A família catarinense formada por Ademar, Veranise e Eduardo Gäedke, membros da Comunidade Evangélica de Videira, pertencente à Paróquia Evangélica de Rio das Antas, ganhou um novo membro em 2006, o menino João Artur Gäedke (na foto com o mano Dudu), nascido no dia 11 de setembro de 2005, hoje com 2 anos e 11 meses, um filho do coração ou, como diz a lei, adotivo, fruto do amor de duas pessoas pela missão da paternidade. Nesse Dia dos Pais, prestamos a nossa homenagem a todos os pais ‘de coração’ dos seus filhos do coração (biológicos e adotivos), da esperança, da experiência, da coragem, mas principalmente do amor incondicional, com a entrevista muito especial feita com o paizão Ademar Gäedke. Um Feliz Dia dos Pais!
Como surgiu a idéia da adoção?
Para mim, sempre existiu. Pensava que poderia ser pai de muitos filhos, mas este desejo se consolidou depois que participamos de um programa municipal de acolhimento de crianças com problemas de saúde ou negligênciaEm 2003, após uma perda dolorosa e que ainda traz saudades, ajudamos a estruturar o CASA. Temos um filho biológico com 21 anos, Eduardo, e ficamos tentando outro filho por mais de 11 anos. A razão principal da decisão por adotar foi o nosso desejo de sermos pais de mais filhos.
Adotar é complicado, mesmo com tantas crianças abandonadas?
Não é complicado. O problema está no perfil da criança a ser adotada, pois mais de 80% dos interessados desejam crianças recém-nascidas e brancas. Muitas vezes, há um recém-nascido, mas este faz parte de um grupo de irmãos, que devem, preferencialmente, ser adotados juntos. No entanto, não há diferença que não seja superada, pois é no amor que a relação vai sendo construída. Nós tivemos experiências anteriores que nos deram a condição especial de assumir este desafio.
Como foi receber a notícia sobre a possibilidade da adoção?
Para nós, a notícia foi por telefone e causou surpresa, pois pensávamos que já estava demorando demais. Mais surpresos ficamos quando soubemos que era um menino, na época com 1 ano e 9 meses, uma vez que havíamos colocado em nosso perfil de adoção uma menina entre 2 e 4 anos. Tivemos 18 horas para definir se iríamos adotar ou não. Nosso sim foi na hora limite estipulada. Nunca o tínhamos visto e vieram as perguntas: como será que ele é? Qual será o seu jeito? Será que gostará de nós? Assim aguardamos até o conhecermos no dia seguinte.
Houve dificuldade de adaptação?
As dificuldades sempre existem, pois não estamos preparados para novas situações que podem trazer incertezas, mas nada melhor que a motivação e o desejo que nos impulsionam. Diferenças e dificuldades geradas pelas experiências negativas que viveu são fatores levados em conta, mas o principal é transformar gestos de violências vividas em momentos de amor e compreensão, o conduzindo por um caminho seguro e independente.
Vocês pretendem contar ao João Artur sobre a adoção?
Na adoção, não escondemos nada. Ainda sendo pequeno, desde cedo exercitamos a aceitação dele, que ele é filho nascido do coração, pois, por meio de uma grávida, explicamos que o Dudu, o irmão, nasceu da barriga e o João Artur, do coração. O ‘contar’ é um momento especial. Nós não antecipamos as informações, pois cada criança tem o seu tempo de fazer as perguntas a respeito. Só contaremos na hora em que ele pedir, respeitando a sua maturação.
Como a família de vocês reagiu à idéia da adoção?
Cada qual reage diferente em relação à adoção. Alguns são totalmente contra ou mesmo dizem que nunca teriam um filho que não o seu próprio. Cuidar dos filhos dos outros? Nunca. Desde o princípio, fizemos uma adoção coletiva: ela foi anunciada para dentro dos grupos, em culto na Comunidade e circulava em conversas nas rodas de amigos, enfim foi pública e como uma gestação que levou 21 meses.
