“Se estamos aqui é porque fomos contagiados por ele. Fomos convertidos a não mais só pensar em nós mesmos. Fomos praticamente empurrados por ele para fora do Morro (do Espelho) e a nos empenhar pela paz”. O testemunho é do pastor Altemir Labes, dado em sua mensagem no culto de ação de graças em memória ao pastor, ex-professor da EST e pacifista Ricardo Wangen. O culto se realizou na Capela da EST, no Morro do Espelho, em São Leopoldo (RS), no dia 15 de março, por ocasião do primeiro ano de falecimento de Wangen. Ele faleceu aos 81 anos de idade, em 15 de março de 2006.
“Se a Segunda Guerra Mundial tivesse durado um dia a mais, eu não estaria aqui”, declarou Wangen em entrevista para o Boletim da EST, em novembro de 2005, quatro meses antes de seu falecimento. No Brasil desde 1956, e tendo atuado como professor da EST de 1971 até se aposentar, em 1991, Wangen integrou as tropas americanas que lutaram nas Filipinas durante a Segunda Guerra. Ele interpretou ter sido poupado para uma missão – o que o levou a se empenhar, mais e mais, por uma educação para a paz, por atitudes não violentas. Foi também um ferrenho defensor do “sim” no referendo sobre a proibição da comercialização de armas no Brasil.
Altemir Labes, facilitador treinado para ações de paz – assim como Wangen –, baseou sua pregação no “Sermão do monte” (Mateus 5), tido por ele como o “manual” da paz. O pregador recordou vários ensinamentos de Wangen, para quem “a paz não é passividade, e, sim, ação. Ação em busca do bem da outra pessoa. Outra certeza de Wangen era que um agente de paz não podia ter “cara amarrada”. Ele tinha um profundo respeito pelas outras pessoas, agregou Altemir.
Pastor sinodal do Sínodo Nordeste Gaúcho, Labes também trouxe saudação em nome do pastor presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Dr. Walter Altmann. De 14 a 18 de março, os pastores sinodais da IECLB estiveram reunidos com a Presidência da Igreja, na Casa Matriz de Diaconisas (São Leopoldo), e dentro do programa da reunião realizou-se a Assembléia da Caixa de Auxílio Fraternal da IECLB na noite do dia 15.
O culto em memória a Wangen foi iniciativa do Serviço de Paz (Serpaz), criado por Wangen para promover ações alternativas à violência. Também fizeram parte da equipe de liturgia o pastor e professor da EST Ms. Roberto Zwetsch e o bacharel em Teologia Marcos Aurélio de Oliveira, da equipe do Serpaz. Cleonir Zimmermann e vários estudantes da EST integraram a equipe de música litúrgica, Sob a regência do professor emérito Dr. Nelson Kirst, também participou do ato memorial o coral Roda de Canto.
O coral cantou também vários hinos na confraternização após o culto, no São Nobre da EST, que foi um momento especial para abraçar os familiares: a esposa, Doroti, as filhas Marie e Charlote e os genros Allan e Marcos.
Leia trechos da última entrevista de Wangen para o Boletim da EST de dezembro de 2005:
Ingelore S. Koch – O que tornou o sr. tão incansável defensor da paz?
Ricardo Wangen: Logo depois do fim da guerra, fomos mandados para o Japão, e seis semanas depois da bomba vimos Hiroshima. Não havia mais nada na cidade. Em seguida, também nos mandaram para Nagasaki. Lá encontramos a mesma situação. Um padre contou que a torre da igreja de Nagasaki serviu de mira para o lançamento da bomba, e muitos fiéis morreram. Isso me influenciou muito. Como era muito jovem, não tomei atitudes imediatas. Mas elas foram surgindo nas reflexões no decorrer da minha vida.
De que maneira propagou a não-violência na EST?
Wangen: Como professor de Clínica Pastoral por mais de 20 anos, o centro sempre foi o protagonismo da paz e não-violência, da reconciliação, também teologicamente falando. Isso não significa que eu não possa ficar brabo. A corrupção no Brasil, a guerra no Iraque me deixam muito brabo. Mas isso não resolve nada. Muitos amigos me influenciaram. No início da década de 60, trabalhei por um ano com Martin Luther King (assassinado em 1968). Fui amigo de dom Hélder Câmara (falecido em 1999) e sou muito amigo de dom Paulo Evaristo Arns – que criou o Serviço de Paz e Justiça (Serpaj), no final da década de 70, em São Paulo. Foi numa reunião de professores do Serpaj, em 1991, em São Paulo, que nos demos conta de que a nossa postura reativa se deveria tornar pró-ativa – tínhamos que ensinar as pessoas a não serem violentas.
Como se daria esse ensinamento?
Wangen: Altemir Labes – na época, estudante de Teologia e hoje, pastor da IECLB – e eu levamos a educação para a não-violência muito a sério. Nossa primeira tentativa foi em Mercedes (PR), no início da década de 90. A convite do pastor Ari Käfer, damos o nosso primeiro curso de educação não-violenta para 123 professores da rede pública e muitos outros se seguiram. Hoje, sou facilitador treinado, assim como mais de 50 outros voluntários que atuam no Projeto de Alternativa à Violência (PAV), um trabalho ecumênico.
Através de que entidades o sr. atua?
Wangen: Não tenho mais ligação oficial com o Serpaj, e sim, com o Serpaz (Serviço de Paz), criado na EST em agosto de 2004. Outra nova ONG é a Educadores para a Paz, criada em janeiro de 2003, em Porto Alegre. Os cursos estão abertos a todas as pessoas. Posso dizer que me sinto chamado, vocacionado, para a paz.
Texto: Ingelore S. Koch/EST
4/3/2007