Nascido e criado no mundo rural, com forte presença da comunidade de fé em nossas vidas, seguidamente ouvia dos familiares e vizinhos, participantes ativos da Igreja, frases que eram recriadas e atribuídas aos Pastores. Entre as muitas que lembro, destaco uma relacionada às pessoas que não participavam da vida comunitária e que vinham trazer suas crianças para serem batizadas. Naqueles casos, a frase voltava a circular ‘coitada desta criança, ela foi marcada como um bicho. Agora, só voltam para a Confirmação’.
A idéia de marcar vinha dos campos de cima da serra, onde os donos de gado marcavam a ferro em brasa seus animais, já que não havia cercas dividindo as propriedades. No tempo da venda do gado para os frigoríficos, o fazendeiro mandava os peões reunirem o gado por marca. Hoje, não é mais assim naqueles lugares. O gado é acompanhado para tratamento, pois o sistema de saúde e de exportação não engole qualquer carne.
Por outro lado, os Agricultores da minha região de infância entendiam o ato do Batismo da criança como um momento de marcá-la com uma cruz na testa. Isto era corretamente interpretado como propriedade de Jesus. Agora, aquela criança está com a marca de Jesus, a quem ela pertence e de quem virá todo o cuidado. Na sua testa está a marca invisível de Jesus, que se expressa na participaçãoda vida de fé e na prática da cidadania na sociedade. Em razão desta experiência da infância, criei o hábito de, ao lavar o rosto após levantar de manhã, passar água na testa para lembrar que fui batizado.
Com a lembrança desta experiência, reporto-me a uma discussão que vai tomar corpo em nosso País, a exemplo do que ocorreu recentemente na França. Lá, depois de dez anos de discussão, uma alta comissão de pessoas estudadas propôs ao Ministério da Educação retirar todos os símbolos religiosos das escolas públicasmas não só. Também as crianças e jovens não podem entrar no espaço escolar com símbolos ou marcas de suas tradições religiosas. Uma moça muçulmana, por exemplo, não pode entrar com vestimentas que a identificam com sua tradição religiosa.
***Em espaços públicos, não deveriam existir símbolos de religião***
Contudo, podem entrar com as marcas de tênis e roupas de grandes empresas. Certamente, podem ingerir refrigerantes com marcas das grandes empresas, como Pepsi, Coca-Cola, entre outras. Enfim, as pessoas e os prédios públicos precisam ser limpos de todos estes símbolos que lembram as tradições religiosas.
Há poucos dias, uma Juíza paulista de uma Vara Federal determinou que os símbolos religiosos, como crucifixos, podem permanecer numa repartição pública. Ela não via na sua permanência uma agressão à liberdade de crenças e ao fato de que o Estado é laico. Uma pessoa havia entrado no Ministério Público com o pedido de supressão dos símbolos religiosos naquele espaço.
Pessoalmente, penso que, em espaços públicos, não deveriam existir símbolos de nenhuma religião, a não ser aqueles que as pessoas trazem junto a si, como manifestação pessoal de uma pertença religiosa ou de outra natureza.
Entretanto, as pessoas cristãs podem atuar nos espaços, públicos ou privados, com a admoestação de Paulo (Gálatas 5.6) sobre a polêmica em torno da circuncisão como marca de pertença a um determinado povo de Deus. Em Cristo, estas marcas não têm valor, mas a fé agindo em amor. Esta é uma das grandes marcas de Jesus em nossos corpos, que todo mundo vê e ninguém pode proibir.
P. Dr. Oneide Bobsin
Pastor da IECLB e Reitor da Faculdades EST