Neste m
ês, no dia 21, lembramos o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência e um importante aspecto no contexto de avanços sociais e políticas públicas em favor das pessoas com necessidades especiais é a inclusão escolar, pois diz respeito às crianças com deficiência e também às crianças sem deficiência e seus familiares. O motivo é claro: as crianças com deficiência e seus pais desejam, precisam e merecem a inclusão, processo que acontece justamente pela aceitação do outro, do que é diferente, neste caso, o ‘normal’, portanto as crianças sem deficiência e seus pais. A inclusão escolar é um direito de alunos com e sem deficiência, uma tarefa difícil de ser executada, mas gratificante para todos os envolvidos, ou seja, para todos nós como sociedade. Para tratar sobre este tema de fundamental importância, convidamos a Pedagoga Mara Lúcia Sartoretto, que nos oferece esta relevante reflexão.
A inclusão de pessoas com deficiência nas escolas comuns da rede regular de ensino coloca novos e grandes desafios para o sistema educacional. Este, talvez, seja um dos temas que mais têm instigado não só Professores do ensino especial, mas também Professores das escolas comuns, pais e a própria sociedade. Dentro e fora das escolas, vem se verificando um acalorado processo de discussão acerca das modificações que devem ser implementadas na escola, processo que nem mesmo as três leis de diretrizes e bases haviam conseguido desencadear.
Analisando a história das pessoas com deficiência, vemos que, durante anos, elas perderam a sua identidade e passaram a ser designadas não pelo nome, mas pela deficiência de que são portadoras: o cego, o surdo, o down, por isso, por muito tempo, não tiveram acesso à escola comum: ficavam em casa ou eram atendidas em espaços segregados, convivendo apenas com colegas que também apresentassem algum tipo de ‘deficiência’. Mesmo quando, numa tentativa de integração, alguns desses alunos passaram a freqüentar as classes comuns das escolas regulares, havia uma seleção prévia e só eram admitidos os que estivessem aptos e amoldados ao formato da escola. Aí, não era a escola que tinha que mudar: os alunos é que teriam que se adequar às exigências da escola.
Atualmente, um grande número de pessoas com deficiência está freqüentando escolas comuns. Isso tem levado a uma profunda reflexão acerca do papel e das finalidades da escola, de modo que, no avanço da discussão, vai se consolidando a compreensão de que as diferenças na sala de aula, antes de serem um complicador para a ação do Professor, podem se tornar um fator de qualificação e de enriquecimento do ensino.
Pais e Professores começam a se dar conta que a convivência entre crianças com e sem deficiência é mutuamente benéfica. Ganham os alunos com deficiência, na medida em que convivem num ambiente desafiador, provocador, rico em experiências e relações que estimulam e incentivam a pensar, e ganham os alunos ditos ‘normais’, por terem oportunidade de aprender a conviver com a diversidade, de construir conhecimentos e, inclusive, de conhecer novas formas de comunicação, tais como Libras e Braile, além de se familiarizar com novos recursos, como a tecnologia assistiva e a comunicação alternativa e aumentativa.
Acima de tudo, em espaços onde se dá lugar à diferença e não se estigmatiza a deficiência, forma-se um terreno fértil para experiências de colaboração, ajuda mútua e solidariedade, padrões de convivência tão necessários em nossos dias. Isso é tão verdadeiro que já não é raro encontrar pais de crianças ‘normais’ que fazem questão que seus filhos convivam com colegas com deficiência.
A transformação de todas as escolas em escolas inclusivas é um grande desafio que teremos que enfrentar, mas a condição para que a inclusão escolar se torne uma realidade passa pela redefinição do papel das escolas especiais como responsáveis pelo atendimento educacional especializado e das escolas comuns como o local em que os alunos, por meio do conhecimento, possam questionar a realidade e, coletivamente, viver experiências que reforcem padrões sociais de cooperação e vivência da cidadania.
Nesse sentido, é imprescindível que se redimensione o enfoque da formação dos Professores cujo objetivo não deve ser simplesmente adquirir conhecimentos, mas estimular a curiosidade e desenvolver a capacidade de adquirir conhecimentos. É preciso que a reflexão sobre os problemas de aprendizagem e o modo como ela se processa tome o lugar da reflexão em torno dos problemas do ensino, ou seja, em vez de nos preocuparmos tanto com o como devemos ensinar, precisamos aprofundar a nossa reflexão acerca de como os alunos aprendem.
Nessa concepção de escola, que vê a diferença e a deficiência como algo inerente à condição humana, o atendimento educacional especializado, a ser oferecido tanto aos alunos com deficiências quanto aos alunos com altas habilidades, assume papel importante e decisivo. Em uma sala inclusiva, o aluno não presta atenção no Professor, o Professor é que deve prestar atenção no aluno.
Em uma sala inclusiva, o aluno não é ouvint
e, não é assistente. Em uma sala inclusiva, o aluno realiza atividades, resolve problemas, desenvolve projetos, participa, opina, analisa, cria e não precisa decorar nada. A escola inclusiva é a escola do aluno que pensa, faz e cria e não do aluno que ouve, copia, anota, decora e reproduz na prova. Pensar, fazer e criar: cada um pode fazê-lo a seu modo, no seu ritmo e sem moldes predeterminados.
Mara Lúcia Sartoretto é Pedagoga Especialista em
Alfabetização e Estimulação Precoce, Coordenadora
do Cursode Especialização em Atendimento
Educacional Especializado – SEAC – Escola de
Educação Profissional e Diretora do Centro
de Apoio da AFAD – em Cachoeira do Sul/RS