O ano de 2009 trouxe com ele uma comemoração muito importante: os 60 anos da IECLB. Para homenagear a nossa Igreja, o Jorev Luterano vem destacando fatos e pessoas que fazem parte do processo de constituição da Federação Sinodal, depois denominada Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Nesse sentido, também queremos o olhar dos dois ex-Pastores Presidentes da IECLB e do P. Presidente em exercício, mas, desta vez não sobre o passado, e sim sobre o futuro da nossa Igreja. Assim, apresentamos a proposta ‘IECLB 60 anos – desafios para a nossa Igreja hoje’ aos três Pastores (Dr. Dr. h.c. Gottfried Brakemeier, P. Huberto Kirchheim e P. Walter Altmann) e a primeira contribuição apresentamos nesta edição, com as reflexões do P. Gottfried Brakemeier, que estudou Teologia no Brasil e na Alemanha, em 1964 foi ordenado Pastor da IECLB, doutorou-se na área do Novo Testamento em Göttingen, na Alemanha. De 1968 a 1984, foi Professor na Escola Superior de Teologia, exerceu a Presidência da IECLB de 1985 a 1994, a Presidência do CONIC de 1986 a 1990 e a Presidência da Federação Luterana Mundial de 1990 a 1997, voltando à docência na EST em 1995 e aposentando-se em 2002.
Missão de Deus – nossa paixão! Eis aí o desafio à IECLB por excelência. Sem missão, a Igreja de Jesus Cristo trai o Evangelho e coloca o seu futuro a perder. Somente como Igreja missionária a IECLB terá chance no mercado religioso brasileiro. Para alcançar o objetivo, serão necessárias novas iniciativas. Já houve significativos avanços, mas importa não esmorecer.
Que significa missão? O termo pode provocar suspeitas. Missão é confundida com pesca de membros, imposição da minha fé, aliciamento de pessoas para a nossa Igreja. Nada mais errado do que isto. Missão não quer forçar. Ela é, isto sim, convite. É nada violento. A IECLB convida as pessoas a aceitar o Evangelho e a se juntar a uma comunidade luterana, engajada em viver de acordo com os princípios de Jesus Cristo. Missão, antes de se desdobrar em programas e campanhas, é um jeito de ser. Igreja missionária é Igreja convidativa, ou seja, Igreja que sabe convidar.
É isto no que a IECLB deve aperfeiçoar- se. Ela já caminhou um bom pedaço. Mesmo assim, permanecem entraves a vencer. Entre eles menciono, em primeiro lugar, o sedentarismo. No mundo de hoje, é preciso ir, mexer-se, sair de casa. Jesus não montou um consultório em Cafarnaum à espera de clientes. Ele foi ao encontro das pessoas. Igreja sedentária não tem futuro. Missão se faz no lar, no lugar de trabalho, na escola, no lazer, na política, nos lugares onde pulsa a vida. É para lá que a IECLB, por meio dos seus membros, deve ir para dar o seu recado e formular o seu convite. Sem visitação, as pessoas não chegam. Especialmente nas metrópoles, importa descobrir novos caminhos para alcançar as pessoas. O futuro da IECLB vai depender em forte medida dos rumos da missão urbana.
Missão exige a disposição para acolher estrangeiros. Refirome a pessoas de outras etnias, culturas, raças, tradições. A IECLB é uma Igreja ainda por demais fechada, concentrada nos descendentes germânicos. Juntamente com a acolhida de gente de outras culturas, a IECLB deve estar pronta a ensaiar outros modos de expressar e viver a fé. Precisadiversificar a sua oferta, seja nas formas litúrgicas, seja na contribuição financeira ou outras. É claro que a IECLB deve permanecer luterana. Sua identidade não é negociável, mas o luteranismo não tem cor, nacionalidade, gênero. Pode inculturar e adaptar-se às pessoas a quem dirige o seu convite. Convém lembrar que o missionário mais eficiente é o membro leigo. Obreiros e obreiras devem assessorar, mas a missão de Deus é um projeto essencialmente leigo.
Associa-se a isto o imperativo da unidade plural. Devemos aprender a sermos uns nas nossas diferenças. Trata-se de uma necessidade urgente no mundo global. Jamais vai haver paz sem a integração do diferente. O mesmo acontece na Igreja. No corpo de Cristo, há variedade de membros. Uniformidade impede que o diferente se sirva mutuamente, mas a pluralidade deve saber cooperar. O conflito causa danos ao corpo e prejudica a credibilidade da missão. A diversidade de dons, de movimentos, de grupos na IECLB significa riqueza enquanto couber no denominador comum da confissão luterana. O mundo moderno desafia a reconciliar diferenças e a habilitá-las à convivência. A IECLB deverá desempenhar a sua missão numa sinfonia de vozes diferentes e, todavia, harmônicas.
Não raro se pergunta a quem dirigir a missão. Quais seriam seus destinatários? Ora, a missão de Deus não vai querer alienar os membros fiéis de outras Igrejas irmãs. Missão respeita o ecumenismo. Queremos a fraternidade eclesial, a ação conjunta dos cristãos. É verdade que o convite missionário se dirige a todos e não exclui ninguém, mas tem em vista prioritariamente os sem igreja, os migrantes religiosos, gente em busca de uma comunidade de fé que os acolha. Acredito que a IECLB possui enorme potencial missionário do que, em seus 60 anos de existência, deu inúmeras provas. Ela não deixa de ser Igreja atrativa no contexto brasileiro. Muitos, entre eles o autor dessas linhas, lhe devotam sincero amor. Então, vamos mobilizar o potencial dessa igreja, agradecer a Deus pela condução no passado e rogar por sua bênção no futuro.