“Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes; e convertei-vos ao Senhor vosso Deus, porque ele é misericordioso e compassivo. ” Joel 2.13
A Quaresma é um tempo especial, de preparação, para a vida cristã. Um convite para desacelerar, refletir, arrepender-se e aproximar-se mais de Deus. São 40 dias que nos lembram o período em que Jesus esteve no deserto, enfrentando tentações, mas permanecendo fiel ao Pai. Para nos trazer o perdão dos pecados e a Salvação. Mais do que tradições externas, a Quaresma nos chama para uma transformação interior.
No versículo acima, o profeta Joel nos mostra que Deus não deseja apenas gestos religiosos, mas um coração sincero, quebrantado e disposto a mudar. A Quaresma é oportunidade para: reavaliar nossa vida espiritual, abandonar hábitos que nos afastam de Deus, praticar oração, jejum e generosidade e renovar nossa fé na graça de Cristo. Por isso, busquemos primeiro o Reino de Deus e a sua justiça (Mt 6.33). Quando colocamos Deus em primeiro lugar em nossas vidas, tudo encontra seu lugar.
A Quaresma não é um tempo de tristeza, mas de esperança. É o caminho que nos conduz à cruz e além dela à ressurreição. Cada renúncia feita com amor nos aproxima mais de Cristo. Cada oração sincera abre espaço para Deus agir em nós.
Pensamos na Quaresma como um caminho não apenas no calendário, mas na alma. É o tempo em que somos convidados e convidadas a sair do barulho do mundo, dos dias agitados e entrar no deserto do coração, onde encontramos nossas fragilidades, nossas feridas, nossas sombras… e também a presença amorosa de Deus.
Foi no deserto que Jesus Cristo enfrentou a fome, o cansaço e a tentação. E é no deserto interior que nós também descobrimos quem realmente somos diante de Deus. Neste tempo podemos nos perguntar:
- O que precisa ser rasgado, morrer em mim para que Deus viva mais plenamente?
- O que tenho carregado que já não me dá vida?
Nas palavras do profeta Isaías: “Porventura não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, repartas o teu pão com o faminto e não te escondas do teu semelhante?” Is 58.6–7
Percebemos que a verdadeira espiritualidade não está apenas em renunciar alimentos, mas em renunciar ao egoísmo, ao orgulho, à indiferença. O jejum que Deus deseja é o jejum que transforma o coração. Para isso, temos que permitir que Deus toque nossas dores mais profundas — aquelas que escondemos até de nós mesmos e mesmas. Significa reconhecer que precisamos de graça, de perdão, de recomeço. A Quaresma é, portanto, um tempo de morrer… porém, não de desespero. É morrer para aquilo que nos aprisiona, ressuscitar para uma vida nova. Cada oração feita com sinceridade abre espaço para Deus agir.
Cada renúncia feita com amor nos liberta um pouco mais. Cada gesto de compaixão nos torna mais semelhantes a Cristo.
Que neste tempo de Quaresma, Deus possa quebrar em nós tudo o que não vem Dele. Curar nossas feridas escondidas, renovar nossa fé cansada, e acender novamente o amor que se esfriou.
Que Ele nos conduza pelo deserto, mas não nos deixe sozinhos e sozinhas, que caminhe conosco até que experimentemos a alegria da ressurreição.
Diaconisa Carla Abeling
Paróquia Evangélica de Confissão Luterana em Padilha