P. Sigfrid Baade, formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, exerceu o Ministério Pastoral na Paróquia de Rio Bonito, em Joinville/SC, e na Paróquia Blumenau-Fortaleza, em Blumenau/SC. Pastor Vice-Sinodal do Sínodo Vale do Itajaí, atua como Assessor de Formação de Comunidades no Sínodo
A graça que sustenta e renova
Impulsionado pelo Tema da IECLB para 2016, Pela graça de Deus, livres para cuidar, estive pensando, nestes últimos tempos, sobre a vida a partir da ótica da graça e da liberdade. Tentei imaginar como era a vida de alguns personagens antes de conhecer a graça e o amor de Deus. Tentei colocarme no lugar de Zaqueu (Lc 19.1-10), homem realizado profissionalmente e rico, mas desprezado e discriminado pela sociedade, considerado impuro e indigno aos olhos da religião e, por isso, vivia só, recluso no seu cantinho, com a sua fortuna, triste e insatisfeito.
Também imaginei a vida do filho pródigo, que abandona a casa do seu pai com todas as regalias para seguir o seu próprio caminho e destino. Como ele deve ter se sentido quando se deu conta da besteira que havia feito, deixando para trás as regalias e as bênçãos oferecidas e que estavam à disposição dele gratuitamente na casa paterna? O turbilhão de pensamentos, planos e desejos de voltar, mas… também o medo, o receio, a vergonha de apresentar-se diante do pai, de pedir abrigo, aceitação… A reação do pai, da família, dos amigos…
Sabemos que tradições, costumes e leis são importantes, porque dão certa ordem e direção à vida, mas, com muita facilidade, também se tornam meios de rotular, enclausurar e aprisionar. Todo aquele que não se enquadra nos parâmetros estabelecidos está fora, é excluído, por isso Zaqueu era considerado um não digno. É por isso que o filho pródigo sabia que não tinha mais o ‘direito de ser filho’.
Martim Lutero sentiu o mesmo receio de ser considerado um não digno por Deus, pois não conseguia ser tão ‘puro e impecável’ como deveria ser aos olhos de Deus. Viu-se escravizado pelo medo de Deus. Isso fez dele escravo de penitências e ritos de purificação.
Deus agiu e interveio de forma bem concreta na história. Ele não é apenas o criador, que, após a criação, fica distante, apático, olhando tudo de longe. Em Jesus Cristo, Deus ‘desce’ ao mundo. Jesus traz uma nova ótica à vida, libertando-a da lei e revelando a graça e o amor de Deus.
Sob a lei, não há lugar para todas as pessoas. Alguns não merecem, não fazem por merecer. No entanto, sob a graça de Deus, as pessoas são resgatadas e recebem uma nova condição: tornam-se filhas e, como filhas, sabem-se aceitas, amadas e cuidadas por Deus, até mesmo quando não merecem.
Por causa dessa graça e desse amor de Deus que Jesus foi e manteve comunhão com Zaqueu, que o filho pródigo foi recebido de volta na casa do pai, não como escravo ou empregado, mas, sim, novamente na condição de filho. Foi a compreensão libertadora dessa graça e do amor de Deus que livrou Lutero do medo de Deus e o motivou a tornar conhecida a redescoberta do Evangelho.
Quando do nosso Batismo, recebemos graça e amor, mesmo sem mérito, dignidade ou compreensão da nossa parte. Compete-nos, agora, viver e portar-nos como filhos e filhas que têm compromissos, que sabem comprometer-se de livre e espontânea vontade para servir, para dar, para fazer a vontade de Deus como resposta de amor e gratidão.
Para refletir, leia Lucas 19.1-10 e 15.11-32

P. Luis Henrique Sievers, formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Pastor Vice-Sinodal do Sínodo Vale do Taquari, exerce o Ministério Pastoral na Comunidade em Lajeado/RS, com Pastorado Escolar parcial no Colégio Sinodal Gustavo Adolfo, no mesmo município
Um ‘antes’ e um ‘depois’ de Cristo
O Evangelho de Cristo, quando acolhido com fé, altera o roteiro de vida da pessoa, pois estabelece um ‘antes’ e um ‘depois’, mudando a visão de mundo e de valores. Pela graça de Deus e a ação do Espírito Santo, somos levados a experimentar um novo nascimento.
Nicodemos, fariseu e líder astuto, teve dificuldades de entender esse processo. Quando visitou Jesus, ouviu dele as seguintes palavras: ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo (Jo 3.3). Nicodemos retrucou, dizendo que já era muito velho e que ninguém volta para a barriga da mãe para nascer novamente. Jesus, no entanto, não falava em nascimento natural, mas em nascimento de natureza espiritual (Jo 3.6). A pessoa, transformada, andando em novidade de vida, novos valores, novos princípios e, portanto, nova conduta. Tão diferente que nem parece mais a mesma.
A pergunta de Nicodemos ecoa ainda hoje: Como pode ser isso? (Jo 3.9) O apóstolo Paulo expressa esse morrer do velho e nascer do novo da seguinte maneira: Quem está unido com Cristo é uma nova pessoa; acabouse o que era velho, e já chegou o que é novo (2Co 5.17). Tudo isso é feito por Deus…, escreve o apóstolo. É graça. Não há motivo para vangloriar-se.
Duas atitudes são importantes: arrependimento e conversão. Falando para o povo reunido no Templo de Jerusalém, Pedro reconhece que as pessoas fazem coisas ruins sem saber, como entregar Jesus para ser morto. Nada disso, no entanto, impede que elas possam ‘nascer de novo’ e faz o convite: Portanto, arrependam-se e voltem (convertam-se) para Deus, a fim de que ele perdoe os pecados de vocês (At 3.19). Ele mesmo, Pedro, havia negado Jesus por três vezes, antes do cantar do galo. Tornouse, porém, um importante líder cristão da primeira hora.
O que é o ‘velho’, segundo o apóstolo Paulo? É a ‘natureza humana’ afastada de Deus e escravizada pelos pecados decorrentes dessa postura (Rm 6.12). Em termos bíblicos, é possível identificar os resultados disso. O velho produz: a imoralidade sexual, a impureza, as ações indecentes, a adoração de ídolos, as feitiçarias, as inimizades, as brigas, as ciumeiras, os acessos de raiva, a ambição egoísta, a desunião, as divisões, as invejas, as bebedeiras, as farras e outras coisas parecidas (Gl 5.19-21). Quem está unido a Cristo abandona essas práticas e assume nova postura.
O ‘novo’ é o ser humano liberto, trazido da morte para a vida, completamente entregue a Deus para fazer o que é direito (Rm 6.13). Os frutos do ser humano novo são: o amor, a alegria, a paz, a paciência, a delicadeza, a bondade, a fidelidade, a humildade e o domínio próprio (Gl 5.22-23). Esses são sinais da presença do Espírito Santo de Deus na vida da pessoa unida com Cristo, pela fé.
O próprio apóstolo Paulo passou por uma transformação na sua vida. Deixou de perseguir cristãos e se tornou um dos maiores propagadores do Evangelho (At 9). A sua vida é um exemplo de ‘antes’ e ‘depois’ de Jesus Cristo: Pela graça de Deus sou o que sou, e a graça que Ele me deu não ficou sem resultados (1Co 15.10a).
Somente pela graça de Deus somos salvos do velho ser humano e feitos cidadãos do seu Reino. Agora, livres, podemos cuidar melhor de toda a Criação de Deus, inclusive de nós mesmos
Para refletir, leia Romanos 12.1-3