O filósofo dinamarquês, Søren Kierkegaard escreveu há um século e meio que ‘a obra de amor em rememorar um morto é a obra do mais fiel amor’. A razão, ele explica, é que tal gesto de amor é o mais puro e desinteressado porque não pode ser devolvido. É a dádiva, talvez a única, que escapa a toda economia, toda transação e até mesmo toda reciprocidade, todo negócio. Finados é a ocasião em que celebramos esta forma de amor.
Entre as histórias bíblicas, a que mais reflete este amor aparece em uma narrativa singela e quase que emudecida, bem como frequentemente esquecida nos calendários eclesiásticos. Não é sobre a Sexta-Feira Santa onde predomina a agonia da paixão de onde passamos diretamenteao Domingo de Páscoa, o dia da ressurreição, mas trata-se do sábado que se insere no meio do que se chama o trivium, os três dias que, no calendário judaico, separam a morte de Cristo e sua ressurreição. Pouco se sabe daquele sábado, o dia santo para Jesus, agora morto, e também para seus discípulos. Pelo que se saiba, não há palavras, não há discursos, nem milagres, nem profecias. É o momento em que não há negócio, quer dizer, é o momento do ócio, como prescreve o terceiro mandamento.
No entanto, há memória que vem enriquecida por uma fragrância no ar, um aroma de bálsamo feito de ervas que haviam sido preparadas por aquelas mulheres que viram onde o corpo do finado amado fora colocado (Mc 16:1). Não há palavras que foram registradas, mas um gesto apenas, uma obra de luto e amor em meio a todo lamento que conecta a Sexta-Feira da Paixão ao Domingo da ressurreição. É este sábado das mulheres com suas orações, lamentos e cheiros que preenche o espaço infestado pelo odor miserável da morte.
Este é o gesto daquelas mulheres que, desafiando o veredicto da morte, mantiveram viva a obra de um amor que é de outra economia, de outro negócio que se assemelha mesmo ao ócio, que oferece a dádiva da rememoração, mantendo vivo na lembrança aquele amado cujo corpo putrescente jaz em uma tumba.
É este momento de rememoração que liga o que de outro modo estaria desconexo, a Sexta-Feira da Paixão e o Domingo de Páscoa. É esta desconexão que leva as igrejas e suas comunidades a duas tendências maléficas àespiritualidade cristã. Uma é o dolorismo ou o fatalismo que não consegue ver além da paixão e exalta a dor. A outra é o otimismo entusiasta de quem celebra a ressurreição, mas já se esqueceu que o corpo que ressurge leva consigo as feridas e cicatrizes da morte. Com o dolorismo, surgem expressões como ‘cada um deve levar sua cruz’, ou ‘é a vontade de Deus’ e tudo termina em um fatalismo. Com o entusiasmo exultante, promovem-se a prosperidade, as curas mágicas e outros engodos.
É aquele sábado de silêncio, de aromas, de lamentos, mas, sobretudo, de rememoração do finado que restabelece a esperança ao que sofre e o realismo ao que exulta. Foram aquelas mulheres, testemunhas do corpo do amado ser depositado em sepulcro, que no sábado se dedicaram ao ocioso trabalho de rememoração, amor e lamento que as trouxe ao lugar onde o corpo foi colocado. Se não fosse por essas mulheres de finados, talvez o cristianismo confessasse somente aparições de Jesus, mas não a ressurreição do corpo. O que as trouxe com óleos e aromas para o sepulcro no Domingo de Páscoa é o que se chama de prática da ressurreição, algo que é sempre um trabalho de amor e luto.
Embora a ciência e as evidências não comprovem esta relação entre Sexta-Feira e Domingo, é isto que a fé afirma e do que a esperança se nutre. A lida do Dia de Finados é precisamente esta expressão de um amor que se entrega e não busca ou aguarda retorno. Parecendo uma contradição ou paradoxo, é precisamente este gesto de oferta incondicional que já não conta em devolução, mas possibilita acesso ao que não se pode esperar. Esta é a esperança contra toda esperança de que nos fala o apóstolo Paulo (Rm 4.18). 
Sem esta prática que se aninha na dádiva de um gesto de amor que não poderia ser retribuído, nada levaria à surpresa da vida que ressurge. Este é o trabalho de finados, a obra ociosa, o ócio sem negócio que nos brinda com inusitada alegria.
P. Dr. Vitor Westhelle, que atuou como Pastor da IECLB no oeste do Paraná, quando foi também Coordenador da CPT/PR, foi Professor da EST, em São Leopoldo/ RS, atualmente é Professor de Teologia na Lutheran School of Theology at Chicago, nos Estados Unidos, e recentemente publicou a obra ‘O Deus escan-daloso: o uso e abuso da cruz’, nos oferece esta profunda reflexão a respeito do momento especial de lembrança dos nossos mortos.