Baseado na compreensão do termo “ubuntu” (ser alguém em comunidade), o conceito de justiça restauradora afirma o papel vital da comunidade. A justiça restauradora dá prioridade à reconciliação e à cura da comunidade em comparação ao entendimento de justiça baseado em retribuição, que requer a punição dos culpados a qualquer custo. Justiça restauradora, porém, também requer compensação e restituição de perdas e danos às vítimas por parte dos perpetradores, expôs o teólogo Dr. Marcelo Schneider em sua palestra no Encontro de Estudos a partir da Cartilha “Justiça Transformadora: ser Igreja e superar o racismo”.
Marcelo Schneider: justiça restauradora dá prioridade à cura da comunidade O encontro realizou-se na Faculdades EST em 31 de agosto e 1º de setembro, tendo como base a cartilha elaborada pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em 2004. Através desse documento, as igrejas são chamadas a fazer avançar a causa da justiça no tocante a questões raciais e étnicas. Marcelo Schneider é assessor do moderador do CMI, pastor presidente da IECLB, Dr. Walter Altmann, e trouxe para o encontro na EST aspectos do trabalho do CMI após sua 9ª Assembléia, realizada em Porto Alegre em fevereiro de 2006.
Após esta Assembléia, o CMI viu-se diante de um novo século, de um novo milênio, agregou Marcelo Schneider. Os delegados e participantes trouxeram tanto preocupações quanto manifestações de esperança. Diante de tanta diversidade, a primeira afirmação seria de que o movimento ecumênico está vivo. Mas para onde caminha? E com que forças?
O trabalho de sistematização das deliberações da Assembléia e seus diversos comitês, segundo Marcelo, resultou numa reestruturação substancial do Conselho, que se reflete numa atenção especial ao planejamento, monitoramento e avaliação dos passos dados. Era preciso apontar prioridades, afinar tais prioridades numa dinâmica de interação e produtividade.
Os seis novos programas trazem em seu bojo quase a totalidade das “velhas” agendas do movimento ecumênico, mas com uma tônica e um método diferentes:
1 – O CMI e o movimento ecumênico no século XXI
2 – Unidade, Missão, Evangelismo e Espiritualidade
3 – Testemunho público: abordando as questões de poder e afirmando a paz
4 – Justiça, Diaconia e Responsabilidade pela Criação
5 – Formação e Educação Ecumênicas
6 – Cooperação e Diálogo Inter-religiosos
“Igrejas Superando o Racismo” está inserido, hoje, na unidade 2. Mais especificamente no subprograma “Rumo a Comunidades Justas e Inclusivas”, ao lado de questões e temas como:
solidariedade com povos indígenassolidariedade com os dalits por justiça e dignidade (na Índia há 160 milhões de dalits, considerados “intocáveis” e que sofrem discriminação por conta da sua casta, sendo considerados quase subumanos, sujeitos aos trabalhos mais degradantes, seus direitos são sistematicamente submetidos a violações)Rede de Defesa da Causa das Pessoas Portadoras de Deficiência (EDAN)
Tendo o indiano Deenabandu Manchala como responsável, estes programas são executados tendo uma matriz para entender a exclusão, uma matriz para apresentar abordagens acerca da inclusão e uma matriz para um futuro que seja fruto da esperança e das comunidades inclusivas, explica Schneider.
Iára Müller: “pessoas com deficiência, indígenas, negros e dalits são os grupos mais oprimidos atualmente” DEPOIMENTO DE LA PAZ – A pastora Ms. Iára Müller, da Pastoral da EST (portadora de deficiência após paralisia infantil), deu depoimento sobre sua participação na Conferência Comunidades Justas e Inclusivas, realizada em La Paz, Bolívia, em fim de maio de 2007. Conforme Iára, no entendimento do CMI, lá estiveram reunidas representantes dos grupos mais oprimidos da humanidade atualmente: pessoas com deficiência, indígenas, negros e dalits.
Segundo Iára Müller, encontro de La Paz levou os participantes a perceber que não é possível mudar as diferenças que há entre eles, mas que são importantes para a humanidade. “Fizemos um documento baseado nessas diferenças, sem tentar disfarçá-las. Pelo contrário, valorizá-las como parte integrante da obra de Deus”, acrescenta a pastora. Nesse documento, o grupo reunido em La Paz também denunciou a anatomia da exclusão, que faz tantas vítimas. “Descobrimos que somente historias de vida, de sofrimentos e de exclusão podem fazer os outros compreenderem a partir do coração e mudarem sua atitude. Por isso, o documento é recheado de histórias verdadeiras de exclusão”.
As palestras e os trabalhos em grupos deram subsídios para a elaboração de um documento adicional à Cartilha de 2004 do CMI, a ser publicado em breve. (Edição de textos e fotos: Ingelore S. Koch-Faculdades EST)
O grupo menor de participantes na manhã de encerramento