Uma história de fé
Era um domingo como qualquer outro. O sol dava o ar da graça. O sabiá cantava insistentemente, repetindo as notas de uma cantiga familiar. O doce aroma do café recém passado espalhou-se pela casa paroquial. Ao lado da térmica do café, uma cuia de chimarrão, tradição que veio do sul. O Pastor reuniu seu material de culto, sem esquecer do violão, parceiro de trabalho, e na companhia de sua esposa e o casal de filhos dirigiu-se para o Templo da Comunidade. Seria apenas mais um Culto, um encontro das 23 famílias membro.
O Templo humilde, situado em um Bairro distante cinco quilômetros da casa paroquial, era o lugar de encontro e reencontro deste pequeno rebanho de Deus, que vive espalhado em quatro Municípios da região centro sul do Paraná. Na simplicidade do ambiente, mãos se estenderam e braços se abriram para saudar e acolher de forma fraterna aos irmãos e irmãs, filhos da diáspora. Como é bonito, Senhor, reencontrar pessoas e poder abraça-las.
A porta do Templo se abriu. Triste visão! E foi inevitável, um nó na garganta e lágrimas a rolar no rosto de muitos. O altar ornado pelo verde da esperança, amparando a alegria e o colorido das flores, contrastava com um lamentável retrato de vandalismo. Talvez estejamos nos acostumando com notícias de depredação e de vandalismo, que tal situação não mais nos comove. Mas, para nós foi como se as pedras tivessem acertado cada um de nossos corações. Sim! Alguns vândalos, na calada da noite, covardemente atiraram pedras contra nosso pequeno templo, fazendo com que cada vidro das janelas se transformasse em milhões de pedaços. Ficamos paralisados, em profundo silêncio diante de uma tristeza inexprimível. Pois, não era a primeira vez! Depois de não sei quantos segundos ou minutos, alguém pegou uma vassoura e começou a varrer os cacos. Tínhamos um culto a celebrar. E o tempo não para.
O Pastor juntou as pedras. Uma delas foi colocada sobre a Bíblia no púlpito. As vozes tornaram-se trêmulas ao entoarem os hinos, exprimindo decepção e desalento, e, por um instante, desespero. Ao final da pregação, o Pastor pega uma das pedras em suas mãos dizendo: “Com esta pedra quebraram os vidros da igreja. Com esta pedra atingiram nossos corações. Mas, será a partir desta pedra que construiremos um novo Templo em outro local.”
Não seria uma tarefa simples. Não havia recursos, eram poucos membros, muitos moravam longe. Contudo, Deus não precisa mais do que meia dúzia de pessoas de boa vontade para realizar sua missão. Basta que estas tenham fé. E foi isso que aconteceu. Sabedores da proteção divina, conforme afirma o Profeta Isaías: Eu sou o seu Deus. Eu lhes dou forças, ajudo e protejo com a minha forte mão (Isaías 41.10), fomos à luta.
A mudança
Em Dezembro de 1999 a Comunidade vendeu a “igreja”. Com o dinheiro pagou-se parte de um terreno. Almoços, jantares, bailes, campanhas, mutirões, doações… são palavras que nos anos seguintes andaram de mãos dadas com a fé, o amor e a esperança.
Durante o ano de 2000 foi construído um salão que serviria para diversas atividades: Cultos, OASE, Ensino Confirmatório e eventos festivos, entre outros. E, finalmente, no dia 10 de Junho de 2007 celebramos a Festa de Lançamento da Pedra Fundamental. A inscrição na urna “Servi ao Senhor com alegria” era um convite dirigido aos membros para que olhassem o desafio como uma bênção. Na fundação do novo templo está a pedra usada para depredar o templo antigo.
Culto de inauguração do novo Templo
No dia 29 de Setembro de 2013, a comunidade celebrou a conclusão desta obra magnífica. O P. Dr. Nestor Paulo Friedrich, Pastor Presidente da IECLB, ao lado do Pastor Sinodal Jorge Schieferdecker e do Pastor Célio R. Seidel, celebraram o Culto de dedicação do novo templo.
A alegria da Comunidade tornou-se maior com as muitas presenças. A delegação do Distrito Eclesiástico de Walsrode (Baixa Saxônia), com quem a Paróquia Luterana das Araucárias mantém uma parceria desde 1992, encantou os presentes com a música do grupo de metais (Posaunenchor). O grupo Musical de Irati deu o tom dos hinos. O Prefeito de Irati Odilon Burgath, o Vice-prefeito Oscar Renato Berger (Presidente da Comunidade Luterana de Gonçalves Júnior – IECLB) e a Secretária do Bem Estar Karen Quoos Seidel (esposa do Pastor Célio) trouxeram o seu abraço e reconhecimento ao trabalho da IECLB na região. As demais comunidades da Paróquia se fizeram representar, mostrando o apoio mútuo existente entre elas. O Engenheiro Dagoberto Waydzik expressou sua alegria em fazer parte desta história.
A Presidente da Comunidade de Irati, Sandra Mara Gaedicke, assim expressou a gratidão de todos os membros: “Agradecemos a todos as pessoas da nossa comunidade, às autoridades e a todos os nossos amigos que nos prestigiam no dia de hoje, aos representantes do Sínodo, também fazemos um agradecimento especial aos nossos amigos e parceiros da Alemanha, os quais vem há bastante tempo se preparando para estar presente neste momento tão especial para nós. Enfim, agradecemos a todos que puderam participar e contribuir na realização de nosso sonho. Também não podemos deixar de mencionar a presença, pela primeira vez em nossa Comunidade, do Pastor Presidente da IECLB, que fez este dia, ainda mais especial. Ao pastor Célio que não mediu esforços nesta jornada e, principalmente a Deus, que sem ele não faríamos nada. Há muito ainda que ser feito, porém já está visível nossa conquista, um lugar de paz em que pessoas e famílias são acolhidas para compartilhar o ínfimo pensamento divino.”
O Presidente da Paróquia Luterana das Araucárias, Denilson Nos, disse: “Com certeza que esta comunidade serve de exemplo para muitas outras, que por vezes sentem-se pequenas, mas lembramos que a comunidade de Irati no passado foi também uma comunidade com poucos membros, que arregaçaram as mangas e disseram nós somos capazes , pois Deus está conosco… As mudanças são gradativas, pois sabemos que apenas com o esforço, trabalho, união, e fé em Deus é que conseguimos criar um ambiente de harmonia, e nesta Igreja pensada com muito carinho, em cada símbolo litúrgico que aqui existe realmente traz em cada celebração uma tranquilidade para podermos escutar as palavras das Sagradas Escrituras.”
A história desta humilde comunidade, outrora agredida e desprezada, é uma prova clara de que Deus fortalece os pequenos e fracos e os ampara com sua forte mão. A Comunidade não apenas construiu um belo Templo, mas tornou-se mais conhecida e participativa, além de ver o número de famílias se multiplicar. 65 famílias membro compõe hoje a Comunidade Luterana de Irati.
P. Célio R. Seidel