Nesta edição, vamos veicular a segunda parte (final) da entrevista sobre doação de órgãos realizada com o Pastor Odair Braun, atuante em Curitiba/PR desde 2000 e, até fevereiro de 2008, Capelão do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba. Desde então, é Gerente de Atendimento ao Cliente, tendo a atribuição de coordenar a Ouvidoria, Serviço Social, Psicologia Hospitalar, Grupo de Humanização e toda área de internação, realização de exames, recepção do Pronto Socorro e ambulatórios. Na Pastoral da Consolação, é responsável pelos ofícios de sepultamento e, em conjunto com a Pastora Vera e a Pastora Aline, celebra os cultos dominicais na Comunidade da Consolação.
Há métodos seguros para constatar a morte cerebral?
Os avanços tecnológicos e científicos, associados à terapia intensiva, tornaram viável que pacientes neurologicamente ‘inviáveis’ possam ter suas funções cardiorrespiratórias mantidas por tempo indeterminado. Neste contexto, formula-se o conceito de morte encefálica (=encéfalo morto), uma lesão irreversível no cérebro que paralisa as suas atividades e conseqüentemente as atividades de todo o corpo humano. Assim sendo, o paciente em morte encefálica apresentará batimentos cardíacos, circulação sangüínea e o funcionamento pulmonar e cardiovascular sustentado e monitorado por processos e equipamentos artificiais. A morte encefálica caracteriza a morte do indivíduo como tal e deve sempre ser diagnosticada por dois Médicos, sendo um deles Neurologista ou Neurocirurgião, que não podem fazer parte da equipe que executará o transplante.
É um processo difícil de conduzir? 
Desde o primeiro acompanhamento de doação de órgãos, o tema sempre foi fascinante e desafiador. Por um lado, a dor e a tristeza da despedida de familiares. Por outro lado, no dia seguinte, muitas vezes o contato com familiares e receptores do órgão doado e a alegria, a nova possibilidade que isto significa para eles, um misto de sentimentos e emoções. Nesta caminhada, se faz necessário discernimento no sentido de poder estar ao lado das partes envolvidas e permitindo que vivam e celebrem da forma mais saudável possível a ocasião que se apresenta. Nestes momentos, não há uma receita pronta, uma forma ideal de fazer a abordagem. Sempre procurei encontrar ‘ganchos’ a partir da fala dos familiares para refletir a possibilidade de doação, obtendo mais de 90% de resposta positiva. Jamais se pode tentar forçar a situação para que a família tente mudar sua posição manifesta. Igualmente, se faz necessário respeitar as diferentes opiniões. Não há o certo e o errado. Há posições religiosas, filosóficas e ético-morais que devem ter espaço.
Quais são as principais dúvidas dos familiares?
A maior dúvida sempre era ver o familiar preso a um respirador mecânico, ou seja, o peito com movimentos de respiração, o monitor cardíaco informando os batimentos do coração, mas a informação técnica dizendo que estava morto. Muitos pensam e imaginam estar sendo enganados e que, eventualmente, seu familiar não esteja com morte cerebral constatada. A outra dúvida muito freqüente é pertinente a questionamentos teológicos. O que a Bíblia diz a respeito? Como a Igreja se posiciona? Como vai ser na ressurreição? São questionamentos que exigem capacidade de diálogo simples e objetivo. Não é hora e nem momento para expor tratados teológicos ou sumas filosóficas.
Então, como vai ser na ressurreição?
Para a fé cristã, não é essencial a integridade corporal, ou seja, não há objeção quanto à retirada de órgãos para transplante. A ressurreição é obra de Deus e não necessita de restos de um corpo intocado e sem mácula. Para a ressurreição, se faz necessária somente a nossa fidelidade ao Senhor da vida e da morte, Jesus Cristo. Desta forma, o cristão pode efetuar a doação de órgãos sem maiores preocupações.
Segundo a confissão luterana, uma pessoa pode dispor dos meus órgãos em favor do próximo?
A antropologia cristã vê o ser humano como obra de Deus. O cristão pode devolver a Deus o que Ele criou, com fé firme e plena convicção de que o Senhor da vida faz ressurgir algo novo desta doação. Para Lutero, o ser humano desta vida é mera matéria de Deus para a futura forma da sua vida gloriosa. Afirma também que no princípio a terra e o céu foram completados por Deus e que também o ser humano será reconstituído perfeitamente, pois é imagem e semelhança de Deus. Embora, no Brasil, ainda não tenha sido publicado um posicionamento oficial da Igreja luterana quanto à doação de órgãos, podemos encontrar nuances do seu pensamento a partir do posicionamento luterano-católico da Alemanha, publicado em 1990. Neste manifesto, afirma-se: A partir da visão cristã, a disposição para a doação de órgãos é um sinal de amor e solidariedade ao próximo. Conforme a compreensão cristã, a vida e o corpo são dádivas divinas, sobre as quais os humanos não podem usufruir à vontade, mas que após um cuidadoso exame de consciência pode ser ofertado, em amor, ao próximo. O serviço de amor ao próximo dá sentido à vivência humana. O ato de doar é sinal visível daquilo que Jesus pregou e viveu. Plena entrega, total doação, foi também a experiência das primeiras comunidades cristãs, as quais viveram e praticaram o amor solidário que Jesus semeou.
Como a pessoa pode se declarar doadora?
O mais importante, no transcorrer da vida, é falar e discutir sobre este tema, seja com a sua família, seja com os amigos ou com os colegas de trabalho. Observamos que, em muitos momentos, este tema é tabu e, diante de casos concretos, não se sabe como conduzir a situação. Ficava sempre muito claro que quem falava sobre doação e morte tinha mais facilidade de decidir na hora da constatação de morte cerebral. No Hospital Evangélico, sempre respeitamos a decisão da família. Em alguns momentos, estivemos diante de famílias que não se sentiam à vontade com a doação, mesmo tendo a pessoa falecida manifestado em vida que o desejava fazer. Nestes casos, adotamos o bom senso, ou seja, não insistimos no processo de doação, pois somente criaria uma dificuldade a mais no processo daquela família viver o luto.