Provocações podem ajudar a pensar, a arrancar as pessoas do já sabido por todos. Entre muitas provocações, destaco uma que tira o sossego: O Brasil é pentacampeão. Somos o país mais católico, mais espírita e mais pentecostal do mundo. Além disso, somos um país com altos indicies de violência, de corrupção e de pobreza. Não estou sugerindo uma relação imediata entre as práticas religiosas e as nossas contradições sociais, com poucos ricos e muitos pobres. Apenas lanço uma pergunta para mexer com as nossas idéias.
Questão semelhante levou o pesquisador norte- americano Phil Zuckerman a viver um tempo na Suécia e na Dinamarca, onde fez entrevistas com aproximadamente 150 pessoas. Por que estes dois países? Salvo algum exagero de Pesquisadores, são considerados os menos religiosos do mundo. Mesmo assim, possuem os mais altos índices de qualidade de vida e com baixas taxas de criminalidade, fruto de economia justa e políticas bem sucedidas. Sentem- se felizes, conforme pesquisas.
Provocativamente, estamos diante de sociedades de bem-estar social e sem Deus. Para o povo de onde vem Zuckerman, não parece ser possível uma sociedade com altos índices de bem-estar social sem o louvor ao Senhor. Ele também se apressa em dizer que a sua pesquisa não é propaganda a respeito do ateísmo. Ele reconhece o valor da religião na vida das pessoas do seu povo.
Diante de tais realidades como a do Brasil, USA e países como Suécia e Dinamarca, podemos perguntar pela relação entre ter fé em Deus e a situação social, mas também podemos nos perguntar se precisamos das Igrejas e da fé dos fiéis para alcançarmos um país com alto índice de bem-estar social.
A entrevista concedida por Zuckerman ao Instituto Humanitas da Universidade Jesuíta do Vale dos Sinos admite que líderes políticos sem vínculo religioso podem levar povos a níveis altos de qualidade de vida, mas também admite que as idéias de Lutero, ao lado de outros lideres cristãos, podem ter contribuído, numpassado agora esquecido, para o desenvolvimento de uma sociedade com altos padrões de vida, como o da Suécia e da Dinamarca.
***Ausência de práticas religiosas não significa ausência de Deus ***
Outra pergunta não quer calar na entrevista sobre o livro Sociedade sem Deus – O que as nações menos religiosas podem dizer a respeito da satisfação: o desinteresse religioso dos suecos e dinamarqueses pode ser fruto do desinteresse de Igrejas que não se envolveram com as lutas e os processos de busca de bem-estar social para todos? Pode ser.
Se esta suspeita procede, poderíamos encontrar duas repostas distintas, mas relacionadas. Primeiro, as igrejas e os seus fiéis são desnecessários para alcançarmos bons níveis de vida. Segundo, se não nos envolvermos com políticas públicas seremos irrelevantes como Igrejas. Sobraremos.
Contudo, apesar do desinteresse religioso na Suécia e Dinamarca ou das práticas religiosas crescentes em nosso País, Deus é Deus. Se todo mundo decidisse negar a fé, Deus continuaria
a ser Deus. Afinal, Deus não é religioso.
Mesmo que a vida não se restrinja a um estado de bem-estar social, como se apenas de pão pudéssemos viver, podemos reconhecer em altos índices de qualidade de vida digna a presença da vontade de Deus por meio das políticas públicas. Logo, a ausência de práticas religiosas não significa a ausência de Deus. Também a forte presença de práticas religiosas não é garantia da presença de Deus.
Deus se esconde ou se apresenta em seu contrário para que o seu Reino venha. Deus é Deus no Brasil religioso ou na Dinamarca descrente.
P. Dr. Oneide Bobsin
Pastor da IECLB e Reitor da Faculdades EST