Lutero, tradutor da Bíblia
P. Albérico Baeske, coopera desde 1964 na IECLB como Pastor em diversas funções. Aposentado no ano de 2003, atua assessorando Ministros e
Comunidades
Quando Martim Lutero volta proscrito da Dieta em Worms (abril de 1521) o escondem no Castelo de Wartburg, onde permanece até março de 1522. Entre outros trabalhos, verte o Novo Testamento para o Alemão e conclui a tradução em menos de três meses, dispondo apenas do Novo Testamento no original Grego (editado por Erasmo de Roterdã, que colocou ao lado do texto em Grego a sua própria versão latina, acrescentando explicações linguísticas) e da
Vulgata, tradução latina da Bíblia, feita no século IV por Jerônimo. Regressando a Wittenberg, Lutero entrega o seu manuscrito para um exame criterioso. Felipe Melanchthon, especialista em Grego, executa a tarefa. A tradução é publicada em setembro de 1522. Saem 3 mil exemplares, logo vendidos. Dentro de um ano, 6 mil alcançam o público, sucesso para a época. Isto se dá em virtude da linguagem popular da tradução, que elimina a distância histórica, testemunha Jesus andando, falando, fazendo o bem nas vilas e cidades da gente que a lê ou ouve agora.
Lutero torna um livro, misterioso e reservado aos ditos entendidos, compreensível para o povo em geral.
Lutero conta com a colaboração de linguistas da Universidade de Wittenberg e a Bíblia inteira é publicada em Alemão no ano de 1534. Até sua morte,
Lutero e os companheiros melhoram constantemente a tradução. Lutero se aprofunda nas línguas originais, Hebraico e Grego, os idiomas primários deDeus, ciente de que nenhuma tradução, logo também não a sua, substitui o santo original.
Lutero ressalta no prefácio geral ao Novo Testamento: A pessoa simples necessita ser libertada de suas ideias fixas e ser guiada para o caminho certo e ser instruída a respeito do que deve esperar deste livro. Deve esperar o Evangelho, uma pregação a respeito de Cristo, verdadeiro Deus e ser humano que, com sua morte e ressurreição para nós, superou o pecado, a morte e o inferno de todos os seres humanos que nele creem.
No ano depois da primeira edição do Novo Testamento em Alemão, Lutero destaca este intento no escrito Alemão com o título esclarecedor: Direito e Autoridade de uma Assembleia ou Comunidade Cristã de Julgar toda Doutrina, Chamar, Nomear e Demitir Pregadores – Fundamento e Razão da Escritura.
Lutero dedica a sua vida inteira à tradução da Bíblia, a quem sempre se referia de maneira íntima: minha Bíblia, a querida Bíblia, e repetia tantas vezes Que desapareçam todos os meus livros e seja lida tão-só a Sagrada Escritura! Jesus Cristo é, como Lutero diz, sol e verdade da Bíblia. Jesus Cristo não se manifesta independentemente dela, por isso Lutero insiste que o povo cristão encare a Bíblia, orando Ensina-me, ensina-me, ensina-me! Então, ela se demonstra como certa em si mesma, fácil, clara, sendo seu próprio intérprete, que examina tudo em todos, julga e ilumina.
Para refletir, leia o Salmo 1
Educação Cristã em Lutero
Pa. Dra. Claudete Beise Ulrich, Teóloga, Pedagoga, Mestre em Teologia Prática, Doutora em Religião e Educação. Atua no programa de intercâmbio, juntamente com o esposo, P. Carlos Ulrich, entre a IECLB e a EKD, na Igreja Territorial de Hannover, em Wunstorf, na Alemanha
Os textos de Lutero sobre educação são permeados pela esperança cristã. No seu entender, a base para a ação ética do ser cristão no mundo está firmada na liberdade cristã que se mostra na fé ativa no amor, isto é, na busca do melhoramento (Besserung) do mundo. As ideias pedagógicas de Lutero são resultado das suas conclusões teológicas.
Ele escreveu dois textos em relação à educação. O primeiro é dirigido Aos conselheiros de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs (1524). A criação e a manutenção de escolas cristãs é de responsabilidade do poder público local. Toda a realização política seria nula, caso não fosse atendida a necessidade mais urgente, que, na visão de Lutero, era a educação da juventude, por isso afirma Se alguém der um ducado para a guerra, seria justo que doasse cem ducados para a educação.
A educação visa à formação de um bom cristão e um bom cidadão, sendo necessária também a instalação de livrarias e bibliotecas. Lutero menciona a importância da educação tanto para meninas como para meninos, mesmo que ainda em tempos distintos, aponta para a importância da instrução de mestres, coloca a necessidade de conhecer as experiências históricas, valorizando o contexto local e o contexto global, e também lança luzes para uma pedagogia lúdica pela graça de Deus, está tudo preparado para que as crianças possam estudar […] com prazer e brincando […]. No segundo texto, Uma prédica para que se mandem os filhos à escola (1530), ele defende que as autoridades têmo dever de obrigar os súditos a mandarem seus filhos à escola […] para que no futuro possamos ter pregadores, juristas, pastores, escritores, médicos, professores e outros, pois não podemos prescindir deles. Afirma também se o pai for pobre, usem-se os recursos da Igreja. Os ricos deveriam destinar valores para essa finalidade em seus testamentos, como fizeram alguns que instituíram bolsas de estudo.
As reflexões sobre educação cristã, em Lutero, estão interligadas com o seu entendimento do ser cristão no mundo. A educação é algo inerente à necessidade do ser humano. Tudo o que se faz neste mundo se faz por uma esperança, por isso Lutero apontou para uma educação cristã a serviço do melhoramento do mundo, buscando diminuir as diferenças sociais, econômicas e de gênero, valorizando a consciência do ser, da história, da ludicidade, da leitura da Bíblia e de outros livros, a criação de bibliotecas e livrarias, valorizando a inter-relação entre as ciências. Os textos de Lutero não formulam uma teoria cristã de educação (Beck, 1995), mas apontam para a busca de uma boa educação para todas as pessoas, objetivando a vida em sua plenitude.
Para refletir, leia o Salmo 78.1-4