Em algum momento, nós mesmos ou os nossos antepassados imigraram. Intempéries climáticas, pobreza extrema, extração de alimentos ou a sua produção, tráfico humano, conflitos militares, relações violentas e/ou preconceituosas no ambiente familiar, bem como a simples busca de novas condições de trabalho são, sem dúvida alguma, as principais causas que levam ou levaram a humanidade a se mover em busca de uma vida plena.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos aceita pela Organização das Nações Unidas (ONU) após a Segunda Guerra Mundial defende, em seu artigo XIII: ‘Toda pessoa tem o direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar’. A Declaração Universal dos Direitos humanos foi o caminho encontrado para buscar a paz e a dignidade após um período sombrio de guerras, em que a humanidade conseguiu mostrar a sua profunda capacidade de gerar dor ao seu semelhante.
As mesmas razões que levam as pessoas a imigrarem já são encontradas nas Escrituras Sagradas. Em Gênesis, lemos sobre conflitos a respeito do uso da terra entre Pecuaristas errantes e Agricultores. No conhecido texto em que Caim mata Abel, esse conflito é caracterizado como sendo a degradação do gênero humano, do qual apenas Noé e a sua família simbolizam o recomeço após o caos. Em Gênesis, 12.10, lemos: Havia fome naquela terra; desceu, pois, Abraão ao Egito, para aí ficar, porquanto era grande a fome na terra.
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Que possamos ter um discurso e uma prática de acolhimento nesses anos em que vidas são tragadas pelos oceanos que nos separam. |
Tráfico humano e posse sobre seres humanos também nos são frequentemente relatados em Gênesis. Abraão buscava a posse da terra prometida por Deus (Canaã), custasse o que custasse. A história de Sarai e Agar explicam os conflitos culturais e religiosos entre semitas e árabes/muçulmanos. Temos ainda as constantes guerras ‘em nome e sob a ordem’ de Deus, nas quais houve assassinatos em massa. De fato, há semelhanças entre o período bíblico e os dias de hoje, ou seja, a necessidade de imigrar mostra a degradação da raça humana e nos desafia a ver a vida sob a ótica do Evangelho anunciado por Jesus.
Nesse momento, temos a impressão que a nossa fé não consegue ultrapassar a barreira das nossas posses e propriedades. Imigrante com dinheiro é chamado de investidor, enquanto o pobre, de refugiado. Ao rejeitarmos pessoas, rejeitamos o próprio Deus! Acolher o imigrante é seguir a orientação do próprio Jesus, que nos diz: Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me (Mt 25.35-36).
Que possamos ter um discurso e uma prática de acolhimento nesses anos em que vidas são tragadas pelos oceanos que nos separam.
Para refletir, leia Mateus 25.31-43
P. Stefan Ruy Krambeck | Ministro na Paróquia Cristo Libertador, em Joinville/SC
Acolhimento de vítimas de violência
Segundo Norbert Elias, Sociólogo alemão, o processo civilizatório pode tanto avançar quanto retroceder. A humanidade não avança em um sentido crescente em direção a relacionamentos justos e pacíficos. Avanços tecnológicos ou científicos não significam necessariamente que vivemos em um mundo mais civilizado que gerações anteriores. Ser ou não ser civilizado está diretamente ligado às maneiras como lidamos uns com os outros no que diz respeito à resolução das nossas diferenças em vistas à construção de dignidade de vida para todas as pessoas, preferencialmente em um processo que envolve ações pacíficas.
Pensando desta forma, podemos afirmar que sociedades tribais tiveram, em muitos aspectos, uma situação de civilidade qualitativamente maior do que nós vivenciamos nos últimos cem anos, período em que já tivemos duas guerras mundiais, além dos conflitos que se perpetuam diariamente ao redor do mundo. Soma-se a isso uma série de outros tipos de violência que caracterizam o nosso tempo como um tempo de retrocesso no processo civilizatório. As estatísticas apontam, por exemplo, que, entre cada três mulheres, uma sofreu algum tipo de violência no Brasil no ano de 2016.
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Cuidar das pessoas feridas, das vítimas da violência no mundo deveria sempre estar no topo de qualquer planejamento missionário. |
As pessoas vítimas da violência produzida no mundo estão em algum lugar. Na verdade, elas estão presentes em nosso meio. Elas estão perto de nós. Elas estão em nossas Comunidades também. Elas são o ‘nosso próximo’. Elas são o próprio Jesus Cristo, que também sofreu a violência do mundo. Elas são aquelas que devemos visitar para estarmos visitando o próprio Cristo.
Cuidar das pessoas feridas, das pessoas violentadas, das vítimas da violência no mundo deveria sempre estar no topo de qualquer planejamento missionário. Isto é inerente ao sermos discípulos e discípulas de Cristo nas sociedades em que vivemos. A Comunidade Missionária se põe à disposição para acolher, para cuidar e para encontrar formas de sarar as feridas das pessoas que ficam machucadas à beira do caminho. A Comunidade Missionária é o ‘bom samaritano dos dias atuais’ – ou deveria ser.
Acolher requer espontaneidade que brota da fé, mas também planejamento. Não é de qualquer jeito que se pode tratar da ferida de alguém. Ainda que se deva denunciar a violência e propor caminhos de superá-la, precisamos ter cuidado para não expor as vítimas a novos sofrimentos. Há um aspecto a ser observado: o poimênico ou pastoral. O acompanhamento, o diálogo com outras pessoas em situações semelhantes e um ambiente onde se sintam seguras para compartilharem as suas dores, os seus medos são fundamentais também. O silêncio não pode ser jamais o caminho. É preciso que as práticas da violência sejam reveladas e denunciadas e a sua autoria também, mas, para que isso seja possível, é necessário o cuidado com proteção e segurança. A pessoa vítima de violência não deve ser vencida pelo medo. Cuidar de vítimas é encorajá-las. Jesus diz: Não tenha medo! Sou eu.
Para refletir, leia Lucas 10.30-37
P. Adélcio Kronbauer | Ministro na Paróquia em Passo Fundo/RS