Desde a infância, fiz treinamento para a maternidade com bonecas, casinhas e comidinhas. Na adolescência, fui Babá e Acompanhante de crianças. Ainda hoje, ouvimos que as mulheres são criadas para a maternidade e, no Dia das Mães, falam no ‘dom natural’ para as várias atribuições que recaem sobre as mães, mas é uma questão de treinamento! O Magistério foi a minha formação do Ensino Médio. Ali, aprendi as diversas teorias pedagógicas. A vida na comunidade cristã foi me conduzindo à Teologia como formação de Ensino Superior.
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| Mãe: Pa. Margarete com a filha, Luiza, e o filho, João Elias |
Comecei no Pastorado em uma Comunidade – com pouca idade e desconhecimento de contextos diferentes daqueles onde eu havia crescido. A nossa vida familiar enfrentou a perda de uma gestação, a morte de um filho por meningite, o nascimento da Luiza pequenininha demais, o nascimento prematuro do João Elias e o divórcio. É comum afirmar que não há dor maior para uma mãe que a perda de um filho. Como não foi inventado um medidor para dor, o melhor é respeitar a dor de outras pessoas e aceitar que cada um sente a sua dor. Percebo o quanto a salvação em Jesus Cristo entrou na minha vida: Deus se faz gente, é solidário a quem sofre e enfrentou Ele mesmo o sofrimento para mostrar que há superação, há vida sem dor e sem mágoa na ressurreição. Se Deus nos acolhe, Ele é forte (fortão!) para carregar a nossa raiva, as nossas tristezas e as nossas dores. Veio a certeza que a família precisa ser encarada como um outro trabalho, já que a responsabilidade permanece ali, sempre, sem dia de folga e com organização específica.
A Paróquia em que eu atuava sinalizou que o meu tempo findara. Luiza verbalizava tristezas, João Elias pedia atenção em meio ao muito a fazer. Era necessária a busca por outro emprego. A única certeza era a garantia da continuidade do trabalho materno. Iniciei a coordenação de um abrigo para crianças e adolescentes em vulnerabilidade social. Às vezes, 25 crianças dependiam da minha organização. O meu lado maternal percebeu os seus limites.
Contar com pessoas solidárias é uma ferramenta para os imprevistos. Eles sempre existem, mas devemos planejar entrada e saída da escola, quem acompanha às programações, quem faz as compras para o dia a dia, quem zela pelo material escolar, quem conversa sobre sonhos, pesadelos, problemas de convivência e luto. Para isso, penso, é impossível ‘terceirizar’.
A mistura da atividade pastoral com a vida familiar é alvo de receitas prontas para conciliar trabalhos diferentes (casa pastoralxfamília/famíliaxParóquia). Percebo a minha maternagem na Igreja e sei que nem sempre é saudável. Percebo o meu profissionalismo na vida doméstica e recebo a crítica negativa.
Sei que não sou diferente de uma grande parte de mulheres que, profissionais e mães, buscam conciliar as duas realidades. Já presenciei efeitos da total ‘terceirização’ da educação: valores e práticas diferentes do que o pai e a mãe pensam. Desconfio que, em vez de feminilizarmos o mundo (fazendo o cuidado ser maior), masculinizamos as nossas famílias (profissionais devem manter-se à distância dos problemas domésticos).
Há muito tempo, desisti do exercício de dona de casa sem mácula e sem erro. Assumo dificuldades, peço ajuda, demonstro cansaço. A minha geração tentou a partilha de tarefas entre mulheres e homens, mas o cotidiano é mais do que nos ensinam as teorias e vejo muita cobrança e julgamento entre nós. Culpamos os outros por conta de um sistema de vida que aliena e absorve as pessoas em um projeto que só contempla reconhecimento, sucesso e glória.
Claro que convivo com questionamentos sobre estar com a família quando alguém da Paróquia me chama ou sobre ter um compromisso eclesiástico quando alguém da família teve febre. Exige uma organização maior, sim, mas
nos propicia o gosto de estarmos cumprindo o chamado de Deus, exercendo os nossos dons e nos alegrando sobremaneira com a vida que Deus nos dá.
Tanto no Pastorado quanto na maternidade, há frustrações e tristezas. Não exijo de mim a perfeição. Consigo rir dos meus erros e dos meus acertos. Sou justa pela graça de Deus e pecadora por minha própria ação: é isso que diz a confissão luterana – e é bom demais celebrar isso a cada dia entre os que amamos.
Pa. Margarete Emma Engelbrecht, graduada em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/ RS, atua na Paróquia
Niterói Esperança/RJ |