Pa. Ma. Ana Isa dos Reis, Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, é Mestre em Liturgia pelo IEPG/EST. Atua como Ministra na Comunidade de Ijuí/RS
Encontro entre Deus, Comunidade e membros
Deus foi quem gerou e fez nascer a Comunidade. A Comunidade existe por obra e vontade de Deus. Como comunhão de pessoas, a Comunidade é um corpo vivo (Rm 12.5), uma família de fé, formada por diferentes pessoas – crianças e bebês, jovens e adolescentes, adultos e idosos, pessoas sem ou com deficiência, que têm sonhos e frustrações, alegrias e tristezas, coragem e medos – e que têm em comum a fé no Trino Deus.
O culto acontece por iniciativa de Deus. A Comunidade dá o passo seguinte, respondendo ao chamado de Deus. Deus permite que o culto aconteça, ao prometer que estará presente lá onde duas ou três pessoas estiverem reunidas em seu nome (Mt 18.20). Todavia, além de permitir, Deus também ordena que o culto aconteça: façam em memória de mim (1Co 11.24s).
Alegra-nos saber que Deus dá o primeiro passo em nossa direção, que podemos encontrá-lo sempre de novo, receber novas forças, ânimo, coragem e orientação para a caminhada de cada dia, mas também nos chama ao compromisso de assumirmos a responsabilidade por este encontro. Deus estará lá, no local e na hora em que marcarmos para o culto, onde duas ou mais pessoas estiverem reunidas em seu nome. Como posso eu, então, não participar? Celebrar culto é responsabilidade minha e de todas as pessoas batizadas. É o Senhor em quem nós cremos, a quem depositamos a nossa vida e a vida de quem amamos, que vem ao nosso encontro no culto. Que boa notícia!
O culto é de responsabilidade de toda a Comunidade. A Ministra e o Ministro Ordenados – e a equipe de liturgia – têm a tarefa de ajudar a Comunidade a celebrar o culto. Se o culto é da Comunidade, isso significa que sou chamado a participar ativamente do culto. Sou chamado a
envolver-me no culto, a participar com todo o meu ser, com todos os meus sentidos, trazendo ao Senhor tudo o que se passa no meu coração, deixando que Ele me transforme. Eu não vou ao culto para assistir ou para, depois, parabenizar a Pastora, o Pastor pelo belo culto que fez. O culto é meu, seu, nosso. Para que ele seja significativo, eu preciso participar ativa, consciente e responsavelmente com os meus dons e com todo o meu ser.
Preparar um culto envolvente é tarefa de toda a Comunidade, também da Pastora e do Pastor e equipe de liturgia. A liturgia deve ser envolvente e o seu moldar deve levar em conta a realidade na qual a Comunidade está inserida, as pessoas que dela fazem parte, a vida da Igreja. Todas as pessoas precisam encontrar no culto um espaço de acolhimento, de inclusão, sentindo- se amparadas pelo próprio Deus. No culto, o Senhor fala conosco e nós respondemos, além de nos relacionarmos mutuamente como Comunidade. A celebração e o espaço devem considerar esta realidade. A arte de moldar liturgia permite que todas as pessoas possam participar e que a experiência profunda do culto permaneça viva durante toda a semana, animando a ser sal da terra e luz no mundo, lá onde estiver.
Para refletir, leia Coríntios 11.24-25

Diác. Angela Lenke, Atua como Ministra na Paróquia de Vitória/ES, integrante do Conselho Sinodal de Missão e Vice-Assessora Teológica da OASE Sinodal do Sínodo Espírito Santo a Belém
Espaço para experimentar a tolerância
O culto é entendido por nós como encontro de Deus com o seu povo. Culto é também espaço onde diferentes pessoas, de gerações diferentes, se encontram. Será que temos refletido sobre essas diferenças?
No mundo em que vivemos, não é raro encontrarmos pessoas que dizem ‘isso não é mais da minha época’. Ocorre que as últimas gerações precisaram das gerações passadas, da sua luta, perseverança e do investimento para a sua formação. A tecnologia, cada vez mais avançada, precisa ser mais ‘humana’ para com os que não acompanharam e não tiveram acesso à formação. Respeito e humildade correspondem a valores de todas as gerações! Em quais outras situações falta tolerância?
Quando falamos em tolerância, estamos nos referindo ao respeito e à dignidade pela vida do outro. Tolerância significa vencer preconceitos e vencer a si mesmo. Tolerância é questão de coerência em relação à fé em Cristo, que mostrou o mais belo exemplo de tolerância por nós, sem violência e com amor.
Em Lucas 2.41-52, nos é dito que Jesus foi ao templo com os seus pais e que ficou com os mestres da Lei enquanto os seus pais voltaram para casa, sem notarem a sua ausência. Os mestres da Lei ficaram admirados com a inteligência e a sabedoria de Jesus, cuja presença só foi possível, porque já tinha 12 anos e era menino.
Há três perguntas a partir desse texto: Será que ouvimos, zelamos e ensinamos as nossas crianças?, O que é ensinado entre as várias religiões visa à igualdade de gênero? e Levamos as nossas crianças ao templo ou nos mobilizamos e instrumentalizamos para que a Comunidade cristã seja espaço para as crianças e todas as gerações? Ainda adolescente, Jesus nos mostra que também é preciso buscar o seu espaço.
Já em Marcos 12.41-44 encontramos o relato sobre uma mulher, idosa, viúva e pobre. A atitude de Jesus é perceber a mulher, olhar com amor, dar liberdade, incluir e dar dignidade. Cada pessoa tem a sua história de vida e Jesus nos ensina que tolerância significa amar e respeitar o mundo do outro, a sua história, os seus sofrimentos e as suas lutas.
Para sermos Comunidades mais saudáveis e tolerantes, busquemos como conselho as belas ações diaconais de Jesus, ou seja, ações de amor.

Sou livre de todas as coisas, contudo fiz-me servo de todos 1Co 9.19. Esse versículo, bem como Rm 13.8 A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros, inspiraram Lutero a escrever as duas conhecidas frases acerca da liberdade cristã: ‘Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém. Um cristão é um servo prestativo em todas as coisas e está sujeito a todos’. Lutero entendeu que, pela fé, somos pessoas livres e, pelo amor, servos uns dos outros. Assim, o culto é espaço em que há diferentes pessoas com diferentes conhecimentos e de diferentes gerações, porém todas são carentes da graça, da misericórdia e do amor de Deus, revelado em Cristo (Rm 3.23).
Para refletir, leia Romanos 14-15.1-13