Com o título: Igreja em missão, o Evangelho anunciar! Uma missão do jeito de Jesus, o Pastor Dr. Nestor Paulo Friedrich fez uma instigante palestra neste segundo dia do 35º Concílio da Igreja. A palestra teve por base os textos bíblicos de João 20 e Apocalipse 7.
Na introdução, o palestrante acentuou que a paz não é produzida pelos discípulos. É Cristo quem chega e diz: “A paz esteja com vocês.” Neste sentido, a paz é, em primeiro lugar, um dom. Depois disso, ela se torna uma vocação: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20.21).
A paz que Jesus traz é comunitária: paz esteja com vocês! João 20 nos coloca diante da pergunta: Quem é essa comunidade de Cristo? Em que realidade ela se encontra? O que essa comunidade recebe?
Leia um resumo da palestra e assista ao vídeo (no fim da página) com a palestra na íntegra
Maria! A fé que que permanece, escuta e testemunha
Maria chega ao túmulo e encontra a pedra removida. Sua primeira interpretação não é: “Jesus ressuscitou!” Ela pensa que ele foi tirado do túmulo (João 20.2).
Maria permanece ali, mesmo sem compreender. Sua primeira atitude não é a certeza. É a fidelidade de quem não abandona o lugar da dor.
Talvez uma das vocações mais importantes da Igreja seja simplesmente esta: permanecer. Permanecer onde a vida dói.
Maria! Tudo muda quando se chama o nome
Jesus se aproxima, mas Maria não o reconhece. O Ressuscitado pergunta e escuta. E tudo muda quando Jesus pronuncia uma única palavra: “Maria!” (Jo 20.16). Maria reconhece Jesus quando percebe que é reconhecida por ele. Antes de compreender, ela é compreendida!
Talvez uma das tarefas neste tempo em que vivemos seja justamente esta: devolver nomes às pessoas que nossa sociedade transformou em rótulos. E isto aprendemos no Batismo: Deus não acolhe uma categoria, mas nos chama pelo nome.
Maria! A primeira testemunha da ressurreição
Ao ouvir seu nome, Maria responde: “Mestre!” (Jo 20.16). Então Jesus lhe diz: “Vá ter com os meus irmãos e diga-lhes…” (Jo 20.17). Maria vai e sua experiência se transforma em testemunho. A Igreja não pode ignorar a centralidade do testemunho de uma mulher na origem da proclamação da Pascoa.
O medo e as portas fechadas
Maria anunciou: “Vi o Senhor!”, mas esta notícia ainda não abriu as portas. Os discípulos continuam reunidos com as portas trancadas. O medo permanece.
O medo, em si mesmo, não é sinal de falta de fé. Ele pode nos proteger diante do perigo. O problema começa quando o medo deixa de ser uma reação e passa a ser o princípio que organiza a vida.
“Jesus veio e pôs-se no meio” (Jo 20.19). A transformação da comunidade não começa com a abertura das portas. Começa com a presença do Ressuscitado no meio dela. A iniciativa pertence a Cristo.
Uma paz com cicatrizes
Jesus se coloca no meio da comunidade. Mostra as suas cicatrizes. A paz que oferece é a paz de quem atravessou a violência sem reproduzir sua lógica. Com isto Jesus confirma o que já havia dito: “não lhes dou a paz como o mundo a dá” (Jo 14.27).
No mundo romano, a paz era sustentada pelo poder militar e pela submissão dos povos. Jesus oferece outra paz. Não a paz de quem elimina o adversário.
As feridas garantem a continuidade entre o Crucificado e o Ressuscitado. Nem todo discurso poderoso sobre Deus revela o Deus de Jesus Cristo. Para a fé cristã, Deus é reconhecido naquele que foi crucificado.
A cruz é anunciada fielmente quando revela a proximidade de Deus com quem sofre e desmascara os poderes que produzem sofrimento. Quem aprende a reconhecer Cristo pelas feridas começa também a perguntar: Onde a vida está sendo ferida hoje?
O pequeno “assim como”
“Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20.21). Jesus estabelece uma correspondência: o Pai envia o Filho; o Filho envia a comunidade.
A missão de Jesus não define apenas a origem da missão da Igreja. Ela define também a sua forma. Isto é importante porque é possível anunciar o nome de Jesus e contradizer, pelo método, aquele que anunciamos. É possível, por exemplo, falar de graça sem graça, defender a verdade usando a mentira, proclamar liberdade exercendo controle.
Por isso, a pergunta de João 20.21 é desafiadora: estamos anunciando Jesus do jeito de Jesus? A Igreja não é enviada apenas para continuar a missão de Jesus. É enviada para continuar a missão do jeito de Jesus.
Até quando haverá sofrimento?
A pergunta que perpassa o Apocalipse é: Até quando? (Ap 6.10). Até quando haverá sofrimento, perseguição, morte?
João, o autor do Apocalipse, vê a vitória de Deus no Cordeiro ferido (Ap 5.6). O Cordeiro vence sem se tornar fera! Essa imagem conversa com João 20. O Ressuscitado mostra as mãos e o lado. O Cordeiro está em pé, mas continua ferido. A vitória não apaga as marcas da violência sofrida; transforma-as em testemunho.
“Não danifiquem nem a terra, nem o mar, nem as árvores” (Apocalipse 7.3)
O texto de Apocalipse revela que a terra, o mar, as árvores, são fundamentais no horizonte da ação de Deus. A criação não aparece como cenário descartável da salvação humana, ao contrário, ela participa da história da salvação.
O movimento é sempre de Deus em direção à criação. Por isso, a esperança cristã não despreza o mundo presente. Cuidar da criação não é um tema marginal à missão. Ao contrário, é uma expressão concreta do Evangelho.