Ensinar e educar, verbos de significados tão próximos e interligados, mas que querem e precisam ser caracterizados na sua individualidade. Quando desejamos compreendê-los na relação com a nossa confessionalidade, vem à mente, em primeiro lugar, o ato de educar! A justificativa pode ser vinculada à própria origem da palavra: educar vem do latim educare, prefixo ex (fora) mais o ducere (conduzir para fora), buscar de dentro, fazer brotar o que está dentro de cada um e cada uma. Quando, como luteranos, queremos refletir sobre o que é ensinar, precisamos fazer o mesmo exercício que o verbo educar sugere: olhar para dentro de nós mesmos, para a nossa história, os nossos princípios e valores e buscar nos ensinamentos de Martim Lutero, na sabedoria dos nossos antepassados, a inspiração e a fundamentação para o agir, ensinando com responsabilidade, comprometimento e amor.
A experiência ensina que não posso me permitir, no contexto atual, falar em educar e ensinar sem fazer referência ao parceiro de ambos: o aprender. Como sugere a Educadora Alicia Fernandéz, somos sujeitos ensinantes e aprendentes auxiliando uns aos outros na busca por conhecimentos. Ensinamos e aprendemos o tempo todo. O conhecimento nos permite abrir fendas na aparente escuridão pós-moderna, causada pelas incertezas, para, ensinando e aprendendo, educarmos para um mundo melhor mais justo e humano.
Antes de continuar no tecer destes fios de ideias sobre o processo de ensino-aprendizagem e a importância da educação na confessionalidade luterana, torna-se necessário dizer o que meu olhar sobre a temática parte da minha vivência na coordenação pedagógica da Rede Sinodal de Educação (são 56 escolas espalhadas pelo Brasil vinculadas à IECLB). Assim, o meu olhar, fruto de caminhadas pelas escolas da Rede e Comunidades luteranas, é de um aprendente e ensinante, confiante que, como escolas da Rede, temos muito a aprender, mas também a ensinar e a compartilhar.
O nosso olhar luterano, curioso e crítico, nos instiga para que façamos o que sugere o Poeta português Fernando Pessoa O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas olhando para a direita e para a esquerda, e de vez em quando olhando para trás… E o que vejo a cada momento. É aquilo que nunca antes eu tinha visto, e eu sei dar por isso muito bem… Sei ter o pasmo essencial. Educar, hoje, pressupõe uma atitude investigativa por parte dos Professores para que estes contagiem os seus alunos. Passou a época em que Educadores eram detentores das informações. O estímulo, agora, é este de provocar olhares de curiosidade e também de indignação, para que crianças, jovens e adultos busquem a informação e, apropriando-se dela, apliquem na vivência cotidiana. Esse também deveria ser o compromisso da família: olhar nos olhos do filho, acompanhar a sua caminhada, conversar ou, talvez, em certos momentos, só observar, sem deixar jamais de acompanhar com olhar vigilante e sensível os passos do jovem caminhante. Questionar, já nos ensinava Lutero, para poder se posicionar. Gostaria de elucidar que a referida curiosidade acima enfatizada é a curiosidade epistemológica sugerida por Paulo Freire. O desejo de investigação aprofundada, que provém do conhecimento e a ele retorna para expandi-lo e criar significado na relação com as outras pessoas.
Os quatro pilares da educação indicados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) sugerem: aprender a ser, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a conhecer. Pesquisando, percebendo o mundo ao nosso redor, estaremos conhecendo, a cada dia, um pouco mais da nossa realidade e, se nos aproximarmos do outro, teremos a oportunidade de conhecê-lo. Conhecendo o outro, conheceremos um pouco mais de nós mesmos. Como afirma o Filósofo Mártin Buber, Torno-me eu na relação com o outro. Estamos, assim, diante dos outros dois pilares, que prefiro chamar de fios, pois o pilar é estático: fio do aprender a conviver e do aprender a ser. A estes está ligado também o fio do aprender a fazer: ter conhecimento, compartilhá-lo, saber trabalhar em equipe, para, então, saber fazer com competência.
Os cinco eixos da educação do século XXI
– Atitude investigativa: não é uma curiosidade somente pelo novo, mas também, e sempre de novo, pelo antigo. Refletir em conjunto sobre o sentido da Tradição com ‘T’ maiúsculo e da tradição com ‘t’ minúsculo: o que pode ser descartado e por quê? O que deve ser preservado e valorizado na educação dos nossos filhos e por quê? Como fazê-lo?
– Empreendedorismo: a escola é um espaço de formação de lideranças para a nossa comunidade e sociedade. Que líderes desejamos formar? De que forma investimos nesta formação como comunidade luterana? Jovens líderes terão capacidade de, no futuro, abrir novos negócios, ousar, vislumbrar fontes alternativas para a própria sustentabilidade epara a da sociedade.
– Comunicação: comunicar-se implica ouvir o outro. Dialogar! Para defender uma ideia, é preciso saber argumentar! Para argumentar, é preciso ter conhecimentos! Estar em comunhão com as pessoas: com + união! Respeitar-se mutuamente, criando vínculos que dão sentido para a vida dos sujeitos.
– Trabalho em equipe: no mundo globalizado, lida-se com pessoas de outras culturas, nacionalidades, mas também, diariamente, convive-se com pessoas que estão ao nosso lado. Talvez este seja o segredo: com+viver com o próximo, cultivando gestos simples e puros, como olhar nos olhos. Pelos olhos, conectar-se e, assim, estando conectado com o próximo, conectar-se como equipe com o mundo!
Tudo isso levará, com muita naturalidade, de gente para gente, à vivência da paz, da esperança e do amor, Tema da IECLB para 2011. Isso tudo é ensino! Isso tudo é educação: tão simples na grande complexidade!