Na adolescência, tive o privilégio de ouvir Érico Veríssimo. Diante de uma pergunta capciosa da plateia, ele deu uma resposta que não esqueci: ‘O brasileiro não responde sim ou não. Ele prefere dizer depende!’ Diante do tema proposto pelo Jornal Evangélico Luterano, me sinto tentado a adotar o caminho sugerido pelo grande Escritor gaúcho. Não para esquivar-me de uma resposta simples e clara, mas porque o assunto é complexo e multifacetado. Ilustro isto com dois exemplos.
Eu tinha 11 anos, quando, em 1961, o meu pai se tornou docente na Faculdade de Teologia em São Leopoldo/ RS. Morávamos ao lado da escola e lembro bem como dois Professores dominavam o cenário intelectual da Faculdade: um arregimentava alunos para seguir a Rudolf Bultmann. O outro, com menos sucesso, para a trilha de Karl Barth. Eu não entendia dos assuntos em debate, mas percebia que o estudo da Teologia pode dividir e levar pessoas a degladiarem-se em trincheiras opostas. É óbvio que ninguém ia para as vias de fato, pois as armas eram filosófi cas e teológicas, mas as farpas bastavam para evidenciar a desunião.
No ano passado, uma senhora já idosa veio do Ceará visitar a sua filha, que estuda Teologia na FATEV, em Curitiba/PR. Católica fervorosa, ela nunca se conformara com o fato da sua filha chegar à fé na Igreja luterana. Em uma tarde, perguntou a ela sobre o livro que estava lendo. A filha respondeu: ‘É o livro ‘Jesus – do Batismo no Jordão à transfi guração’, escrito pelo Papa Bento XVI’. A mãe não pôde acreditar: ‘Você ficou evangélica e está lendo um livro do nosso Papa?’. ‘Sim, mãe! O livro é dele’. ‘Por que você o lê?’, insistiu a mãe. ‘Porque é um bom livro sobre Jesus e o Professor o recomendou’, explicou a filha. Então, tarde após tarde, a mãe pediu à fi lha para compartilhar o que havia lido. Chegou a pedir que lesse trechos, a fi m de certifi car-se do que a filha dizia. Esta comentaria feliz na sala de aula: ‘Encontrei o livro para evangelizar a minha mãe!’.
Destes dois episódios, podemos depreender que o estudo da Teologia pode separar como pode unir! Tudo depende de quem enfocamos nesse estudo. Na conversa da estudante com a sua mãe, o foco estava na pessoa de Jesus. Diante do Mestre, tanto a amargura da mãe católica como o orgulho luterano da fi lha tornaramse insignifi cantes. Elas experimentariam uma aproximação maravilhosa. Quando, porém, pessoas, denominações, costumes, filosofias ou outros interesses ocupam o centro da atenção, então Jesus acaba soterrado e as nossas diferenças se projetam mais e mais. Aliás, nem é preciso ter Teologias diferentes. Também em Pastores e Teólogos que compartilham o mesmo pensamento vaidade e ambição podem produzir desunião irreconciliável, que causa estrago na Igreja.
Importa que o estudo da Teologia foque a pessoa de Jesus e o que ele fez pela nossa salvação. Lutero resumiu este direcionamento da formação teológica assim: No conhecimento de Deus e do homem reside a sabedoria divina e a verdadeira teologia. Este conhecimento de Deus e do homem consiste em reportar-se ao Deus justifi cador e ao homem pecador, de modo que seja assunto da teologia o homem condenado e perdido e o Deus justifi cador e salvador. Qualquer investigação fora desta temática é equivocada, é erro e vaidade na teologia, pois nas Sagradas Escrituras não buscamos (exposições) acerca de bens materiais, de saúde física ou de política, (assuntos) que, todos, foram concedidos ao nosso manejo, que foram criados… Por isto a teologia não é pertinente a esta vida, mas, sim, à outra vida do que aquela que Adão teve (WA 40 II, 237s.).
Assim, podemos aplicar à formação teológica o que o Conde Zinzendorf (1700-60) recomendava aos muitos missionários que enviou mundo afora: ‘Na missão, esqueçam todos os nomes humanos, quer seja Paulo, Pedro, Lutero, Calvino, quer seja Zinzendorf’. Somente quem o fizer aprende a cantar com sinceridade: ‘Guia-nos Jesus, com a tua luz; pela estrada que na vida deve ser por nos seguida…’.

P. Martin Weingaertner, estudou Teologia em São Leopoldo/RS, Erlangen e Tübingen, na Alemanha, e Belfast, na Irlanda do Norte. Atualmente, é Diretor da Faculdade de Teologia Evangélica em Curitiba/PR (FATEV) e Editor do Devocional ‘Orando em Família’
Ninguém pode colocar outro alicerce, além do que já está posto, que é Jesus Cristo
Parece estranho, mas é verdade: não existe reserva de mercado na formação teológica, pois nela o próprio Deus ensina os seus (Is 54.13, Jo 6.45 e 1Ts 4.9). Ele o faz no âmbito familiar, no culto (infantil!), em uma conversa casual, até na academia. Deus é o sujeito do ensino teológico, não nós! Quando ignoramos isto, Ele dá um jeito de ser ouvido: Balaão não ligava para Deus, mas este lhe falou pelo jumento (Nm 22). O sacerdote Eli se tornara insensível e Deus passou a ensinar o menino Samuel (1Sm 3). Isto continua valendo hoje, pois Deus continua o mesmo: seu vento sopra onde quer (Jo 3.8).
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Quem une a família de Deus? |

Deus anunciou que Jesus é meu filho amado, em quem me agrado (Mt 3.17). Quando repetiu esta afi rmação, acrescentou Ouçam-no (Mt 17.5), por isso ninguém pode colocar outro alicerce, além do que já está posto, que é Jesus Cristo (1Co 3.11). Somente nele Deus revela graciosamente o seu amor e nos convida a confiar nele e obedecer-lhe alegremente. Não ao Cristo de concreto do Corcovado nem ao do espiritismo, mas ao testemunhado nas Escrituras. Jesus quer conduzir a nossa vida e unir-nos na família de Deus, pois pode tratar o que fica oculto, l i v r a n d o – nos da podridão que fermenta e gera desunião. Assim a sua graça preserva a família de Deus das b a c t é r i a s desagregadoras. Nele o amor acolhedor inunda a vida e nos capacita a levar as cargas uns dos outros. Este exercício prático de comunhão requer de cada um dedicação, desprendimento, paciência, misericórdia e perdão, que Deus supre em sua bondade.