Por já conhecer os objetivos, o envolvimento e o trabalho da PPL em algumas questões, obras e eventos, uma vez que meu pai Cloves Cardozo Carreira é membro da instituição e inclusive da Coordenação Nacional, me empolguei muito ao saber do 8° Curso Ecumênico de Pastorais Populares ( tema: Ecumenismo e Graça, onde/quando nada é de graça), e então juntos fomos com o intuito de conhecer novas pessoas, suas diferentes realidades e trabalhos nas áreas do envolvimento social, das pastorais, e principalmente representar a Pastoral da nossa igreja, PPL.
A viagem foi longa, e chegamos em Estrela ( RS) de madrugada, porém fomos muito bem recebidos pelo Pastor Paulo Daenecke e sua esposa Marli, que nos acolheram em sua casa com muita hospitalidade e dedicação.Posteriormente fomos muito bem acomodados no Convento ( lugar onde ocorreu o evento).
O curso foi excepcional, e confesso: superou todas as minhas expectativas. Diferentemente do que alguém possa pensar, o curso não foi apenas voltado a espiritualidade e ao diálogo inter-religioso, e nem as palestras foram maçantes e sonolentas como é de se esperar.
Vimos alguns filmes, houveram exibições de imagens, tivemos diversas discussões em grupo, celebrações, dinâmicas, apresentações de projetos e trabalhos em oficinas, os quais na minha opinião foram os mais produtivos e estimulantes.
E digo estimulantes, pois me refiro ao sentimento de indignação criado, ou reforçado no curso.
Acredito que muitos que não tinham essa visão mais ampla no que diz respeito a situação do nosso próprio país nos dias de hoje sobre o aspecto socioeconômico e político, puderam não só conhecer estatísticas e dados que muitas vezes são sabotados ou distorcidos pela mídia (tirando-nos o direito de saber da verdade), mas também trazer à tona um forte sentimento de indignação, de angustia e rebeldia para com a realidade do nosso país quando este se encontra no auge do capitalismo e do neoliberalismo.
Tive a oportunidade de conhecer jovens da minha faixa etária, o que me surpreendeu, e tornar-me amiga destes. Foi muito melhor do que eu esperava, pois pudemos discutir os assuntos do curso incorporados na nossa realidade de adolescentes, num país onde a futilidade e o egocentrismo se tornam tão tentadores e fortes, e chegar a conclusão de que realmente, conforme lá foi dito, se é possível uma mudança na forma do povo Brasileiro viver, e das injustiças serem erradicadas proporcionando assim, o BÁSICO para que todos possam viver em condições dignas, será necessária uma revolução, e esta apenas poderá ser realizada, quando nós jovens urbanos transformemos nosso modo de pensar e agir, conscientizando-nos e contagiando aos que a nossa volta estão.
Posso dizer que o 8° Curso Ecumênico de Pastorais Populares, para mim foi de suma importância, e que não rendeu apenas mais um certificado, mas uma nova forma de pensar, de ver as coisas, de me relacionar com as pessoas, e uma profunda revolta e vontade de fazer o que deve ser feito.
No futuro tenho vontade de participar de cursos similares promovidos pela PPL ou IECLB.
Elisa Sell Cardozo
CARTA DO 8º CURSO ECUMÊNICO DE PASTORAL POPULAR
Nós, cristãos e cristãs de diferentes confissões nos reunimos nos dias 7 a 10 de junho de 2007, no Convento São Boaventura, no Município de Imigrante/RS, em torno do tema “Ecumenismo e Graça: quando/onde nada é de graça”. Este ambiente acolhedor onde o amor à natureza, legado por São Francisco de Assis, nos inspirou uma profunda reflexão sobre o presente momento da nossa caminhada. Dando-nos as mãos para partilhar, nos sentimos fortalecidos mutuamente.
Fomos impactados pela leitura que nos foi dado fazer da realidade atual. Como irmãos e irmãs nos angustiamos ante a clara desmobilização social e enfraquecimento dos movimentos que, historicamente, sempre foram solidários com a causa dos excluídos. Entendemos esta desarticulação como fruto tanto do poder do capital financeiro, em sua forma neoliberal, quanto dos equívocos daqueles que ainda hoje, representam as classes populares, mas que se deixam enredar no emaranhado processo de cooptação com promessas de cargos e outras benesses.
Esse enfraquecimento na luta social tem produzido, como conseqüência, falta de sentido e expectativa, principalmente para a juventude, e produzido, com isso, a tragédia da desagregação familiar e da violência generalizada.
Reconhecemos e confessamos diante de Deus nosso momento de descenso e desarticulação. Iluminados pelas reflexões bíblica e teológica e pelo olhar sobre as nossas práticas, as quais queremos que sejam alternativas e populares, nos propomos a renovar nossa fé e nossas forças, assim como, construir novos referenciais para juntos, reconstruirmos nosso poder de articulação e luta. Isso, a partir das seguintes idéias força:
a) Que nossa relação com os seres humanos não ocorra da mesma forma que nossas relações com os objetos. Pessoas não são mercadorias nem nossas relações interpessoais podem ser pautadas por princípios mercantilistas.
b) A palavra de Deus, como luz para nossa caminhada, nos chama à inconformidade e à indignação diante de toda situação de injustiça, a exemplo da teimosa indignação de Jó e de tantos companheiros e companheiras que, gratuitamente, colocam sua vida a serviço da cidadania e da dignidade humana.
c) Reafirmamos a dádiva como elemento fundamental sobre o qual repousa a vida. Reconhecemos que a vida é graça, dádiva de Deus. Viver a dádiva da vida é não aceitar a sua mercantilização.
d) Que nossos projetos individuais ou grupais estejam firmemente articulados com o projeto de sociedade das classes populares, ou seja, que contribuam para a construção de uma sociedade livre, justa e solidária.
Refletindo sobre diferentes realidades, durante as oficinas, nos sentimos provocados e provocadas a assumir os seguintes compromissos:
– vivenciar a espiritualidade na força da comunidade.
– acompanhar, de forma crítica, as audiências públicas, defendendo o zoneamento ambiental do Rio Grande do Sul feito pela FEPAM.
– buscar conhecimento da realidade amazônica, principalmente, do ser humano amazônida reconhecendo sua alteridade e identidade.
– desencadear a cultura do consumo consciente de produtos ecológicos, a começar por nós mesmos.
– manter permanentemente a formação das lideranças como forma de alimentar a consciência crítica diante das desumanas relações de trabalho e dos injustos interesses do mercado.
A partir de tudo que descobrimos, construímos e sentimos não podemos nos submeter à idolátrica ditadura do mercado e do deus capital em suas falsas promessas de felicidade através da riqueza e do consumo. Queremos investir nossas vidas e nossas forças na construção de uma nova realidade fundamentada no amor, na solidariedade, na partilha e no afeto como única forma de construir, especialmente, com os jovens, um mundo verdadeiramente HUMANO.
Assim, “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos renovando vossa mente”.(Rm 12.2a).
Imigrante, 10 de junho de 2007