Vivemos tempos de grande liberdade de expressão. É possível falar sobre muitos assuntos. Alguns são amenos. Outros geram debate e, por vezes, suscitam alteração nos ânimos.
A tecnologia, por sua vez, oferece novas possibilidades de comunicação, com praticidade e conforto. Aplicativos facilitam a comunicação e Redes Sociais ampliam o âmbito da conversa. Aí o bixo pega! É fácil destruir laços de amizades ou criar inimizades pela maneira como são feitas as discussões. Nas Redes Sociais, não é nada difícil expressar o que pensa, julgar e… condenar! Como não vemos a face da outra pessoa, não há constrangimento…
Enquanto pessoas cristãs, devemos nos perguntar: Como poderíamos lidar com as Redes Sociais? Qual é o limite da nossa liberdade? Em que medida as Escrituras e a perspectiva da nossa confessionalidade poderiam nos ajudar?
Ao falarmos sobre liberdade, logo vem à mente o escrito de Lutero Da liberdade Cristã, que diz ‘Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém. Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos’.
Inspirado nessa ideia de liberdade, o Pastor Dietrich Bonhoeffer pode nos ajudar. Ele diz que, da mesma maneira como Cristo está por nós, também devemos estar a favor do outro. Não há vida de fé verdadeira se ela não me mover em direção ao próximo. Fé se desdobra no amor prático.
Queremos a fé, mas difícil é vivermos a fé na prática do amor, confessemos! Isso porque somos seres contraditórios. Bonhoeffer, em seu livro Ética, explica que a realidade do pecado teve consequências diretas e decisivas na nossa forma de nos relacionarmos, o que influencia a nossa forma de comunicação. Para ele, com a realidade do pecado o ser humano se desconectou de si mesmo (vive em busca de autojustificação), do outro (relações por interesse), e de Deus (relação com Deus por meio de obras). Vivemos voltados a nós mesmos!
Deus, pela fé, que nos insere nas dádivas da obra de Cristo, pelo agir do Espírito Santo, por meio da sua Palavra, nos desafia a voltarmos ao projeto relacional que Deus instituiu em sua Criação. Isso significa viver a liberdade de expressão, mas sempre em responsabilidade e serviço de amor pela vida do outro, que é meu próximo.
Em ‘temas quentes’, podemos agir de duas formas: (a) como pessoas que se importam e querem conversar ou (b) como pessoas que só querem descarregar as suas ‘verdades’, cheias de julgamentos e condenações. Jesus Cristo nos incita a ouvir, interrogar, conversar, contar histórias para explicar o ponto de vista que defendemos. Em perspectiva está o amor que Deus tem pela vida da outra pessoa como também tem pela minha.
O desafio que permanece é o de praticarmos o discernimento nos perguntando: A minha forma de me comunicar sobre determinado assunto nas Redes Sociais edifica a vida das outras pessoas? É feita na perspectiva da fé que me desafia a amar? Traz sinais de paz, esperança e salvação?
Que Deus nos dê sabedoria!
Para refletir, leia 1Coríntios 9.19
P. Me. Wilhelm Sell | Ministro na Paróquia de Palhoça/SC
Não dirás falso testemunho!
Li uma história de um jovem discípulo que, desapontado com seu mestre, levantou diversos falsos testemunhos contra ele, causando-lhe grandes problemas. Anos depois, ao saber que o velho mestre encontrava-se muito doente, quase à morte, este jovem, arrependido, foi até o mestre para lhe suplicar perdão, dizendo que faria qualquer coisa para consertar o seu erro.
O velho mestre, gentilmente, disse que aceitaria o seu pedido de desculpas, mas solicitou uma última tarefa ao jovem discípulo, dizendo que ele deveria pegar um saco cheio de penas e soltá-las do topo do edifício mais alto da cidade. Quando isso foi feito, o jovem voltou ao mestre, que olhou para ele e disse: ‘Agora vá e recolha cada uma dessas penas e traga até mim’. O jovem exclamou: ‘Isso é impossível!’. Então, o velho mestre, como uma última lição, lhe disse: ‘Da mesma forma que é impossível recolher as penas, é impossível que uma palavra proferida seja recolhida’.
Esta história ilustra bem a realidade de uma conversa inconveniente na família ou na Comunidade. Palavras que são proferidas sem pensar podem ser nocivas e abalar os relacionamentos. Deus se preocupa muito com as palavras que saem da nossa boca, por isso nos deu o Oitavo Manda mento: Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
O Catecismo Maior de Lutero, por exemplo, traz a seguinte explicação a respeito do Oitavo Mandamento: ‘Além do nosso próprio corpo, o nosso cônjuge e os bens materiais, possuímos um tesouro de que não podemos nos desfazer: a honra e a boa fama. Como seria possível viver em sociedade desonrado publicamente e sofrendo o desprezo de todos? Portanto, o desejo de Deus é que não tiremos do próximo a sua boa fama e a justiça’. No Catecismo Menor, a explicação que Martim Lutero dá sobre o oitavo mandamento é: ‘Devemos temer e amar a Deus e, por isso, não enganar o nosso próximo com falsidade, trai-lo, caluniá-lo ou fazer acusação falsa contra ele, mas devemos desculpá-lo, falar bem dele e interpretar tudo da melhor maneira’.
Boatos, fofocas e conversas infrutíferas que visam a prejudicar a reputação do próximo são formas de quebrar o Oitavo Mandamento e desrespeitar a Palavra de Deus. A Escritura alerta: Irmãos, não faleis mal uns dos outros (Tg 4.11) e Não caluniem a ninguém, sejam pacíficos e amáveis e mostrem sempre verdadeira mansidão para com todas as pessoas (Tt 3.2). Temos a responsabilidade de pensar muito bem na hora de escolher as nossas palavras: Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem (Ef 4.29).
Falar a verdade como um hábito e interpretar tudo da melhor maneira são sinais de que realmente Cristo nos salvou e o seu Espírito habita em nós, pois ele é a própria Verdade. Tiago recomenda que o cristão seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar (Tg 1.19). Ouvir bem, ser cauteloso ao falar e não se irar facilmente são três atitudes para se cumprir o Oitavo Mandamento e promover a paz na Comunidade e na sociedade.
Para refletir, leia Tiago 3.1-12
P. Valdeci Foester | Ministro na Paróquia em Santa Maria de Jetibá/ES