Nunca a tecnologia da comunicação nos deixou tão próximos. Mesmo assim, não é fácil um bom relacionamento com vizinhos. Via Internet, podemos nos comunicar com uma pessoa amiga no outro lado do mundo, em tempo real, e, inclusive, ver o seu rosto na tela do computador, mas os altos muros e as cercas elétricas impedemnos de uma conversa por sobre eles com nossos vizinhos.
Esta experiência se tornou mais concreta desde março, quando passamos a morar em um bairro de São Leopoldo/RS, ainda uma cidade muita violenta, embora a política de segurança tenha baixado alguns índices de roubos e crimes nos últimos tempos.
Nossa casa se encontra num bairro dividido entre moradias de classe média e um loteamento popular de aproximadamente 40 anos. Uma rua com o nome de um descendente de alemão divide estas duas situações sociais. É um muro invisível, como em tantas outras cidades brasileiras.
Moramos no lado das casas de classe média, cujos muros impedem a proximidade e sobre os quais correm cercas elétricas. Não faltam cães de guarda que latem à noite, quando vira-latas passam pela rua. Também não faltam grades nas janelas e portas com fortes sistemas de segurança. Algumas garagens são feitas para dois ou trêscarros. Provavelmente, os que têm apenas um fizeram grandes garagens pensando no futuro.
Do outro lado da rua estão as casas populares, construídas por um plano habitacional de algum Governo do passado. Algumas foram reformadas e ampliadas, outras guardam a arquitetura original, pequenas e frágeis. Os muros são baixos e as casas que têm cercas permitem ver o pátio. Também há muitos cachorros, gatos e, em alguns lares, galinhas.
***Pela fé, somos livres. Pelo o amor, somos servos***
Muito sugestivos são os nomes dos bairros. De um lado, temos Jardim América. Do outro, Vila Esperança. Certamente, existe a esperança de muitos de viverem num jardim América, já que tal bairro que é separado do outro por uma rua chamada John Kennedy.
Ao se aproximar a Primavera e o Verão, outra grande distinção salta aos olhos. No lado popular, há rodas de mulheres e crianças em frente às casas ao anoitecer. O chimarrão corre de mão em mão. As crianças brincam sob os olhares de pais e mães que vieram da labuta diária. A frente da casa se estende para a rua, criando um espaço de convívio. Do outro lado da rua, as frentes estão desertas. Todos serecolheram cedo para o mundo privado do lar.
Na esquina popular, há um terreno baldio. Sob a sombra de abacateiros, um grupo de jovens se reúne constantemente para consumir drogas. Alguns são filhos de vizinhos. Outros vêm de longe. Metade deles foi aluno da minha esposa. Prometem cuidar da casa da Professora, embora saibamos, como o sabe a polícia, que praticam pequenos furtos.
Assim é o mundo que nos cerca. Os que buscam segurança perdem a liberdade. Os que
circulam livremente estão inseguros. Parece que liberdade e segurança não se abraçam. Enquanto nos empenhamos para que a justiça e a paz se beijem (Salmo 85.11), uma frase do reformador Martim Lutero tenta fazer de nós uma ponte entre estes dois mundos tão próximos e tão distantes: pela fé, somos livres, senhores da situação. Pelo o amor, somos servos.
Em palavras de alguém outro, à fé que se torna ativa no amor, acrescentaria: a fé também precisa se tornar ativa no humor. O mal não suporta os gracejos da graça de Deus. Deste jeito, suportamos as tensões entre segurança e liberdade.
P. Dr. Oneide Bobsin
Pastor da IECLB e Reitor da Faculdades EST