Fé, criação e Bem Viver: um diálogo com os povos indígenas
O dia 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, nos convida a refletir sobre a presença, a resistência e os saberes dos povos originários. Em diálogo com o Tema do Ano da IECLB 2026 – Cuidar da Criação de Deus –, o Jorev Luterano realizou uma entrevista com a Pastora emérita Dra. Cledes Markus. A partir de sua caminhada junto aos povos indígenas, a Dra. Cledes traz importantes impulsos para repensar nossas relações com a Terra, com as pessoas e com o próprio Criador.
JOREV – Qual é a sua formação e como se deu sua trajetória e vínculo com o trabalho junto aos povos indígenas?
Cledes Markus – Sou graduada em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, e em Antropologia pela Pontifícia Universidad Católica del Perú, em Lima. Realizei mestrado em Educação pela Universidade Regional de Blumenau (FURB) e doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com período de doutorado no exterior em Antropologia no Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social (CIESAS), no México.
Atuei como professora na Universidade do Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (UDESC), em Ibirama, e como docente de Antropologia na Faculdades EST. No Conselho de Missão entre Povos Indígenas (COMIN), trabalhei por 29 anos, com destaque para a coordenação do projeto junto ao povo do leste catarinense e do Programa de Formação do COMIN (PROFORDI), em São Leopoldo/RS.
Também representei o COMIN em espaços indígenas e indigenistas da América Latina, como a Articulación Ecuménica Latinoamericana de Pastoral Indígena (AILAPI), a Articulación Latinoamericana de Saberes Indígenas, o coletivo Teólogas Indígenas em Abya Yala e o Grupo de Estudos e Pesquisas da Temática Indígena da UFRGS (BEABIRU).
No Ministério Pastoral, atuei na Paróquia de Ibirama/SC e, nos últimos quatro anos, na Paróquia de Paverama/RS, onde nasci e resido.
Atualmente, participo como membra do Instituto Histórico de São Leopoldo (IHSL), ocupando a Cadeira 18, com atuação voltada à temática indígena. O Instituto reúne participantes de todo o Rio Grande do Sul e também de outras regiões do Brasil, desenvolvendo pesquisas, publicações e eventos na área da História. No meu caso, com foco na história e cultura indígena.
JOREV – Como surgiu seu interesse e início de caminhada junto aos povos indígenas?
Cledes Markus – Ainda no Ensino Médio, fui motivada por professores do Projeto Rondon, que proporcionava experiências em Terras Indígenas. Desde então, a causa indígena orienta minhas escolhas, inclusive a opção pela Teologia.
Realizei estágio na Terra Indígena Guarita, com povos Kaingang e Guarani, em Tenente Portela/RS, e direcionei meus estudos para o diálogo com seus saberes. Após a formação, recebi uma bolsa da IECLB para estudar Antropologia Indígena na PUC do Peru.
Ao retornar, atuei no segundo pastorado da Paróquia de Ibirama, junto à comunidade luterana e ao povo Xokleng. Posteriormente, o COMIN assumiu o projeto no Leste Catarinense, ampliando a atuação também com os povos Guarani, Kaingang e Cafuzos.
JOREV – Como foi sua convivência com os povos indígenas, especialmente nas lutas por direitos, como a Constituição de 1988?
Cledes Markus – Ela se deu em diferentes níveis, sempre orientada pelo protagonismo, respeito e autodeterminação dos povos indígenas. Com o povo Xokleng (Laklãnõ), foram 19 anos de convivência, construindo confiança e parceria nas causas e no cotidiano, com partilha de saberes, cultura e espiritualidade.
Estivemos juntas e juntos em lutas importantes, como a elaboração da Constituição de 1988, a defesa das Terras Indígenas, indenizações pelos impactos da Barragem Norte/SC e a inclusão da história e cultura indígena na educação. No PROFORDI, o protagonismo indígena também foi central, com participação ativa em cursos e materiais. Durante meu doutorado, a convivência com estudantes indígenas evidenciou os desafios da academia, mas também a força desses povos na valorização de seus conhecimentos.
JOREV – Durante este tempo todo, o que você aprendeu em termos de Cosmovisão dos povos indígenas?
Cledes Markus – O contato com povos indígenas da América Latina, incluindo os do Brasil, marcou minha história, minha Cosmovisão e minha cosmologia. E constato que os saberes que trago a partir deles só vêm reforçar que os saberes bíblicos e os saberes que Jesus ensinou estão em plena sintonia. Os saberes vêm da mesma fonte, que é Deus, o nosso Criador.
