Fui convidado, como estrangeiro, para comentar sobre a semana da Pátria e a independência do Brasil a partir das minhas pesquisas sobre as igrejas e a cidadania neste país. Sinto-me honrado com o convite, mas também um pouco constrangido em falar sobre uma pátria que não é a minha, embora venha sendo minha querida e apreciada residência desde 2001. Ofereço estas reflexões no espírito de partilhar a vida deste nobre povo e contribuir para com seu bem-estar.
A independência do Brasil criou, em 1822, não uma república, mas um império. Neste, ainda que restrito pela constituição, o ‘poder moderador’ do imperador concentrava considerável poder em suas mãos, inclusive sobre assuntos religiosos. A Igreja Católica, continuava sendo ‘a Religião do Império’. A novidade foi que outras ‘religiões’ foram ‘permitidas com seu culto doméstico ou particular em casas para isso destinadas’, desde que não apresentem ‘forma alguma exterior de Templo’ (Art. 5). Isto abriu as portas para a imigração de estrangeiros evangélicos e logo foram fundadas igrejas em Nova Friburgo/RJ e São Leopoldo/RS com grupos de imigrantes alemães e suíços. Enquanto o culto destes era lícito, demorou a conquista plena da cidadania e iberdade religiosa. Não tiveram onde enterrar, de forma legítima, seus mortos, e não foram reconhecidos seus Batismos (o único registro civil na época!) nem matrimônios.
Somente com a chegada da república, em 1889, fruto do liberalismo (católico e evangélico) e do positivismo (Ordem e Progresso!), a liberdade religiosa se deu de forma plena, proibindo a ‘subvenção oficial’ de qualquer igreja ou culto. Foram secularizados os cemitérios e o ensino público e foi introduzido o casamento civil. Isto não significa que teria havido, de
fato, total igualdade entre igrejas e religiões. Pelo contrário, a partir da sua separação do Estado, sendo liberada da tutela deste, a Igreja Católica conseguiu organizar-se de tal forma que surgiu como grande e influente força na chamada Neo-Cristandade das primeiras décadas do século XX. Continuou a luta pela cidadania das igrejas evangélicas, inclusive daquela que seria a IECLB.
Uma outra luta pela cidadania deu-se depois da crescente germanização das igrejas imigrantes, no último terço do século XIX até a II Guerra Mundial. Aquela que já fora considerada a ‘Igreja dos Alemães’ assumiu ela mesma esta identidade. Com a Guerra, esta auto-afirmação desmoronou e cedeu lugar a uma nova busca de identidade, de uma cidadania agora explicitamente brasileira.
Educação Moral e Cívica como tipo de religião A partir do Concílio Geral, realizado em Curitiba, em 1970, a IECLB também assumiu uma terceira luta pela cidadania, não apenas dela mesmo, mas de todos. Defendeu os direitos humanos e a não ingerência do Estado (na época, o governo militar promovia a patriótica) em assuntos e práticas da igreja. Seguiu-se uma gama de posicionamentos públicos, em geral cautelosos, mas ainda assim ousados diante da repressão política.
A IECLB, Igreja de pequenos Agricultores, defendeu a justa distribuição da terra, os direitos dos povos indígenas a terra, os direitos das mulheres e dos negros à plena cidadania, entre outros. Desde que a democracia voltou, em 1985, vem orientando seus membros para um voto consciente. Não no sentido de fazer política partidária nos púlpitos ou recomendar um partido específico para ser votado. Empenhou-se, isto sim, em insistir no voto consciente e criterioso do povo luterano. Afirmou, por exemplo, que o regime democrático [é] merecedor de compromisso especial por parte dos cristãos em nossos dias, pois oferece as melhores chances de corrigir as distorções sociais e de superar a injustiça. Valoriza o cidadão e simultaneamente o responsabiliza. E ainda vai priorizar a ética, opondo-se à corrupção, ao crime, ao fisiologismo… (Carta Pastoral de 1989).
O povo luterano tem experiência no voto consciente e participativo em seu próprio meio: desde que chegou ao Brasil, vem praticando um jeito democrático de ser comunidade cristã. Cabe exercer este jeito também no âmbito público, c
obrando o cumprimento de princípios éticos por parte dos políticos, na hora do voto e além. Os luteranos, com sua experiência histórica e tradição teológica, têm importante contribuição a dar para a luta pela cidadania de todos. Não há postura mais patriótica do que esta.
P. Dr. Rudolf von Sinner nasceu em 1967, em Basiléia, Suíça, é Doutor em Teologia pela Universidade de Basiléia e foi ordenado na Igreja Reformada em 1994. Em 2001, mudou-se para o Brasil, trabalhando na Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), em Salvador/BA. Desde 2003, atua como Professor de Teologia Sistemática, Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso na Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Foi acolhido no Ministério Pastoral da IECLB em 2004 e integra o Grupo Assessor de Ecumenismo da Presidência da Igreja. Seu último livro foi publicado pela Editora Sinodal, em 2007, sob o título ’Confiança e convivência: reflexões éticas e ecumênicas’.