Dando seqüência à série de matérias especiais em comemoração aos 60 anos da IECLB, nesta edição o P. em. Dr. Martin Dreher, Doutor em Teologia pela Universidade de München, vai apresentar o processo de formação da Federação Sinodal abrangendo o tempo entre o fim da II Guerra Mundial e o 1º Concílio Eclesiástico, em 1950.
Alemão batata come queijo com barata! Cresci ouvindo essas expressões. Nasci em novembro de 1945. A Guerra terminara, na Europa, em maio. Quando, em 26 de outubro de 1949, surgiu a Federação Sinodal, não tomei conhecimento. Nesses primeiros quatro anos da minha vida, muita gente havia trabalhado para formar a Igreja que pretendia, com todas as forças, ser Igreja de Jesus Cristo no Brasil. Em 1945, os sentimentos dos membros dos Sínodos que viriam a compor a IECLB eram variados. Os rastros do regime fascista de Getúlio Vargas ainda se faziam sentir. A rede de ensino dos luteranos estava destruída. Patrimônio havia sido confiscado. Membros e Pastores haviam sido humilhados e levados para campos de concentração em Porto Alegre, Florianópolis/SC, Rio de Janeiro/RJ e Vitória/ES. Alguns haviam sido mortos pela polícia do Estado Novo. Alguns campos de trabalho estavam perdidos. Outras denominações protestantes haviam se aproveitado da situação. Nas Comunidades, alguns resignavam ante ‘o castigo de Deus’. Outros diziam que era hora de arregaçar as mangas.
Luteranos que regressavam da Europa, pois lá haviam ficado retidos por causa da Guerra ou nela lutado como ‘soldados d
e Getúlio’, diziam que também no Brasil necessitávamos de reorientação. O sinal mais evidente dessa reorientação se expressou nas Comunidades, principalmente nos grupos de OASE, que passaram a cantar com entusiasmo o hino da resistência ao nazismo Jesus Cristo é rei e Senhor… é Senhor somente, hoje e eternamente. A fome na Europa permitiu o trabalho conjuntocom outras denominações cristãs no projeto ‘Socorro à Europa Faminta’, depois intensificado. Em 1948, os Sínodos estariam representados na Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas, em Amsterdã, na Holanda. Era, também, tempo de ‘guerra fria’ entre os Estados Unidos e a União Soviética. O medo se concentrava nos ‘comunistas’. Como vida não é feita apenas de medo, lideranças luteranas julgaram por bem ingressar com mais intensidade na vida pública. Desde a legislatura de 1946, haveria deputados estaduaise federais luteranos.
Regionalmente isolados, os Sínodos retomaram os diálogos que haviam sido interrompidos pela Guerra. Importante foi que começaram a enviar jovens para a Escola de Teologia, fundada logo após o final da Guerra pelo P. Hermann Dohms, em São Leopoldo/ RS. Aqui, começaria a formação de um quadro de Pastores nascido no Brasil e a discussão teológica sobre o que significava ser Igreja de Jesus Cristo no Brasil. No passado, os Sínodos haviam se orientado mais na questão da herança étnica. Agora, se perguntavam com mais intensidade pela missão da Igreja em contexto brasileiro. Todos esses acontecimentos e reflexões permitiram que, em 26 de outubro de 1949, todos os Sínodosformar a Federação Sinodal, cujo primeiro Concílio aconteceria em maio de 1950, na sala de meditações do Instituto Pré-Teológico.
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Igreja de Jesus Cristo no Brasil
No Primeiro Concílio da Federação Sinodal, realizado de 14 a 16 de maio de 1950, foram apresentadas pelo P. Hermann Dohms as sentenças programá-ticas que norteariam a IECLB:
1. A Federação Sinodal é Igreja de Jesus Cristo no Brasil com todas as consequências que daí resultarem para a pregação do Evangelho neste país e a co-responsabilidade para a formação da vida política, cultural e econômica do seu povo.