Na Cosmovisão indígena, o mundo, a natureza e tudo mais foram criados por Deus. Cada povo tem em sua língua um nome para designar Deus Criador. Os Guarani, por exemplo, o chamam de Nhãnderu. Para esses povos, toda a Criação está interconectada entre si. Toda ela é sujeita de sabedoria, sentimentos e espiritualidade (se foi Deus que fez, Deus está presente em sua obra). E assim existe uma relação de reciprocidade na Criação, onde se aprende, se fazem trocas mútuas e se cuida mutuamente.
Não só o ser humano é considerado inteligente. Entre os Xokleng, por exemplo, há uma planta que cura feridas, que eles dizem ter aprendido com uma mãe macaca. Eles viram essa mãe pegar uma folha da planta e colocar na ferida do filhote e assim aprenderam. Portanto, há um respeito e cuidado muito grande por toda a Criação, pois cada item tem valor e contribui para o todo.
Os povos indígenas têm uma ligação muito íntima com a natureza. A terra é como uma mãe e é chamada de mãe porque alimenta e acolhe filhas e filhos da terra — pessoas, pedras, animais, plantas e tudo o que vive sobre ela. Assim, há um respeito muito grande por toda a Criação.
Nesse contexto, os povos indígenas chamam sua forma de viver de Bem Viver (Bien Vivir), como uma vida em harmonia e equilíbrio com a Natureza, com a Criação e com o Criador. É um paradigma de resistência que visa o bem comunitário, respeitando a Mãe Terra e todas as formas de vida, baseado na convivência em harmonia, em contraposição à competição e à exploração.
JOREV – Quais são hoje os principais desafios que os povos indígenas enfrentam, especialmente em relação à terra e à preservação da vida?
Cledes Markus – Os principais desafios que os povos indígenas encontram em relação às suas terras, por um lado, são a falta de cumprimento da legislação que garante as Terras Indígenas tradicionalmente ocupadas. E, por outro, as invasões por grandes empresas, como mineradoras, agronegócio, barragens e estradas, entre outras.
Isso tem trazido o extermínio de povos, falta de alimentação para essas comunidades, deslocamento para as periferias das grandes cidades, subempregos em fazendas ou outras empresas, erradicação da cultura, da espiritualidade e da integração com a Criação de Deus.
Esses povos, há muitos séculos, têm defendido suas terras não só por suas famílias e povos, mas pela humanidade e pela Criação como um todo. Eles estão cientes dos efeitos e desequilíbrios que os desmatamentos estão causando e ainda podem causar.
Por isso, também têm consciência de que precisam e têm a missão de Deus de contribuir com a Criação, alertando sobre esses desequilíbrios, extinções e mortes.
JOREV – De que forma a espiritualidade indígena pode inspirar a IECLB na vivência da fé e no cuidado com a Criação?
Cledes Markus – Um dos papéis da Igreja é reconhecer, aprender e difundir os saberes dos povos indígenas sobre a Criação de Deus, que acabam sendo os mesmos saberes bíblicos e que vão nos ajudar a cuidar deste planeta. Esse reconhecimento é vital também para acabar com o preconceito contra esses povos.
A Igreja também pode apoiar e se manifestar publicamente em favor da justa legislação que reconhece como Terras Indígenas as terras tradicionalmente ocupadas por eles, além de denunciar os abusos e invasões.
A espiritualidade indígena inspira a Igreja no cuidado da Terra. Na espiritualidade e na Cosmovisão indígena, a Terra e toda a Criação têm saberes, sentimentos e espiritualidade, pois tudo é obra de Deus. Por isso, é necessário zelar por essa Criação.
Nesse sentido, há uma forte sintonia com o Tema do Ano da IECLB – Cuidar da Criação de Deus – e o Lema – Deus viu que tudo era muito bom (Gênesis 1.31) –, que nos convidam a reconhecer o valor da Criação e a assumir, com responsabilidade, o cuidado com toda forma de vida.
Na espiritualidade indígena, a gratidão pelo Criador e pela Criação é praticada em gestos de cuidado. A reciprocidade também é central: as pessoas cuidam da Terra, assim como a Terra cuida das pessoas e de todos os seres.
E, por fim, a contemplação: observar a lua e as estrelas, sentir o vento, escutar os sons da natureza e, em tudo isso, refletir profundamente. Isso gera paz e presença diante do Criador.