Para a grande maioria da população as manifestações que estão ocorrendo no Brasil, são acontecimentos motivados por insatisfações recentes, ou oriundas de um passado recente. É pertinente relatar aqui que manifestações populares com cunho reivindicatórios estão presentes na história do Brasil desde sua descoberta, ou melhor, desde que o Brasil foi “achado” pelos ditos “civilizados europeus”. Para tentar entendermos estes acontecimentos atuais, precisamos aqui, fazer um recorte na história.
Quando falamos em independência do Brasil, nos vem a mente aquilo que a história oficial (vencedores) nos contou/mostrou, acontece que o Brasil não se tornou independente em 07 de setembro de 1822 com o grito de independência às margens do Ipiranga. Esta começou a ser forjada muito antes em várias regiões deste nosso imenso Brasil. Em várias localidades, grupos descontentes com a exploração, roubos feitos pelo governo da época se articulavam, planejavam e colocam nas ruas, vielas, praças e afins seus ideais de liberdade, igualdade e insatisfações, obviamente que ao fazerem isto, todos ou quase todos, pelos menos a maioria que acabou sendo usada como massa de manobra, acabaram sendo censurados e reprimidos. Muitas pessoas que ousaram discordar e expressar seus desejos contrários aos do governo acabaram pagando com a própria vida pelos seus ideais. Conjuração Baiana e Mineira são apenas alguns dos exemplos que comprovam que a independência era desejada muito antes do dia 07 de setembro de 1822.
Passados alguns anos, finalmente se concretiza a tão esperada e desejada “Independência do Brasil”, esta se deu após pagamento de alto valor, ou seja, através de muita represália, censura, mortes e porque não dizer, muita “politicagem” feita pela elite luso/brasileira. Vale ressaltar que qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência. Dando sequência, a declaração da independência não foi um ato isolado de D. Pedro I (Primeiro Reinado). O sete de setembro representou a concretização das aspirações da camada dominante no Brasil, a aristocracia rural, formada pelos grandes proprietários de terras e de escravos, principalmente do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Essa mesma aristocracia, apesar de desejar a independência não apoiava transformações radicais, como a adoção do regime republicano e a abolição dos escravos. Foi exatamente assim que a monarquia brasileira foi formada, forjada, ou melhor, manipulada pelos poucos homens, estes que se intitulavam “civilizados” e detentores do poder.
Toda essa manipulação e exploração,tinha como matéria prima e fonte muito lucrativa a mão de obra que naquele momento eram todos os escravos (negros), trabalhadores livres, artesãos e todos os demais que não faziam parte da chamada elite e aristocracia.
Em mais um salto cronológico chegamos ao dia 25 de março de 1824, momento em que D. Pedro I outorgou, isto é,impôs à nação a Constituição que foi elaborada por um Conselho de Estado e não por uma Assembleia Constituinte. Importante mencionar que a partir deste momento os poderes políticos existentes no Brasil passaram a ser: Moderador (imperador); Executivo (ministros); Legislativo (Câmara de Deputados e Senado) e Judiciário (Juízes e Tribunais) – o voto passou a ser indireto,baseado na renda; religião católica passou a ser oficial; manutenção do direito de propriedade; império tornou – se um estado centralizado.
É curioso que mesmo com todas essas mudanças acontecidas no Brasil, parte da sociedade brasileira e porque não dizer, grande parte de toda a nação, na maioria constituída por pobres, negros, desqualificados e sem acesso as informações,continuava insatisfeita com o governo e todas as suas práticas, sem falar dos inúmeros casos de desvio de dinheiro, corrupção e vida privada de seus chefes de governo rodeadas de escândalos.
Definitivamente a história é construída, montada, contada e recontada através de fatos e acontecimentos,o importante é saber qual a versão que estamos lendo, assistindo ou interpretando. Todos os fatos e acontecimentos são vias de duas mãos, ou seja,repletas de leituras e versões antagônicas. Podíamos estender o assunto e falar ainda a respeito de diversos outros acontecimentos que também são pertinentes a independência do Brasil como por exemplo: a abdicação de D. Pedro I; Período Regencial; Ato Adicional de 1834; Rebeliões no Período Regencial; Segundo Reinado; Revoltas Liberais e tanto outros.
Fatos, acontecimentos, atropelos, percalços, construção e reconstrução……. a história do Brasil é repleta de mudanças, períodos de instabilidade ,passado o momento da independência do Brasil e tudo que o cercou, chegamos há outro momento, não menos importante, ou seja, A Proclamação da República que foi dividida em dois momentos distintos: República Velha Dominação e República Velha Resistência.
Tal qual ao período da independência do Brasil, o período da República no Brasil também foi marcado pela concentração do poder político nas mãos de poucos, agora intitulados, OLIGARQUIAS que tinham como seus maiores representantes os CORONÉIS, que se mantinham no poder através de uma prática muito conhecida em nossos dias, A TROCA DE FAVORES. Assim como no período da república, essa “troca de favores” era motivada por interesses desonestos e antiéticos.
Em 1888 a Princesa Isabel assina a “Lei Aurea” – lei que concebeu a “liberdade” para todos (as) escravos (as )negros (as) do Brasil. Já no século XIX o Brasil aparecia como um país governado sob um sistema defasado, além de atrasado nas suas relações de trabalho, pois foi um dos últimos, se não o último país a acabar com o regime escravocrata, talvez porque ainda se sentia muito mais uma colônia de exploração do que um país independente, com uma constituição própria e nação para conduzir , fazer progredir e crescer.
No ano seguinte, em 15 de novembro de 1889 é proclamada a tão desejada e esperada PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA. O Brasil deixa de ter um sistema monárquico e passa a ter um sistema REPUBLICANO, cujo chefe de estado é geralmente um presidente, eleito ou nomeado para determinado período de tempo.
É incontestável que foi uma grande conquista para a nação brasileira.
Infelizmente essa chama de conquista, de liberdade, de igualdade não permaneceu acesa por muito tempo, ela se apagou no exato momento em que os brasileiros ou grande parte dos brasileiros perceberam que, novamente foram usados, manipulados em benefício aos interesses de uma elite, de uma aristocracia, de uma oligarquia.
Acima de tudo é importante que todos (as) do (as) brasileiros (as) tenham a consciência de que vivemos, fazemos parte de um sistema pautado pela democracia, pela liberdade e igualdade. Saliento aqui que a mesma chama mencionada anteriormente se acendeu e se faz presente no contexto atual de nosso país através das inúmeras manifestações que acontecem no âmbito do território nacional, mesmo que em alguns momentos e locais ,estas sejam usadas e vistas de forma deturbada por grupos e pessoas que usam de vandalismo.
Para finalizar, parabenizo ao dia da Proclamação da República ocorrida no dia 15 de novembro de 1889, pois foi através desta que as vozes das minorias e dos excluídos passaram a ser ouvidas, aceitas e aclamadas, mesmo que a longo prazo, iniciando assim, o árduo processo de democracia tão necessário que formou e forma nossa nação – Brasil.
Professor Alexandre D. Schulz
Professor de História da Rede Municipal de Ensino de Joinville
Escola Municipal Nelson de Miranda Coutinho.