Sem coração pelo social, a pastoral esfarela-se,esmigalha, despedaça-se. Movimento eclesial nenhum faz jus às terras brasileiras, se não tiver uma intuição social clara. Eis a crise das paróquias… Nas periferias, não pode faltar mão-de-obra pastoral.
Entrevista com Milton Schwantes. IHU ONLINE/UNISINOS.
São Leopoldo, 10 de julho de 2006, p.56.
Com a morte de Milton Schwantes, a IECLB e o mundo ecumênico brasileiro se despedem de um teólogo reconhecido internacionalmente que nunca deixou de ser um pastor da Igreja. Já como estudante de teologia Milton mantinha um pé na academia e o outro nas comunidades e nos grupos de jovens aqui do Vale do Sinos. Fomos colegas de ministério pastoral no Oeste Catarinense e, posteriormente, colegas docentes na Escola Superior de Teologia.
Milton foi um homem de uma energia impressionante, tanto no esporte quanto no estudo e na pesquisa teológicas. Enquanto docente na EST e, mais tarde, na Universidade Metodista de São Paulo, sempre combinou o ensino e a pesquisa acadêmica com a atividade pastoral. Isso deu credibilidade ao seu discurso, pois, além de falar com profundidade, ele falava de modo a que, tanto as pessoas humildes quanto as eruditas, o entendessem. Por isso, foi ao longo de toda sua vida um palestrante muito requisitado, tanto no Brasil quanto no exterior, mesmo que, às vezes, se expressasse de forma polêmica.
Destaco acima uma palavra de Milton que me parece continuar sendo de grande atualidade e importância para nós que continuamos na labuta como obreiros, leigos engajados, presbíteros e em funções diretivas na IECLB: Nas periferias não pode faltar mão de obra!
Destaco esta palavra como um testamento de Milton, pois estou convencido de que, já há algumas décadas, nós como IECLB temos consciência de nosso mandato missionário e estamos tentando nos fazer presente nas regiões mais distantes e mais empobrecidas do Brasil. E, em retrospecto, vejo com alegria e gratidão que, quando nossos fiéis migraram para novas áreas de colonização, nós os acompanhamos como Igreja de Cristo e ali formamos comunidades sólidas.
Hoje é notório o esforço que estamos empreendendo como Igreja, por exemplo, através do Projeto Vai e Vem em diferentes frentes missionárias pelo Brasil afora. Porém, apesar de animadores, continuam tímidos os resultados que temos obtido em termos de criação de comunidades nas periferias urbanas pobres e em regiões com pouca tradição luterana.
Assim sendo, como pastor da IECLB atuando na formação de obreiros e obreiras, me pergunto se nosso modelo de formação teológica contempla suficientemente o mandato missionário de Cristo, destacado nos documentos normativos de nossa IECLB. Ouvindo obreiras/os e lideranças da nossa Igreja, percebo que cresce a consciência de que, em breve, as estatísticas evidenciarão que a IECLB não só parou de crescer, mas está vivendo um processo silencioso e delicado de decrescimento.
Nesse contexto, emergem outras perguntas como, por exemplo: Como podemos ser mais eficazes, como pais e educadores, na transmissão da fé evangélico-luterana de geração em geração, no âmbito de nossa própria família? Como podemos aprofundar o relacionamento com milhares de pessoas que nos procuram para a realização dos ritos de batismo, confirmação, bênção matrimonial e sepultamento? Como firmar e consolidar esta relação inicial e, na força do Espírito Santo, fidelizar estas pessoas como membros da IECLB?
Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram (Hebreus 13.7).
Em espírito fraterno e auto-crítico
P.Lothar Carlos Hoch