P. Marcos Aurélio de Oliveira, formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Pastor Vice-Sinodal no Sínodo Norte Catarinense, atua na Paróquia dos Apóstolos-CEJ/UP, em Joinville/SC
Para a liberdade foi que Cristo nos libertou
O tema liberdade faz parte das nossas vidas desde sempre. Certamente, é umas das coisas que mais almejamos e buscamos. Não medimos esforços para alcançá-la e sofremos imensamente com a simples possibilidade de perdê-la. O que é liberdade? Por que a consideramos tão importante? Como entendê-la sob a ótica da fé em Jesus Cristo?
Segundo o Dicionário Bíblico, liberdade é a ‘faculdade de cada pessoa pensar, decidir e agir por si, sem coerção ou constrangimento, dentro do limite das leis estabelecidas…’, ou seja, isso buscamos, queremos e, muitas vezes, pensamos que temos. Como pessoas, nos satisfaz sentirmo-nos livres, poder dizer o que pensamos, ir e vir aonde e quando queremos e assim por diante. No entanto, essa liberdade é frágil e pode ser perdida facilmente.
Certa vez, Jesus disse às pessoas que haviam crido nele: Se, pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres (Jo 8.36). Esta liberdade sobre a qual Cristo fala é aquela que apenas Ele nos concedeu. Nada fizemos ou podemos fazer para merecê-la. A partir da ação dele, somos pessoas libertas do pecado (Jo 1.29 e Rm 6 e 7), da morte, da condenação, do medo (Rm 8). Então, a partir do que Cristo fez por mim, estou livre para viver plenamente, sem ficar me ocupando em querer alcançar redenção e liberdade, pois já as recebi pela graça de Deus!
Sabemos disso, cremos nisso, confessamos isso. Mesmo assim, parece que falta algo! Sim, falta compreender para que Deus nos perdoou, redimiu, libertou: tudo foi para servirmos em amor às de mais pessoas!
Lutero percebia esta falta de compreensão, por isso refletiu sobre a liberdade cristã, afirmando que ‘uma pessoa cristã é livre sobre todas as coisas e não está sujeita a ninguém – uma pessoa cristã é serva prestativa em todas as coisas e está sujeita a todas’.
Neste ano, estamos pautando as nossas ações pelo Tema: Pela graça de Deus, livres para cuidar. De forma bem objetiva, como Igreja estamos afirmando a razão da nossa liberdade: como pessoas e Comunidades cristãs, somos livres para cuidar, fazer o bem e evitar o mal.
Fazer o bem é escolher a vida e isso é consequência, resulta do que Cristo fez por nós. Se compreendermos o que de fato aconteceu na ação redentora em Jesus Cristo, viveremos a liberdade de agir em prol da vida. Não será apenas fala, será mudança de vida. Por exemplo: refletiremos com profundidade antes de falar e agir, ao invés de ficarmos invocando a liberdade de expressão para simplesmente dizer o que queremos, sem considerar as consequências danosas para as outras pessoas e para vida como um todo.
O Apóstolo Paulo, em sua carta aos Gálatas, escreveu: Para a liberdade foi que Cristo nos libertou (Gl 5.1). Essa fala de Paulo exorta a não voltarmos para aquela vida pautada por nossas buscas e interesses, que resultam em distanciamento de Deus e morte. Em Cristo, somos pessoas livres para viver, cuidar, servir, amar.
Para refletir, leia João 8.31-36

P. Célio Reni Seidel, formado em Teologia pela Faculdades EST, em são Leopoldo/RS. Pastor Vice-Sinodal no Sínodo Paranapanema, atua na Paróquia das Araucárias, em Irati/PR
Liberdade x Escravidão
O livro Da Liberdade Cristã (1520), da autoria de Martim Lutero é um dos documentos básicos da Reforma Luterana. O Reformador percebeu o quanto as pessoas se sentiam presas e oprimidas diante da obrigação de fazer boas obras ou mesmo de comprar indulgências a fim de tornarem-se merecedoras do perdão, de alguma graça ou da salvação.
Confrontado pelas palavras do Apóstolo Paulo em 1Coríntios 9.19, Lutero esclarece que Cristo nos libertou gratuitamente, eximindo-nos de qualquer obrigação meritória. O seu pensamento pode ser resumido em duas frases: Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém – pela fé. Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos – pelo amor.
A cruz de Cristo nos liberta de todo pecado e mal e nos torna coerdeiros do Reino dos céus. Não precisamos mais praticar boas obras ou comprar indulgências, com o intuito de receber perdão e ter acesso à salvação. O amor de Deus, derramado gratuitamente em nossas vidas, nos deixa livres para a prática de boas obras como algo despretensioso, sem interesses e sem esperar nada em troca, sem almejar obter alguma vantagem temporal ou eterna.
Os temas do documento Da Liberdade Cristã são muito atuais – infelizmente. Há um retrocesso em vários aspectos, face às grandes conquistas da Reforma. Embora continue a reconhecer-se que o cristão se torna coerdeiro com Cristo, julga-se novamente necessário fazer determinadas obras, a que chamam de votos, semeaduras, entre outras invenções. A realização de obras e gestos concretos objetivam não só o perdão e a salvação, mas também o recebimento de riquezas materiais. Os movimentos de fé, que tiveram, inicialmente, muito boas intenções, de trazer um aumento de bemestar para as pessoas, tornaram-se uma busca desenfreada do enriquecimento fácil, quase exclusivamente para aumento de status na sociedade e em meio aos crentes. Ter uma mansão e um carro dos mais caros é sinal de grande fé, mesmo que, na mesma congregação, existam irmãos que não tenham onde morar ou o que comer.
Para alcançar tais ‘bênçãos’, tornam-se escravos de regras que devem ser cumpridas a risca. Como ‘recompensa’, Deus derramará rios de bênçãos em seu caminho. A oferta, a contribuição, a participação em cultos, neste caso, deixa de ser um gesto de fé, amor e gratidão. Torna-se uma moeda de troca e Deus é reduzido a um mero comerciante de bênçãos.
Jesus nos libertou destas ‘obrigações’! Presenteou-nos, por meio da sua Paixão, com o perdão e a salvação – e isto porque ele nos ama. Só o que nós podemos fazer é compartilhar esta graça com o nosso próximo. Jesus nos torna livres para servir e este é o paradoxo que se apresenta: O amor de Cristo nos liberta e, ao mesmo, tempo nos compromete.
Para refletir, leia 1Coríntios 9.19