P. Prof. Claus Martin Dreher, graduado pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS Atua no Centro de Ensino Médio Pastor Dohms, pertencente à Rede Sinodal de Educação (IECLB), em Porto Alegre/RS
Bíblia – Referência da verdade
Lutero afirma que a essência da fé cristã se encontra no texto compreensível do Novo Testamento: a vida de Cristo esteve centrada na sua pregação a respeito do perdão incondicional de Deus de todos os pecados. Após a sua crucifi cação e ressurreição, o próprio Cristo se torna sujeito da pregação dos apóstolos sobre o Messias, por meio do qual a salvação de Deus se transforma em realidade histórica para todos. Essa verdade foi fixada pelos apóstolos na Bíblia. Para eles, Jesus é a verdade (Jo 14.6s). Quem segue Jesus sabe o que é a verdade.
Cristãos, contudo, sempre são confrontados com verdades e, não raro, ficam confusos. Exemplo disso é quando são questionados quanto à origem do universo e às teorias sobre o seu surgimento. No século XIX, as teorias para explicar essa verdade provocaram confusões nos meios cristãos, levando alguns a abandonarem a fé. Outras vezes, alguém encontra um versículo na Bíblia e esse passa a ser ‘a’ verdade.
Lutero nos legou uma certeza maravilhosa para eliminar as confusões e as ‘verdades’ que nos são colocadas no caminho, muitas vezes em nome de Jesus. Segundo ele, a Bíblia é uma manjedoura, na qual Jesus está deitado. Se, ao lermos a Bíblia, não o encontrarmos, só temos palha, mesmo que os textos que estejamos lendo tenham sido escritos por Paulo, Pedro ou João. Bíblia tem que ser lida a partir de Jesus Cristo, a verdade, e então encontramos nela a verdade, Jesus Cristo.
A verdade é fidelidade e perseverança naquil que Jesus ensinou e ao que podemos dizer: Amém. Tornar-se cristão é chegar ao conhecimento da verdade. Verdade é que o amor de Deus dá a sua vida por nós (1Tm 2.4). Essa verdade é plena (Hb 10.26 e Tt 1.1). Essa verdade produz frutos (Cl 1.6). Ela dá vida e conduta agradável a Deus (2Pe 1.3), a verdade que nos foi revelada em Jesus.
Essa verdade do amor incondicional de Deus nos dá liberdade, liberta-nos de medo, morte, pecado. João nos afirma que no amor não existe medo (1Jo 4.18). Quem sabe do amor incondicional de Deus, ama. Cristãos vivem na casa do amor de Deus. Quando abrem os olhos e se descobrem nessa casa, a morte já não tem a última palavra, mas a vida. O Filho que Deus deu por amor ao mundo (Jo 3.16) nos dá a certeza de que a morte não tem a última palavra. A última palavra é vida. A verdade que Deus nos mostrou em Jesus Cristo lança luz sobre tudo o que nos quer afastar de Deus, liberta-nos do nosso umbigo, do pecado e leva-nos ao encontro do próximo.
Se vocês continuarem a obedecer aos meus ensinamentos, serão, de fato, meus discípulos e conhecerão a verdade, e a verdade os libertará (Jo 8.31s).
Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém pode chegar até o Pai a não ser por mim. Agora que vocês me conhecem, conhecerão também o meu Pai (Jo 14.6s).
“Se dizemos que não temos pecados, estamos nos enganando, e não há verdade em nós. No entanto, se confessarmos os nossos pecados a Deus, ele cumprirá a sua promessa e fará o que é correto: ele perdoará os nossos pecados e nos limpará de toda maldade” (1João 1.8s).
Para refletir, leia 1João 1.8s

P. Joel Schlemper, graduado pela Faculdade Luterana de Teologia (FLT), em São Bento do Sul/SC, exerceu o Ministério Pastoral na Paróquia de Dona Emma/SC. Atua na Paróquia de Barreiros, em São José/SC
Bíblia – Referência para a vida
Quando pensamos em uma referência segura para a vida, não podemos deixar de olhar para Jesus Cristo, a Palavra encarnada de Deus (Jo 1.1ss). É para Ele que o Antigo Testamento aponta, com as suas histórias, poesias e profecias, e também o Novo Testamento, com os seus relatos e com as suas orientações da nascente Igreja Cristã.
Por que um seguidor de Cristo lê a Bíblia como baliza e modelo para sua vida? Tentaremos apontar caminhos a partir de dois textos do livro de Apocalipse.
Em Apocalipse 20.12-15, Jesus dá ao apóstolo uma visão do grande julgamento no final dos tempos. Nela, João vê uma multidão em pé diante do trono: grandes e pequenos, ou seja, ninguém escapa deste julgamento. Então, livros são abertos e todos são julgados de acordo com o que tinham feito, segundo o que estava registrado nos livros.
Esta analogia indica que tudo o que o ser humano fez na sua vida está registrado e será usado na sua avaliação eterna. Esta afi rmação gera a inquietante pergunta: Quem pode escapar se o julgamento invocará todas nossas ações? Se, ao tropeçarmos em um pecado, somos culpados de todos, como declarou Tiago (Tg 2.10), quem será declarado inocente? A conclusão é sombria: sendo julgados de acordo com a nossa história registrada nos livros, estaremos condenados.
O livro de Apocalipse não para ali, não se reporta apenas à analogia dos livros, mas menciona também outro livro, o livro da vida. No capítulo 21.21, o anjo lembra João de que este é o livro da vida do Cordeiro, ou seja, o livro da vida de Jesus. Quem tiver o seu nome escrito neste livro, não será julgado segundo o que os livros registram do seu passado, mas segundo a história de Jesus, que o substitui no julgamento.
Esta é a poderosa mensagem da graça que redime a humanidade. Deus, em seu Filho, Jesus, veio a este mundo para substituir a desgraçada história da humanidade pela sua própria história, proporcionando à humanidade a possibilidade de uma nova vida baseada na história de vida do seu fi lho, Jesus. A humanidade pode retomar o rumo para a qual fora criada e Jesus, a Palavra encarnada, torna-se o redentor e o modelo de vida para aquele que nele crê.

O que isto tem a ver com a ‘Bíblia ser a referência para a vida’? Lutero ensinou que a Bíblia sempre quer apontar para Jesus, a perfeita Palavra de Deus. Se, pela graça de Deus, podemos substituir as nossas falhas pelos acertos de Jesus, então a história de vida de Jesus passa a ser também a nossa história, a nossa referência de vida. Ter Jesus como referência de vida nos leva à dupla constatação: primeiro, nos lembra da nossa fragilidade pecaminosa e, de contínuo, nos adverte a não confiarmos em nós mesmos, mas em Jesus somente. Segundo, desafia a nos revestirmos de Cristo (Ef 4.24) e nos tornarmos sempre mais parecidos com ele. As suas virtudes passam a ser nossas.
Concluímos que também na ética a Bíblia torna-se a nossa referência de vida, nos compromete com o próximo e com a justiça social e nos chama ao cuidado com a Criação de Deus.
Para refletir, leia João 1.1ss