Como diz o Livro de Cultos da IECLB, o culto é uma parada estratégica necessária ao longo de uma jornada. Reúne pessoas na presença de Deus e faz delas uma comunidade. Para refletir a respeito do culto, definição, condução, público-alvo, local e função, convidamos a Pa. Tânia Cristina Weimer, formada em Teologia pela EST, em São Leopoldo/RS, com Mestrado em Teologia Prática, Área de Concentração: Liturgia. Atualmente, exerce o Ministério Pastoral na Paróquia de Nova Hartz/RS e está na Coordenação Sinodal de Liturgia do Sínodo Nordeste Gaúcho. Também participa o Pastor Márcio Arthur Trentini,com Mestrado em Liturgia. No momento, atua como Pastor na Paróquia Martin Luther, em Porto Alegre/RS e participa dos Conselhos de Liturgia da IECLB e do Sínodo Rio dos Sinos. Contribui, ainda, o Pastor Carlos Romeu Dege, Mestre em Teologia, Área de Concentração: Liturgia, integrante do Conselho de Liturgia da IECLB (COLI) e Pastor na Paróquia em Igrejinha/RS. Encerra esta reflexão a Pastora Ana Isa dos Reis, formada em Teologia na EST, com Mestrado em Teologia, na área de Liturgia, no Instituto Ecumênico de Pós- Graduação (IEPG), também em São Leopoldo. Hoje, exerce o pastorado na Comunidade Evangélica Ijuí/RS
O que é o culto para os luteranos?
Pastora Tânia Cristina Weimer
Após a ressurreição de Jesus, os discípulos e alguns seguidores começaram a se reunir a cada domingo para ‘rememorar’ a ação salvífica de Jesus e ‘comemorar’ a alegria do anúncio feito pelo anjo: Jesus vive!, mudando a nossa relação de fé com o Deus criador e salvador. Isso significa que o culto está diretamente vinculado ao evento da história da salvação. A sua essência é Deus agindo para dar a sua vida ao ser humano e para levar o ser humano a participar dessa vida.
É ali que Deus revela sua vontade através da sua Palavra e a comunidade reunida dá a sua resposta de louvor e gratidão. Para essa resposta, usamos uma variedade de emoções, palavras faladas e cantadas e ações, os elementos litúrgicos. No culto, Deus fala e nós, além de escutar, interagimos. A fé nasce do que é ouvido e reconhece as dádivas recebidas pelo amor abrangente e bondade redentora de Deus.
A existência cristã é essencialmente comunitária: ser cristão significa estar na comunidade, na Igreja. É nesta comunidade que Deus atua no culto em que se reúne a sua comunidade de fé, que, por sua vez, busca complemento nas devoções pessoais diárias e dali retorna para o culto em comunidade, mantendo seu equilíbrio. Lembrando das palavras de Jesus, na narrativa da tentação (Mt 4.10; Lc 4.8) Está escrito: ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto.
É apaixonante falar sobre o culto e principalmente sentir no coração o que ele representa para nós cristãos luteranos: o encontro da comunidade com Deus. Reunimo-nos para encontrar-nos com Deus bem como com nossos próximos (Mt 18.20) e esse encontro só é possível porque Deus assim o permite.
Para refletir, leia Romanos 10.5-18
Por e para quem é ministrado o culto?
Pastor Márcio Arthur Trentini
O culto é um encontro de Deus com as pessoas. Deste encontro, a comunidade é convidada a participar e não somente assistir. O guia da vida comunitária da IECLB Nossa fé – Nossa vida (página 17) deixa claro que a tarefa de conduzir o encontro das pessoas com Deus no culto é uma tarefa do Pastor e da Pastora, mas o culto não é do Pastor ou da Pastora, o culto é da comunidade. O Pastor apenas ajuda a comunidade a celebrar, por isso a tarefa de conduzir o culto pode ser compartilhada ou totalmente assumida por Obreiros dos outros Ministérios ou por pessoas da comunidade, desde que, para isso, haja concordância por parte da comunidade.
Em muitas comunidades, há também a experiência de grupos de liturgia. São grupos que, junto com o Pastor, preparam e conduzem o culto regularmente ou em ocasiões especiais. Normalmente, estes grupos recebem algum tipo de formação/preparação específica para realizarem esta tarefa, bem como também recebem autorização por parte da comunidade.
