Tão perto e, ainda assim, tão longe! Esta é uma frase popular
que pode explicar o comportamento dos seres humanos diante
daquilo que é ofertado, mas subtraído. Pode nos ajudar a entender
também os nossos desejos aguçados na sociedade capitalista de
consumo e as suas possíveis frustrações.
O ditado está associado a Tântalo, da Mitologia Grega. Tântalo
serviu o seu filho Pélope como alimento no jantar dos deuses do
Olimpo. Como castigo, Tântalo foi jogado em um lago com água
até o peito. Quando se inclinava para matar a sede, as águas baixavam.
Assim, vivia sedento dentro da água. Sob a sua cabeça, estavam
belas frutas para saciar a fome, mas, quando se levantava para
colhê-las, o vento levantava as árvores… eternamente.
É compreensível, mas inaceitável, que não seja levantada como
uma das causas da violência simbólica ou física a mercantilização
dos desejos, especialmente dos jovens e das jovens da periferia.
Já se tornou proverbial e banal a morte de alguém por causa de
um tênis de marca. Em um trabalho em grupo com adolescentes
pobres, a Orientadora perguntou o que queriam ser. Dois adolescentes
responderam ‘ladrões’. Para eles, era o caminho para conseguir
o que a sociedade ofertava, mas subtraia. Isto é, aguçava o
desejo, mas não permitia a sua realização. Tão perto… tão longe.
Em uma pesquisa científica sobre gravidez na adolescência,
realizada entre meninas pobres, a pergunta do Médico pesquisa dor era: ‘Por que engravidaste tão cedo?’. Sem titubear, uma das
meninas respondeu: ‘Quero deixar a minha marca no mundo. As
meninas com mais recursos têm roupas de marca’. Em outras palavras,
a menina precisa encontrar um sentido na vida – sem as marcas
usadas por suas colegas e que lhe são subtraídas.
Em contatos com as escolas da periferia de São Leopoldo/RS,
percebe-se que se está perdendo uma parte dos jovens para as
drogas e para o crime. Sabemos que, nestes contextos, a escola
precisa resgatar vidas e ensinar e o faz com muito esforço, sendo
um lugar de resgate de vidas, mas há uma parcela que nem a escola
nem outras instituições alcançam. Isto pode ser fatal.
Diante desta realidade, lembro um Teólogo que costumava
analisar a realidade consumista, na qual se compra o que não é
necessário: a nossa sociedade compartilha os sonhos, mas subtrai
para a maioria os meios de realizá-los. A maioria lida razoavelmente
bem com as sedes e as fomes de Tântalo produzidas por nossa
sociedade, mas se há de perguntar: A educação escolarizada e as
famílias não estão perdendo jovens e adolescentes para o tráfico e
outras ofertas que os ‘tantaliza’? Tão longe… tão perto.
Deus em Jesus tornou-se uma fonte sempre próxima, mesmo
quando dele estamos longe. Como disse o profeta: Por acaso sou
Deus apenas de perto e não Deus de longe? (Jr 23.23). Tântalo
não conheceu este Deus que se dá de comer e beber na Ceia.