Advento é tempo de gestação, expectativa e acolhimento. Esperar alguém querido requer cuidadosa e alegre preparação. Este é o clima que perpassa todo o tempo de Advento, criando em nós uma atitude permanente de espera e crença, por isso Advento é tempo de celebrar a alegria da Boa Nova que já se fez humana em Jesus Cristo. Neste Advento, somos convidados a fazer a experiência de fé vivida pelos pastores de ovelhas que estavam nos campos trabalhando (Lucas 2.8-16). Para isso, destacamos quatro momentos da experiência dos pastores até o encontro com o menino Jesus e convidamos quatro Pastoras para comentá-los: Pa. Dione Carla Baldus, Pós-graduada em Psicologia e Aconselhamento Pastoral e atuante na Paróquia Evangélica deConfissão Luterana de Vila Nova, em Toledo/PR, Pa. Marli Lutz, Mestre na área bíblica com ênfase no Antigo Testamento, com exercício do pastorado em Cacoal/RO, no Espírito Santo, em Assis/SP e, atualmente, em Marques de Souza/RS, Pa. Margarete Emma Engelbrecht, que trabalhou na Paróquia de Barranco, em São Lourenço do Sul/RS, na Paróquia de Nova Petrópolis/RS, foi Coordenadora do abrigo para crianças e adolescentes Casa-Mãe, em Canela/RS e, desde 2005, é Pastora na Paróquia Esperança, com sede em Niterói/RJ, e Pa. Ms. Regene Lamb, Pastora na Paróquia Evangélica de Confissão Luterana em Cachoeira do Sul/RS e Assessora do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI).
A luz de Deus vem a nós
Pastora Dione Carla Baldus
Quando o nascimento de Jesus foi anunciado aos pastores que estavam no campo trabalhando, eles prontamente ouviram o convite e foram conhecer o Salvador, que acabara de nascer na estrebaria. Esse convite foi precedido de uma luz, segundo o texto bíblico a luz gloriosa do Senhor brilhou sobre os pastores.
O curioso é que foi sobre os trabalhadores simples, considerados, na época, ignorantes, sujos e indisciplinados, que a luz divina brilhou, ou seja, são as pessoas simples, que têm ouvidos para ouvir, que não se prendem às coisas do mundo como desculpa, que estão prontas para atender o chamado e dar testemunho, que percebem e reconhecem a luz divina sobre as suas vidas e são imensamente gratas por isto.
A luz que veio sobre os pastores naquela noite especial é a mesma que brilha sobre a sua vida. É a mesma que quer iluminar o seu caminho e conduzir você para uma vida de alegria plena, de comprometimento com o bem, de vivência comunitária e de dedicação e amor às pessoas e a toda a criação de Deus.
Para que isso aconteça, é preciso ter confiança total em Deus e fortalecer, a cada amanhecer, a fé em Jesus Cristo. É preciso se alegrar com as coisas simples do dia-a-dia que nos preenchem o coração e nos dão sabedoria de vida. É preciso buscar enriquecer os nossos relacionamentos familiares e sociais. Isso é Advento. Isso é refletir a luz gloriosa do Senhor pelo mundo afora. Isso é compartilhar a alegria do Advento e do Natal!
Para refletir, leia Lucas 2.8-9a
Deus nos liberta do medo
Pastora Marli Lutz
A história do primeiro Natal revela algo fascinante: a palavra de Deus se concretiza nas coisas simples. A vida de gente pobre e marginalizada é o espaço em que a Palavra vai tomando forma e se misturando as dores e medos. Não para confirmar o sofrimento como parte da natureza da humanidade, mas para superá-lo! Libertar do medo! Esta é a tônica do anúncio do anjo aos pastores.
É revelado que a presença de Jesus no mundo faz vencer o medo. Desautorizao. Mais tarde, Jesus confirma esta proposição. Não temais os que matam o corpo (Mateus 10.28). Esta terá sido a mais intensa motivação de Maria, que sofreu todo tipo de preconceito devido à sua condição de engravidar fora do casamento, mas enfrentou a situação de marginalização social e religiosa com tenacidade. De onde, sozinha, teria ‘arrancado’ tanta coragem e fé para vencer o medo?
