A indiferença é tal que o imenso e ruidoso rio vai sendo silenciado, transformando-se em um imenso lago de águas silenciosas, assim como a sociedade que não mais contesta nem se inquieta, tampouco indignase. A cumplicidade da quietude nos torna todos responsáveis pelo que irá acontecer com o Rio Uruguai.
O rio que corre livre por seu leito vai sendo totalmente domado por paredes de cimento, tirando a sua beleza selvagem, transformando-o em um lago extenso e uniforme. Já há nele sete paredões de cimento que o aprisionam para a produção de energia. Estão projetadas mais três barragens. Duas na região noroeste do Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina. As barragens de Garabi e Panambi são projetos binacionais e pretendem inundar 98 mil hectares de terra, incluindo parques nacionais e terras produtivas.
Será que a liberdade do rio não vale mais do que vê-lo transformado em mercadoria aprisionada e privatizada por uma demente vontade de lucro? Há necessidade de nos manifestarmos movidos pela graça de Deus, afirmando que a natureza não está à venda!
Hoje, o Rio Uruguai oferece democraticamente os seus espaços de lazer, as suas praias mansas às margens da sua imensidão de água. As barragens serão o fim do rito de décadas de lazer de um grande número de famílias que buscavam a tranquilidade deste espaço às margens do Rio Uruguai.
Vamos querer um gigante adormecido, de águas turvas e malcheirosas, sepultando riquezas milenares que compõem a riqueza da fauna e flora do rio? Há indiferença e desdém em relação às árvores, às bromélias, aos peixes e animais dos mais diversos tamanhos e espécies. Querem ver o progresso, a modernidade invadir esses buracos e cafundós, mas que modelo de modernidade é essa que ainda não aprendeu a conviver com o meio ambiente e a respeitar os recursos naturais?
É mais fácil lavar as mãos, como Pilatos, ou vender o rio por algumas moedas, como o fez Judas com Jesus. Vamos reagir e gritar contra o martírio desnecessário deste rio. Portanto, não vou me calar, pois, assim como os meus filhos tiveram o prazer de conhecer e se divertir nesse rio, também o devem ter as gerações futuras. Assim como ele é, deve ser e permanecer: livre e vivo!
P. Renato Küntzer
Voluntário do Movimento de Atingidos por Barragens
Paróquia de Três de Maio/RS
Sínodo Noroeste Riograndense