Servir a Deus é motivo de gratidão e alegria. Isto se percebe no testemunho daquelas pessoas que se envolvem em ações comunitárias, missionárias e em cargos de liderança na Igreja. No entanto, no dia a dia das Comunidades, temos a impressão que essa é uma alegria de poucas.
De maneira geral, o que se constata é que ‘são sempre as mesmas pessoas’ que estão em tudo. São sempre as mesmas no Presbitério, na realização dos almoços, na acolhida e organização dos Cultos, nas ações diaconais, etc. Tal realidade termina sobrecarregando as lideranças e, não poucas vezes, gerando um sentimento de desânimo e, até mesmo, murmúrio.
Quando olhamos para a história do povo de Israel e para a vida das primeiras Comunidades Cristãs, percebemos que esse assunto não é estranho. Em Números 11, por exemplo, vemos um povo ‘reclamão’ e um líder solitário e exausto. Ao mesmo tempo, vemos um Deus solidário e capacitador. A solução foi delegar tarefas. Moisés abre mão de toda a responsabilidade e Deus compartilha o seu Espírito com mais 70 pessoas. Já no Novo Testamento, vemos inúmeros textos falando sobre a multiforme graça de Deus. Esta é distribuída na vida das pessoas cristãs de maneira a promover o Sacerdócio Geral com a sua diversidade de serviços e ações a partir dos dons do Espírito Santo.
Aqui, talvez, paire uma pergunta: Por que, então, são sempre as mesmas pessoas? Uma resposta simples seria: porque poucas pessoas estão interessadas em ajudar. Sempre foi assim!
De certa forma, tal resposta nos conforta e nos mantém firmemente envolvidos ‘e envolvidas até a cabeça’ em atividades na Igreja e em cargos de lideranças. Entretanto, para que essa realidade não se torne uma característica marcante das nossas Comunidades, é preciso elencar novas perguntas:
– Tenho disposição para delegar a minha tarefa a outra pessoa da Comunidade?
– Tenho disposição para ‘largar o osso’ pelo bem comum?
– É possível reavaliar as consolidadas ações comunitárias a fim de não sobrecarregar as mesmas pessoas, abrindo assim, espaço para novas iniciativas e pessoas?
– As atividades da Comunidade valorizam e surgem a partir dos dons dos seus membros ou estes precisam enterrar os seus dons para se adaptar a atividades preestabelecidas, até mesmo no modo de execução?
Creio que esse assunto não se esgota respondendo estas perguntas. Da mesma forma, estas respostas não podem ignorar a história, muito menos comprometer a confessionalidade de 500 anos da nossa Igreja e da Fé Luterana. Contudo, elas podem contribuir não só para uma conscientização e valorização do que já fazemos ‘sendo as mesmas pessoas’, mas também para abrir novos horizontes no que se refere à vida em Comunidade e à diversidade de dons e serviços que Deus nos dá em potencial.
Ser ‘sempre as mesmas pessoas’ não é bom para a vida da Igreja, mas que bom que ‘estas mesmas pessoas’ estão sempre lá!
Para refletir, leia Número 11.11-15
P. Marcus David Ziemann | Ministro na Paróquia no Vale do Paraíba/SP
Ministérios diferentes, mas Corpo de Cristo
A tarefa de divulgar e viver o Evangelho é atribuição de todas as pessoas crentes. Lutero defende que todas as pessoas batizadas, as crentes, fazem parte de um só Sacerdócio, o Sacerdócio Geral de todas as Pessoas Crentes, e fundamenta a sua argumentação em vários textos bíblicos, entre eles o texto de 1Pedro 2.9: Vocês são a raça escolhida, os sacerdotes do Rei, a nação completamente dedicada a Deus, o povo que pertence a Ele. Vocês foram escolhidos para anunciar os atos poderosos de Deus, que os chamou da escuridão para a sua maravilhosa luz.
Na argumentação de Lutero, destaca-se que aqueles que vivem em fé são sacerdotes do Corpo de Cristo ali onde vivem, trabalham, celebram. O exercício do Sacerdócio está na prática eclesiástica (Pregação da Palavra e Administração dos Sacramentos), bem como em uma vivência comprometida com os ensinamentos evangélicos.
Para viver este Sacerdócio, existem diferentes Ministérios. Como lembra o apóstolo Paulo em 1Coríntios 12: Existem tipos diferentes de dons espirituais, mas é um só e o mesmo Espírito quem dá esses dons. Existem maneiras diferentes de servir, mas o Senhor que servimos é o mesmo. Pelos diferentes Ministérios não nos tornamos mais ou menos importantes na pregação e vivência do Evangelho. Ministérios com Ordenação ou Leigos, todos estão em um só Corpo. Lutero explica que todas as pessoas cristãs e todos os Ministérios estão em um só ‘estamento espiritual’, ou seja, todos e todas estão em um mesmo degrau, em um mesmo objetivo, ninguém maior ou menor.
Os Ministérios não são confiados à individualidade, mas, sim, à Igreja como um todo, conforme Atos 1.8. Lutero defende: ‘Entretanto, não é lícito que qualquer um faça uso desse poder, a não ser com o consentimento da Comunidade ou por chamado de um superior, porque o que é comum a todos ninguém pode se arrogar individualmente até que seja chamado’.
O Ministério é de Deus, colocado na mão da Comunidade para que o administre e cuide do seu devido desempenho, por isso a Comunidade, por meio de oração e imposição de mãos, delega a Ministros e Ministras, pessoas devidamente preparadas e escolhidas ou aceitas por ela, uma modalidade de servir dentro do Sacerdócio Geral. Como dizia Lutero: ‘O que faço, não o faço por minha autoridade, mas em lugar e em nome de Deus, para que não o consideres de outra maneira do que se o Senhor mesmo o tivesse feito visivelmente’.
O termo Ministério é colocado por Lutero a partir de 1Coríntios 4. Assim, pois, importa que os homens nos considerem como Ministros de Cristo e despenseiros dos Mistérios de Deus. Hoje, na IECLB, temos quatro Ministérios com Ordenação: Catequético, Diaconal, Missionário e Pastoral. Cada Ministério com Ordenação possui ênfase de preparo distinta, mas o Ministério Eclesiástico é um só. Junto com todas as pessoas batizadas, Ministros Ordenados e não Ordenados, Ministras Ordenadas e não Ordenadas, Presbíteros e Presbíteras, membros do corpo de Cristo, servem à Missão de serem testemunhas do amor de Deus, cada qual com o seu dom e ali onde há desafio, com chamado pela fé.
Para refletir, leia 1Pedro 2.5 e 9
P. Me. Carlos Romeu Dege | Ministro na Paróquia em Igrejinha/RS