Na manhã do dia 28/08, o 35º Concílio ouviu a palestra “Quando as águas mudam: Igreja em missão em tempos de travessia“, conduzida pela jovem Dra. Carine Josiéle Wendland. Confira abaixo um resumo da palestra e, no fim da página, assista ao vídeo com a palestra na íntegra.
Logo de início, Carine apontou para a necessidade de olhar as partes difíceis da história da missão da Igreja. Durante séculos, a missão cristã aconteceu em meio à conquista de territórios, à imposição de culturas e linguagens, à destruição de formas de vida.
Houve quem chegasse às terras da América Latina perguntando se os povos originários tinham alma. Mas talvez exista uma pergunta ainda mais necessária: o que aconteceu com a nossa própria alma quando deixamos de reconhecer a humanidade daquelas pessoas que já estavam aqui?
Hoje, podemos também também mudar algumas perguntas. Em vez de perguntar “como levar Deus até quem ainda não o conhece?”, por exemplo, poderíamos indagar: “o que precisamos desaprender para reconhecer Deus onde Ele já está?”. Quem chega ao território apenas para ensinar corre o risco de não perceber que também veio para aprender. Quem chega apenas para levar respostas não consegue ouvir as perguntas.
Aprender a escutar as águas
A sabedoria dos povos originários ensina que não é somente a terra que é mãe. A água também participa deste mistério. E por isso precisamos reaprender a olhar para um rio. Um rio não é simplesmente um recurso hídrico. Um rio é memória, território, caminho, encontro, ancestralidade.
Nós costumamos desenhar o Brasil pelas fronteiras. A água desenha outro Brasil. O rio não conhece os limites do mapa. A geografia, a língua, a história mudam, mas a água continua insistindo em atravessar aquilo que nós transformamos em fronteira. Se queremos falar de cuidado da Criação, precisamos aprender a escutar a água.
Neste momento, a Dra. Carine conduziu a comunidade conciliar através de imagens de diferentes águas: de nascentes, riachos, rios, lagos e do mar. As imagens foram feitas pelas pessoas que trouxeram recipientes com água para uma dinâmica do Concílio. Este momento de visualizar as diferentes águas foi um momento de refletir sobre a diversidade e os desafios da Igreja.
Mudanças climáticas e ecocídio
Quem acredita em mudanças climáticas? A resposta a esta pergunta depende de diferentes fatores e compreensões. Entretanto, ela não suprime uma constatação: as mudanças climáticas já estão aqui. E elas são consequências da ação humana.
No contexto da reflexão sobre mudanças climáticas, a palavra “ecocídio” está entrando cada vez mais no debate público e até jurídico. Ela nomeia formas graves de destruição dos sistemas que sustentam a vida. E isso nos leva a pensar em Apocalipse 7.3: “Não danifiquem nem a terra, nem o mar, nem as árvores”.
“Não danifiquem!” é um imperativo, um limite e uma responsabilidade que precisa estar no horizonte de uma Igreja que deseja anunciar o Evangelho em 2026.
As águas estão mudando
Em 2024, a temperatura média global esteve aproximadamente 1,55°C acima da média de 1850–1900, segundo a Organização Meteorológica Mundial. A água está registrando o aumento de temperatura. O oceano está aquecendo. O nível do mar continua subindo. Eventos extremos estão produzindo impactos cada vez mais graves.
Dizer que as águas estão mudando significa reconhecer que mudam os regimes de chuva, os rios, as paisagens. E quando as águas mudam, a vida muda junto. Sabemos o que significa uma água que chega rápido demais, uma água que leva embora uma casa, uma escola, uma igreja, uma plantação, uma fotografia, uma memória.
E o que a igreja tem a ver com isso?
Tudo! Se a missão da IECLB é anunciar e viver o Evangelho, promovendo amor, justiça e paz, então o cuidado da criação é uma pauta relacionada à própria missão da Igreja. Neste sentido, a reflexão e a ação no âmbito das mudanças climáticas têm tudo a ver com a igreja cristã, especialmente com a IECLB.
A palestrante lembrou que não existe uma única “água” da IECLB. Existem muitas águas! Podemos dizer que somos uma rede de águas. A partir disto, ela conduziu uma significativa dinâmica com fios de diferentes tons de água. Nesta dinâmica, pequenos grupos construíram redes representam a atividade do barco da IELCB.
É tempo de travessia
Estamos em tempo de travessia. Que Igreja precisamos ser neste tempo? Que Igreja precisamos ser para anunciar o Evangelho num mundo que está mudando tão rapidamente? E que Igreja precisamos ser para territórios ameaçados? Para pessoas que perderam suas casas? Para os povos originários ou quem cuida da terra? Que Igreja precisamos ser diante da emergência climática? Que Igreja precisamos ser para que a paz esteja entre nós?
Assista ao vídeo da palestra na íntegra: