estas falas sobre a forma predatória como a nossa sociedade lida com o meio ambiente nos remete a rever a missão que recebemos de cuidar e zelar pela terra, apontada em Gênesis 2. Ao mesmo tempo, nos desafia para a necessidade de reconciliação com a criação, estabelecendo novos paradigmas de convivência. É urgente uma mudança nos pensamentos, valores e hábitos de vida, de consumo e de relações. É necessário afirmar o compromisso missionário de zelar e dedicar cuidados especiais para com a natureza.
Na carta aos Romanos, Paulo menciona as dores, destacando a esperança. Ele afirma A criação abriga a esperança. A ação salvadora e reconciliadora de Deus é para toda a criação. Paulo, em Romanos 8.18ss, entende que as dores deste mundo e o meio ambiente degradado estão incluídos na obra redentora de Deus. Face aos gemidos da terra, coloca-se como desafio a conversão das pessoas para uma espiritualidade comprometida com práticas mais justas para com a criação de Deus.
| É urgente uma mudança nos pensamentos, valores e hábitos de vida, de consumo e de relações. É necessário afirmar o compromissi missionário de zelar e dedicar cuidados especiais para com a natureza |
Pastora Cledes Markus, Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia/RS, Mestre em Educação pela Fundação Universidade Regional de Blumenau/SC, especialista em Antropologia pela Universidad Católica del Peru e especialista em Ensino Religioso pelo Instituto Ecumênico de Pós-Graduação/RS, atua como Coordenadora do Projeto de Formação do Conselho de Missão entre Índios (COMIN) – IECLB |  |