De que forma a paternidade mudou a sua vida?
A paternidade nos aumenta a responsabilidade pela vida de uma pessoa especial. Não é qualquer pessoa. Não o escolhemos para viver conosco, deixamos ‘as coisas de Deus’ conduzirem a vinda do João Artur. Nossa maior decisão foi dizer sim. Queremos, pela graça e
amor de Deus, poder compartilhar com todos a nossa volta às suas maravilhas.
Na Comunidade de Videira, Ademar Gäedke já foi Presidente, Tesoureiro, Vogal e participante de vários grupos. Além de Coordenador Distrital de Culto Infantil, juntamente com a esposa já foi Orientador de Culto Infantil por mais de 12 anos. Na Paróquia de Rio das Antas, é o seu atual Presidente. No Sínodo, já foi Delegado ao Concílio pelo Sínodo Norte Catarinense. Atualmente, é 2º Vice-Presidente do Conselho Sinodal e da Assembléia Sinodal e suplente no CI. Na sociedade, é membro do Conselho Municipal de Assistência Social. A esposa, Veranise, é membro do Conselho da Criança e do Adolescente e, juntos, participam do CASA-Centro de Apoio e Serviço à Adoção de Videira.
Adoção: a família construindo relações
Essa é a nossa trajetória familiar: primeiramente, tivemos um filho biológico, que teve problemas no parto, mas lutamos para restabelecer o que fora perdido. Construímos uma rede em que envolvemos médicos, familiares e amigos na permanente estimulação dos cinco sentidos. Nosso maior desafio era sempre estar fazendo exercícios e, principalmente, poder confiar que a nossa parte estava sendo feita e que Deus faria a sua parte. Nunca o tratamos como coitadinho. O resultado: um filho maravilhoso.
Durante 11 anos, tentamos ter outro filho. Como não veio, e com medo de ir direto para a adoção, entramos em um programa
municipal de acolhimento de crianças com problemas. Por sinal, só nós nos inscrevemos neste programa, reflexo do medo que as pessoas têm em relação à questão de se entregar e poder criar vínculos de afeto e amor por outra pessoa e esta não ser sua, mas a quem pertencemos?
Ao recebermos a Andressa, as pessoas se preocupavam conosco em relação ao futuro sofrimento que teríamos quando retornasse à sua família biológica. Todos ficaram resignados e distantes com relação ao nosso desafio, mas não ficamos paralisados e aprendemos muito nestes 14 meses que ela viveu conosco. Éramos nós que estávamos lá durante os cinco dias preparatórios para a cirurgia cardíaca e o seu desencadeamento: a perda. Ganhamos muito da Andressa, amando-a, e uma das principais lições que aprendemos: a descoberta que tínhamos amor o suficiente para poder sermos pais de mais um filho.
Temos bons exemplos de amigos que adotaram e, em 2005, entramos com o pedido de inscrição no cadastro estadual de adoção, o que se concretizou em 2006. Foram mais 14 meses de espera até a ligação informando sobre a possibilidade de adoção.
Também ajudamos a formar um grupo de apoio à adoção, fundamental no apoio aos casais que querem adotar, pois é nele que encontramos espaço de discussão: espera, chegada, crescimento, adoção tardia e entre irmãos, além do apoio prestado por uma equipe municipal de Psicólogos e Assistentes Sociais que podem auxiliar na condução da adoção e sustentabilidade física e emocional. É um espaço terapêutico no qual a nossa IECLB abre espaço.
Ter filhos biológicos ou adotivos pode ser uma alegria ou uma tristeza. Só o futuro dirá. Independentemente disso, os filhos serão atingidos pelos valores e conceitos culturais de socialização aos quais estão expostos e sujeitos ao que nós ofereceremos a eles: amor. Quando adotamos, não estamos fazendo um favor, estamos, sim, construindo relações.
Ademar e Veranise Gäedke