2. Esta Igreja é confessionalmente determinada pela Confissão de Augsburgo e pelo Pequeno Catecismo de Lutero, pertence à família das Igrejas moldadas pela Reforma de Martinho Lutero e quando adotar em lugar de ‘Federação Sinodal’ a denominação de Igreja, o que esperamos para breve, exprimi-lo-á nesta mesma denominação.
3. Como Igreja assim determinada confessionalmente, a Federação Sinodal encontra-se na comunhão das Igrejas representadas no Conselho Ecumênico, as quais admitem o Evangelho de Jesus Cristo, que nos transmite a Sagrada Escritura, como única regra e diretriz da sua obra evangélica e da sua doutrina.
4. A Federação Sinodal cultiva a comunhão de Fé com a Igreja-mãe, a Igreja Evangélica na Alemanha, que pela sua organização básica evidencia a comunhão da cristandade evangélica na Alemanha e se enquadra na ordem da ecúmene.
Nos anos posteriores a 1950, a história da IECLB deve ser entendida como esforço para concretizar essas sentenças.
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As novas bases teológicas
O Século XX foi, em boa medida, marcado pelos nacionalismos. Eles também se fizeram sentir nas igrejas. No caso dos luteranos brasileiros, o nacionalismo se expressou na forma da germanidade, conceito com o qual se acentuava o compromisso de manter a identidade étnica como dádiva divina. Ao final da Guerra estava claro que essa fusão de Evangelho e germanidade não se sustentava na forma como havia sido fundamentada no passado. O Evangelho deveria ser pregado na língua que as pessoas entendessem, mas de modo algum se poderia falar em um ‘evangelho alemão’ que deveria ser estendido a todas as etnias. Para o novo discurso que se estabeleceu nos Sínodos, alguns Teólogos foram de grande importância. Aqui devem ser mencionados os nomes de Karl Barth, Emil Brunner, Dietrich Bonhoeffer, Paul Althaus e Werner Elert. Karl Barth fora Professor de um aluno de Hermann Dohms, Ernesto Schlieper, e tinha no Pastor Gustav Reusch, Pastor em Cachoeira do Sul e, depois, em Novo Hamburgo, seu grande advogado. Althaus e Elert eram Professores na Universidade Erlangen e suas publicações eram muito conhecidas entre os Pastores de um dos Sínodos, o Sínodo Evangélico Luterano de Santa Catarina, Paraná e outros Estados, onde na época atuavam pessoas como o Pastor Ferdinand Schlünzen, também seu Presidente, P. Hans Müller e P. Wilhelm Fugmann, produtores dos primeiros hinários em Língua Portuguesa. A Ernesto Schlieper deve-se a aproximação de Hermann Dohms, a grande liderança dos primórdios da IECLB e também seu Arquiteto, desses pensadores teológicos. Dohms vinha do Pietismo, descobrira a Teologia de Schleiermacher, Troeltsch e Martin Kähler e, no pós-Guerra, teve nova conversão teológica ao se ocupar com Barth, Brunner, Althaus e Elert. Dohms também trabalhara já antes da Guerra para que três dos quatro Sínodos que formariam a IECLB assumissem explicitamente a Confissão de Augsburgo e o Catecismo Menor de Lutero, além do Antigo e Novo Testamento, como base confessional. Essa baseconfessional estreita deveu-se à composição confessional do povo que formou as comunidades da IECLB. Enquanto os pomeranos e os provenientes do norte da Alemanha eram luteranos, os vestfalianos e parte dos renanos eram calvinistas e muitos dos palatinos eram unidos. Para manter esse povo unido, teve que se optar por uma base confessional que alguns designaram de minimalista. O quarto Sínodo, no qual atuavam Pastores oriundos de Neuendettelsau e Hermannsburg, tinha como base confessional os escritos contidos no Livro de Concórdia. A grandeza de lideranças como Ferdinand Schlünzen e Friedrich Wüstner permitiram que também este Sínodo desistisse do Livro de Concórdia e adotasse a Confissão de Augsburgo e o Catecismo Menor como base confessional. No entanto, os outros três sínodos concordaram que, no futuro, todos os Sínodos deveriam ter todos os escritos contidos no Livro de Concórdia como sua base. Essa dívida está em aberto.