Em 2009, estive no Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, para lecionar Linguística básica a indígenas que faziam Magistério intercultural. O acesso ao local se dava pelo Rio Xingu ou por avião de pequeno porte. Não havia telefone e a Internet via satélite estava há dias sem funcionar. Em sala, estudavam sete povos distintos: Ikepeng, Kamauira, Karib, Suyá, Tapayura, Trumai e Waura. A interação ocorria na língua materna de cada etnia, pois a maioria falava com dificuldade a Língua Portuguesa.
Passados 15 dias, voltei a Cuiabá/MT, mas uma colega que permaneceu no Parque presenciou algo difícil de entender. Ela estava em frente a uma cabana, em diálogo com uma liderança local, quando, de repente, ouviu um estalo, cuja origem não identificou. O índio colocou a mão no braço, fez uma expressão de dor e se dirigiu ao Posto de Enfermagem. A Enfermeira disse que havia uma queimadura no braço dele, que o índio havia dito que era o sinal da dor pela qual a sua comunidade iria passar, um aviso que um membro do povo que havia ido à cidade de Sinop/MT, com problemas de saúde, teria falecido. Conforme descreveu a minha colega, as mulheres ficaram abraçadas, andando pelo pátio da aldeia, entoando cânticos de sofrimento durante toda a noite. No dia seguinte, chegava a notícia do falecimento.
Essa longa introdução é para nos levar a refletir sobre o que o excesso de racionalidade fez conosco. Afinal, a busca por uma vida de conquistas, as mais diversas, fez com que nos tornássemos pessoas excessivamente racionais – para tudo deve haver uma explicação plausível –, a ponto de ser exigida essa característica até mesmo da nossa fé… a ‘explicação plausível’!
A busca pela razão, pelo entendimento, pela explicação é fundamental para a nossa evolução, mas, antes disso, precisamos permitir que o Espírito de Deus nos toque, nos envolva e nos faça ser pessoas que conseguem ver e sentir a grandiosidade da obra do Criador, pessoas que conseguem perceber e sentir os avisos que chegam e tocam o nosso coração, tocam a nossa vida espiritual, tocam a nossa vida na interação plena com Deus e toda a sua Criação.
Necessitamos encontrar um equilíbrio entre a razão e a espiritualidade, por isso precisamos abrir-nos mais para a dimensão espiritual, fortalecendo a conexão com a origem e o sustento de tudo: Deus. Então, coloquemos a racionalidade no seu devido e importante espaço, mas nos deixemos contagiar pela espiritualidade, guiados sempre pela Palavra de Deus, pela vida que deve ser vivida e sentida, religando-nos com o Criador (Gênesis 2.4-10).