Quem de nós já não disse, em algum momento, que está estressado? Usar esse termo já virou senso comum e habita o nosso cotidiano. Quando as pessoas se encontram, não raramente a tônica da conversa tende a ser a sobrecarga de trabalho, a correria do dia a dia, a falta de tempo e, por consequência, o estresse.
O estresse se manifesta por meio de alguns sintomas, como fadiga, agitação, insônia, dor no peito, taquicardia e problemas gastrointestinais. É uma reação do nosso organismo frente às diversas situações com as quais nos deparamos e que requerem adaptação e mudança, sendo percebidas como ameaças ao nosso equilíbrio. Alguns estereótipos, contudo, estão associados a esse conceito.
Um desses estereótipos é a nossa tendência a vincular o estresse aos tempos de hoje, por conta das pressões e urgências que vivenciamos. Não é difícil, porém, imaginar que, desde os tempos mais primitivos, o ser humano sempre esteve exposto a mudanças e ameaças e, por consequência, sujeito ao estresse. A luta, literalmente, pela sobrevivência, o enfrentamento de predadores e o desbravamento dos territórios demandaram esforços significativos dos nossos ancestrais. É coerente, portanto, considerarmos que o estresse não é, de forma alguma, ‘privilégio’ dos nossos tempos.
Outro risco é generalizar e confundir o estresse com sentimentos e emoções que fazem parte do nosso cotidiano e que se constituem parcelas importantes do nosso repertório de respostas usuais. Podemos estar cansados, tristes, irritados, frustrados… e, muitas vezes, dizemos que estamos estressados. As situações do cotidiano naturalmente despertam frustrações, preocupações ou até raiva e isso não signifi ca necessariamente que se trate de estresse.
O estereótipo mais comum – e também menos verdadeiro – é o de associarmos o estresse a algo negativo, ruim. Na verdade, nem sempre ele é o vilão da história. O estresse nos coloca em ação, nos prepara para emitir respostas alinhadas com as demandas apresentadas. Pesquisadores do tema ressaltam que é impossível viver sem estresse. Do ponto de vista fisiológico, o estresse nos coloca em alerta, aguça os nossos sentidos e nos deixa mais ágeis; condições essas essenciais para resolver problemas importantes, tomar decisões ou enfrentar dificuldades.
Não podemos esquecer que também os eventos positivos, como uma promoção no trabalho, viagens ou relacionamentos amorosos, por exemplo, estão associadas a mudanças que, de uma ou de outra forma, nos tiram da zona de conforto. Essas circunstâncias geram desequilíbrio, o que pode se traduzir em estresse. Podemos até nos arriscar a dizer que, se tais eventos não mobilizam certo nível de estresse, é por que não são assim tão significativos.
Obviamente, para ser considerado positivo, o estresse deve manter-se em um nível adequado, em uma condição que possa ser gerenciado. Quando a pressão é constante ou muito intensa, exigindo um esforço além do razoável para manter o equilíbrio, passa a ser um elemento negativo e adoecedor, que requer cuidado especial.
São quatro as fases do estresse: a primeira é a fase do alerta, quando nos preparamos para a ação e estamos mais atentos, motivados, mais fortes e prontos para responder às exigências do ambiente. A segunda é a fase de resistência, em que o nosso corpo tenta recuperar o equilíbrio resistindo aos estressores. Nessa fase, a produtividade começa a cair e nos tornamos mais vulneráveis. A terceira é a fase da quase-exaustão, na qual as resistências já não são mais efi cientes, as defesas imunológicas estão baixas e precisamos de muito esforço para manter um mínimo de equilíbrio. A última fase do estresse é a exaustão, quando os sintomas do estresse já se manifestam de forma a provocar o adoecimento. Normalmente, quando chegamos a essa fase, precisamos de ajuda especializada e tratamento dos sintomas.
Devemos, ainda, levar em conta as nossas singularidades. Aquilo que estressa a uma pessoa pode ser motivador, estimulante ou indiferente para outras. Os limites e a capacidade de superação de cada indivíduo estão associados à sua história, às suas necessidades e à sua constituição. Estudos apontam alguns eventos como potencialmente mais estressores do que outros. Mesmo assim, as particularidades de cada sujeito, a sua capacidade para enfrentar as situações e as suas motivações são fatores decisivos para definir quanto e o que é tensionante.
O autoconhecimento é fundamental para lidar com o estresse
O autoconhecimento é a nossa principal ferramenta para lidar com o estresse. Na medida em que reconhecemos os nossos limites e as nossas potencialidades, temos maiores chances de enfrentar as situações estressantes de forma mais ajustada e saudável.
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Precisamos aprender a gerenciar o estresse |
Devemos também destinar atenção para identificar o que nos estressa para, na medida do possível, evitar as situações que geram maior tensão. Aspectos como violência urbana, trânsito congestionado, ambiente competitivo no trabalho, conflitos familiares, doenças e perdas de pessoas próximas fazem parte da nossa vida e muitos desses fatores escapam do nosso controle, pois nem sempre conseguimos ter gerenciamento sobre o contexto. Por outro lado, podemos e devemos buscar formas de ampliar a nossa capacidade de enfrentar as situações mais complexas e o autoconhecimento é um recurso legítimo nesse processo.

É importante ressaltar que não basta reconhecer as nossas potencialidades e limitações e acomodar-se frente a essas descobertas. Embora seja um processo difícil, às vezes doloroso e que pode requerer ajuda externa, investir em mudanças de comportamento que possam contribuir para evitar ou aliviar o estresse é mais do que recomendado.
Para aproveitar aquilo que o estresse pode nos oferecer de positivo, precisamos aprender a gerenciá-lo. É bom saber que, frente às situações que nos desequilibram, o nosso corpo reage como se estivesse se preparando para uma batalha: aguça os sentidos, libera nutrientes, direciona maior quantidade de sangue para o cérebro e para os músculos. As demandas atuais, contudo, nem sempre requerem todo esse arsenal! É como se dispuséssemos de recursos para enfrentar predadores – como nossos ancestrais estavam, mas temos apenas que enfrentar o trânsito congestionado que nos impede de chegar a tempo para atender os nossos compromissos mais importantes.

Psicóloga Leila Klin, especialista em Psicologia Organizacional e em Comportamento Organizacional. Atua como Assessora em empresas e instituições, com ênfase em avaliação e desenvolvimento de pessoas. Na IECLB, assessora a Secretaria Geral, a Secretaria da Habilitação ao Ministério e a Secretaria do Ministério com Ordenação