Durante a preparação do culto, sempre é importante estar atento para quem vai estar presente ao culto: qual o público que se vai ter. Em princípio, o culto é um encontro para a comunidade toda, não apenas para um grupo específico. Além disso, ele é aberto para todas as pessoas que quiserem dele participar, mesmo aquelas que não são ‘inscritas’ na comunidade, mas ele acontece dentro de uma determinada realidade, de um determinado contexto e momento da vida da comunidade e isso deve ser considerado na hora de moldar e conduzir o culto.
Para refletir, leia Romanos 12.5
Onde é realizado o culto, quando e como?
Pastor Carlos Romeu Dege
A partir do exemplo de Noé, o culto é realizado num contexto presente (após a saída da arca), em vista de acontecimentos passados (o dilúvio), numa perspectiva futura (o recomeço após a destruição).
Portanto, no culto a comunidade encontra-se com Deus (Mt 18.20). Essa realidade é sinal da ação primeira de Deus (1Co 11). Ele vem e cria comunidade. A comunidade reage. Neste sentido, quando perguntamos onde o culto é realizado, a experiência de Noé (Gn 8.20s) em construir um altar, o qual resultou da sua fé, mostra que qualquer lugar é oportuno, pois sua prontidão para o culto estava ancorada no reconhecimento de que Deus o guardara até ali, juntamente com todos os seres vivos na arca. A adoração de Noé representou uma reação à ação primeira de Deus. O culto foi a resposta da família de Noé de que Deus a guiara e salvara.
Assim as primeiras comunidades cristãs também o fizeram. Reuniam-se no primeiro dia da semana reagindo à ressurreição de Jesus. A celebração no primeiro dia da semana (nosso domingo), dia em que Jesus ressuscitou, mostra o recomeço, a possibilidade de um outro futuro que não a morte, um dia de triunfo e liberdade, proclama e vive de novo a Páscoa. Assim o nosso domingo foi designado O Dia do Senhor.
Portanto, este encontro da comunidade com Deus é de responsabilidade de toda a comunidade para lembrar a ação de Deus. É a comunidade que determina local e horário do culto, que é dirigido por uma liturgia que tem por função auxiliar a comunicação entre estes dois parceiros (comunidade e Deus). O culto não quer assistentes, mas participantes. O culto não é do Pastor ou da equipe de liturgia, mas sim de todos.
Para refletir, leia Romanos 12.1-18
Para que os luteranos se reúnem em culto?
Pastora Ana Isa dos Reis
A partir do Batismo, formamos parte da comunidade de pessoas cristãs e sentimos a necessidade de viver em comunhão, compartilhando a fé e os acontecimentos da vida com Deus e com os irmãos e irmãs. As pessoas cristãs luteranas vão ao culto porque Deus, em Jesus Cristo, assegurou sua presença lá onde duas ou mais pessoas estivessem reunidas em seu nome e porque Deus também ordenou que seu povo se reunisse em sua memória.
As pessoas cristãs luteranas reúnem-se em culto para celebrar o amor de Deus revelado sob as mais diferentes formas. No culto, as pessoas encontram Deus, o Senhor da Vida e da Morte, e também encontram os irmãos e as irmãs, encontram, ainda, forças para a caminhada diária, podendo ‘reabastecer as baterias’, saindo revigoradas e preenchidas com o alimento necessário para a caminhada diária.
É no culto que trazemos coletivamente a voz de clamor do povo que sofre e podemos ensaiar um novo mundo. Pessoas cristãs luteranas vão ao culto porque lá encontram oportunidade de, em gratidão, ofertar com alegria. Cada vez que celebramos culto, experimentamos novamente a união com o Cristo Ressurreto e, assim, também encontramos orientação para a vida.
É no culto que as pessoas cristãs luteranas se encontram como comunidade, como família em que cada membro, diferente um do outro, é importante. Pessoas cristãs luteranas são como uma brasa, um carvão. Cada carvão, cada brasa, precisa dos outros carvões, das outras brasas, para continuar produzindo calor e luz. O culto é o espaço no qual o ‘cristão-brasa’ encontra outros ‘cristãos-brasas’ e, assim, pode manter bem acesa a chama da vida.
Para refletir, leia Mateus 18.20