No Brasil é crescente a demanda por órgãos para transplantes. Contudo, muitos órgãos sau- dáveis, que poderiam salvar a vida daqueles que se encontram nas listas de espera, são perdidos devido a preconceitos familiares, falsas compreensões do que vem a ser morte cerebral e à contra-indicação médica no potencial doador, em decorrência de diagnóstico tardio da morte encefálica. Outro fator que prejudica a captação de órgãos são conceitos religiosos que levam pessoas a se posicionarem negativamente. No Brasil, há apenas 3,7 doadores por 1 milhão de pessoas/ano. Destes, apenas um quarto se torna doador de órgãos, gerando um quadro que causa grande angústia naqueles que se encontram nas listas de transplantes, sendo que uma únicadoação pode vir a melhorar a qualidade de vida de até 25 pessoas. Para que as barreiras sejam transpostas, faz-se necessária a constante discussão destes aspectos dentro do âmbito social, religioso e familiar. A posição frente à doação de órgãos deve ser debatida sem preconceitos, de forma clara, por todas as pessoas, levando sempre em consideração as diferenças culturais e religiosas. “Doar órgãos é um ato humanitário permeado pela solidariedade humana. Como tal é de suma importância a participação da Igreja e suas Comunidades, uma vez que este tema ainda é pouco abordado nestes meios, por isso é premente a discussão de aspectos bíblico-teológicos que muitas vezes impedem a concretização da doação. Isto é tarefa de toda Igreja que se coloca a serviço da vida digna, plena e abundante (João 10.10b)”, afirma o nosso entrevistado, Pastor Odair Braun, atuante em Curitiba/PR desde 2000 e, até fevereiro de 2008, Capelão do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba. Desde então, é Gerente de Atendimento ao Cliente, tendo a atribuição de coordenar a Ouvidoria, Serviço Social, Psicologia Hospitalar, Grupo de Humanização e toda área de internação, realização de exames, recepção do Pronto Socorro e ambulatórios. Na Pastoral da Consolação, é responsável pelos ofícios de sepultamento e, em conjunto com a Pastora Vera e a Pastora Aline, celebra os cultos dominicais na Comunidade da Consolação. (Esta matéria será apresentada em duas partes: parte I nesta edição, janeiro/fevereiro, e parte II na próxima edição, março).
Como funciona o trabalho na pastoral da Consolação?
A Pastoral da Consolação foi criada em 1999. Partiu da constatação do Conselho de Administração do Cemitério Luterano de Curitiba ao perceber que inúmeras famílias concessionárias não mais integravam nenhuma igreja e, quando dos casos de óbito, solicitavam a presença ou demonstravam ansiedade e desejo de ter a presença de um ministro religioso para acompanhá-los. Os ofícios de sepultamento são realizados de acordo com a liturgia da Igreja luterana. Após os sepultamentos, as famílias são visitadas e sempre convidadas para participar dos cultos celebrados na capela do próprio cemitério, aos domingos, onde acontece a oração em memória. Muitas destas pessoas atendidas tornam-se freqüentadoras. Foi a partir destas pessoas que se criou, em 2006, a Comunidade da Consolação, que se reúne no mesmo local e conta, atualmente, com 74 membros inscritos. Desde o começo, a pastoral tinha a função de acompanhar o trabalho de Capelania no Hospital Evangélico de Curitiba e também no Hospital de Clinicas da UFPR. A partir disto, passamos a ter assento no corpo de capelães do Hospital Evangélico, que conta com a minha atuação e daPastora Ana Paula Genehr. Logo se percebeu que seria importante ter uma pessoa em tempo integral para o Hospital das Clínicas e a Pastora Vera Maria Immich veio a ocupar o trabalho de capela do Hospital de Clínicas.
Qual é a sua participação no Hospital Evangélico de Curitiba?
Sou o primeiro Obreiro deste tra- balho e integro o Conselho de Administração do Cemitério Luterano. Sou responsável pelos ofícios de sepultamento, visitas aos luteranos vindos de outras cidades e Estadospara tratamento em Curitiba e faço parte da Capelania do Hospital Evangélico de Curitiba, sendo responsável pela Ouvidoria do referido hospital e por toda área de atendimento ao cliente. Nos oito primeiros anos, atuei diretamente no acompanhamento dos enfermos, tendo como minha responsabilidade os pacientes das UTIs Geral, Dor Toráxica, Coronariana e Cardíaca.Com isto, acabei tendo envolvimento direto nos casos de óbitos e principalmente nas situações de morte cerebral.
Nos casos de óbito, de que maneira é feita a abordagem dos familiares?
No Hospital Evangélico, como o trabalho da capelania acompanha as famílias diariamente nos horários de visita, assim como as informações clínicas dos casos, vai se percebendo quais as situações podem se encaminhar para morte cerebral. Com isto, sabemos como as pessoas pensam, quais suas dúvidas, dificuldades, necessidades, anseios e linhas de pensamento. Sempre que se faz a constatação da morte cerebral, a família é chamada para receber a notícia. Este momento é conduzido por um Médico e por um Pastor. Durante oito anos desempenhei esta função. O Médico explica a parte teórica, os exames e os procedimentos técnicos, caso seja permitida a doação. Ao Pastor, fica a tarefa de permanecer com a família, dialogar sobre as dúvidas que surgiam, levar a família a visitar o seu familiar nas dependências da UTI e mesmo a acompanhar o momento de despedida junto ao leito de UTI. Normalmente, se apresentavam poucas perguntas ao Médico, mas as conversas pastorais eram longas.