À medida que o Dia Internacional da Mulher se aproxima, a Pastora Dra. Marcia Blasi, Diretora do Programa de Justiça de Gênero e Empoderamento das Mulheres da Federação Luterana Mundial (FLM), conclama a coragem teológica e a profunda transformação das estruturas patriarcais.
Justiça de gênero não é apenas uma questão “das mulheres”, diz a Pa. Dra. Marcia Blasi. É sobre responsabilidade e transformação.
Isso se tornou parte da minha rotina diária. Acordo, preparo uma xícara de café e pego meu telefone para ler as notícias.
“Mulher de 25 anos é morta pelo marido que não aceitou o divórcio.”
“Mulher desaparece após ir à garagem de seu prédio.”
“Menina de 13 anos é estuprada por sete homens.”
Manchetes como essas já não são exceção. Tornaram-se rotina em muitos países ao redor do mundo. A violência contra as mulheres não desapareceu. Não é um problema do passado. Está presente. É persistente. Em muitos lugares, está crescendo.
O fortalecimento do fundamentalismo político e religioso atinge particularmente o conhecimento, a liderança e os corpos das mulheres. O controle sobre suas vozes e sua autonomia continua no topo da agenda.
Há muitas maneiras de matar uma mulher. Nem todas envolvem armas. Algumas envolvem silêncio. Desconfiança. Sobrecarregá-la com tarefas “importantes” para que ela nunca tenha espaço para pensar, estudar ou liderar. Questionar sua competência. Espiritualizar sua submissão.
A violência não é apenas física. É estrutural. Cultural. Teológica.
Presença não é participação
Ao concluir cinco anos de serviço na Federação Luterana Mundial (FLM), carrego comigo muitas histórias. Histórias de transformação e coragem. Histórias de mulheres que descobriram suas vozes e reivindicaram seus lugares na liderança. Mas também histórias de dor profunda, exclusão, manipulação espiritual, assédio. Histórias de mulheres que estavam presentes nos espaços da igreja, mas nunca puderam realmente participar.
As mulheres estão presentes, mas presença não é participação.
Ter mulheres na sala não significa que elas influenciam decisões. Convidar mulheres à mesa não significa que elas podem alterar a agenda. Ter mulheres em posições de liderança não significa que o patriarcado foi desmantelado. Celebrar mulheres como parte do ministério com ordenação não significa que mudamos as estruturas que concentram poder em poucas mãos.
Sempre que falo sobre violência contra as mulheres ou patriarcado, alguém responde rapidamente: “Nem todos os homens são violentos.” Outra pessoa diz: “Eu não.” Isso é verdade. E é bom. Mas não é esse o ponto.
A principal preocupação é um sistema que distribui poder e privilégio de forma desigual. O patriarcado concentra autoridade principalmente nas mãos dos homens e é frequentemente legitimado por interpretações teológicas que apresentam os homens em posição central e as mulheres em posição secundária, vistas como “ajudadoras”, em vez de co-portadoras de autoridade.
Patriarcado não é um insulto. É uma descrição da realidade.
Algumas pessoas argumentam que devemos evitar o termo porque soa ideológico ou como jargão. No entanto, é nossa responsabilidade teológica nomear o que experimentamos. Como Martim Lutero escreveu na Disputa de Heidelberg, a teologia da cruz “chama as coisas pelo que elas são”.
Vivemos em sociedades patriarcais. Nomear o patriarcado é nossa responsabilidade. Não nomeá-lo apenas mascara os mecanismos que ferem mulheres e limitam homens.
Justiça de gênero não é opcional
À medida que o Dia Internacional da Mulher se aproxima, ouviremos muito sobre “questões das mulheres”. Mas justiça de gênero não é apenas uma questão das mulheres. Se afirmamos que todo ser humano é criado à imagem de Deus, então qualquer sistema que diminua as mulheres deve ser confrontado.
Se proclamamos o evangelho de libertação enquanto permanecemos em silêncio sobre violência de gênero, nossa proclamação se torna vazia. Se nossa eclesiologia exclui mulheres da plena participação, o corpo de Cristo fica incompleto.
O Dia Internacional da Mulher não é sobre rosas ou chocolates. Justiça de gênero não é sobre mulheres apenas. É sobre compromisso, responsabilidade, transformação.
É sobre fazer algumas perguntas difíceis:
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- Quem detém o poder de decisão em nossas igrejas?
- Quem interpreta as Escrituras?
- Quem se beneficia do silêncio?
Presença não é participação. Participação exige compartilhamento de poder, mudança estrutural e coragem teológica ousada. E essa coragem começa com nomear a realidade e recusar a espiritualização da injustiça.
Justiça de gênero não é opcional. É parte da nossa vocação.
Foto: Federação Luterana Mundial/Albin Hillert
+ Confira a notícia original em inglês no site da Federação Luterana Mundial
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