Os pastores precisam encontrar a criança e a sua mãe. Há uma prova que a identifica: ela encontra-se envolvida em panos. Um singelo, mas profundo gesto de acolhimento. Ternura e solidariedade que manifestam a busca de vida com dignidade. É esse o jeito de Deus estar no mundo.
É, de fato, um jeito surpreendente de Deus abrir caminho neste mundo. São os oprimidos que se agrupam em torno da criança. Que ensaiam os primeiros passos da comunidade cristã, rompendo com os mecanismos sociais que promovem o medo e reconstruindo a vida com dignidade. Um significativo gesto para ser celebrado também neste Natal.
Para refletir, leia Lucas 2.9b-12
Deus transforma o medo em louvor
Pastora Margarete Emma Engelbrecht
Os anjos que louvaram a Deus na noite de Natal nos falam das alturas e da terra. Entoam hinos de louvor: louvor une as vozes que se tornam tão forte parecendo um exército. Entoam hinos de louvor: louvor testemunha paz na terra a partir da vida de Deus que se faz criança.
Por onde ando, escuto louvores: vitórias individuais proclamadas como graça de Deus, pessoas em busca de segurança e não de justiça, louvores a outros deuses fortes e poderosos.
Atos religiosos incentivam o zelo individual (esmolas e atos caritativos) por indivíduos (‘do bem’), afirmam que há salvação nos pequenos gestos e legitimam as diferenças existentes na sociedade.
É um louvor que traz medo: das tristezas mal resolvidas, da ausência que dispersa as pessoas e motiva à individualização. É um louvor que traz culpa: desviamos de pedintes, empobrecidos e doentes sem recursos.
O louvor dos anjos neste Advento anuncia o caminho para a glória de Deus no céu, para a paz na terra. O ‘exército de anjos’ rompeu a noite de medo com anúncio de paz. Não matou ninguém, nem assegurou vitória financeira, não feriu, nem estragou, não cobrou e sequer obrigou pastores a cantarem com eles.
Seguir o louvor move à participação da paz: alegria verdadeira e justiça palpável. Que a glória seja a Deus e não a nenhuma de suas criaturas.
Para refletir, leia Lucas 2.13-14
Colocar-se a caminho… em direção
Pastora Regene Lamb
Depois de ver a luz gloriosa, ouvir o canto dos anjos e a mensagem de conforto, os pastores põem-se a caminho para saber o que aconteceu. Certamente, deixam seus rebanhos para trás, expostos a todo tipo de risco. A notícia vale a pena.
O anúncio os tocou profundamente e fez brotar a vontade de colocar-se a caminho. As pessoas foram percebidas em sua situação de medo e foi-lhes falado ao coração. Sua história e suas esperanças de um novo tempo foram mencionadas, por isso não há mais questionamentos a fazer e nem tempo a perder. É hora de colocar-se a caminho apressadamente para ver o que foi anunciado e participar desta grande alegria: o nascimento do Messias.
Parece que a pressa já tomou conta das pessoas desde o primeiro Natal. Só que a nossa pressa, hoje, é muito diferente daquela dos pastores, pois a nossa urgência é para comprar todos os presentes desejados, para terminar todas as tarefas previstas para este ano. Natal se tornou festa impregnada de consumismo.
Na ânsia de fazer uma festa perfeita, corremos o risco de perder de vista os sinais que impulsionam para ver os acontecimentos. O brilho das luzes é tanto que ficamos ofuscados e deixamos de perceber as pessoas que aguardam a Boa Nova na periferia do mundo. Ao invés de nos deixarmos contagiar pela Boa Nova, que anuncia paz na terra e renovarmos as forças para os novos caminhos com mais sensibilidade para a realidade de quem nos cerca, gastamos as nossas energias com o supérfluo.
Para refletir, leia Lucas 2.15-16